segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Arquétipos do Masculino


  
Quem são os deuses e deusas? Se os imaginarmos como facetas, matrizes, arquétipos das múltiplas faces do Uno Absoluto, os veremos manifestando suas características em cada um de nós. Inseridos que estamos no espaço terrestre, tais como peixes respirando num grande oceano que nos abastece com vida, não nos damos conta deste intercâmbio com tais matrizes. Porém, ali estão elas, reveladas em deuses masculinos e femininos aparecidos nos antigos mitos gregos. Em tais mitos encontramos inesquecíveis arquétipos em seus semideuses, heróis e personalidades que observamos hoje repetidos em homens com que contatamos.
   Aqui abordarei apenas alguns tipos masculinos me fixando nas figuras de: Príamo, Aquiles, Vulcano, Ulisses e Orfeu.
   Caberá depois ao leitor, se o desejar, identifica-los com alguém com quem convive ou já conviveu.

PRÌAMO - Em Príamo, rei de Troia, vamos encontrar o arquétipo daquele homem tão apaixonado pelos filhos que seu amor por eles superará qualquer outro valor ou sentimento, qualquer outro tipo de entusiasmo. Superará o amor de amante ou seja qual outro for.

   Neste mito o instinto paterno de Príamo é explícito:

   Acuado como rei responsável pela estabilidade de uma cidade sob sua tutela, Troia, precisa ser obediente ao oráculo que afirmava que seu recém-nascido filho Páris a destruiria. Pressionado a evitar tal tragédia, de coração dilacerado, Príamo o desterrou para o longínquo monte Ida. Porém, quando o destino a que, segundo os gregos mitológicos, mortal algum fugia, armou a circunstância de trazer Páris, já rapaz, irreconhecível, à Troia, o amor paternal de Príamo surgirá com toda intensidade.
   Ora, Cassandra, sua filha , era investida de dons intuitivos e proféticos e, acertadamente intuiu ser aquele rapaz o seu irmão exilado e previu que ele causaria o fim do reino troiano.
   Contudo, Príamo fez ouvidos surdos às advertências de Cassandra (que desejava ignorar Páris para que voltasse a seu desterro), abriu os braços ao filho e investiu-o como um de seus herdeiros.
   Esquecendo previsões , o amor do velho Príamo pelo filho que julgava perdido, a alegria de novamente tê-lo, o tomou completamente, sobrejulgou tudo, levando um dia realmente a cidade de Troia a uma irreversível destruição.
   Na morte de Heitor, seu outro filho, com uma impressionante força, a sensibilidade de seu extremado amor paterno virá também à tona.
 
Príamo reclama o corpo de seu filho ao grande Aquiles.
 
 
   A guerra de Troia já há muito se desenrolava. Esta, iria levar Príamo à sua maior e mais cruel dor. Assistir das alturas das muralhas troianas, o corpo de Heitor, seu filho bem amado, o caráter mais correto e impoluto do seu reino, ser arrastado pelas areias da praia, amarrado a uma biga, conduzida por Aquiles, seu matador vitorioso. O desejo de Príamo foi logo dar uma dignidade ao corpo de Heitor que fora profanado. Neste intento, o já muito idoso e alquebrado rei tirou forças e valentia suficientes para, numa atitude temerária, sair da segurança de sua fortaleza murada e ir à praia procurar a tenda do mais feroz guerreiro grego, Aquiles, para reclamar-lhe o corpo de seu filho. Fez-se respeitar logo que encontrou o guerreiro, pois este lhe disse entre orgulhoso e surpreso, palavras semelhantes a estas: “Algum deus ou algum sentimento muito forte deverá tê-lo trazido até aqui, pois poucos homens têm a coragem de chegar frente a um inimigo tão poderoso como o grande Aquiles”.
   As revelações paternais de Príamo, sua dor desmedida exposta sem pejo, é uma das passagens mais belas da Ilíada e leva comoção aos seus leitores mais sensíveis.
   Surpreendentemente, foram tocar direto na grande duplicidade do caráter de Aquiles (que veremos quando tratarmos de sua personalidade). Este saiu da tenda por instantes deixando Príamo a sós para ir ocultar emoções e lágrimas, retornando depois, para devolver-lhe o corpo do filho e conceder-lhe sete dias de trégua na guerra, para que os habitantes de Troia pudessem dar honras fúnebres a seu mais ilustre e digno herói: Heitor.

AQUILES

    Quando conhecemos um homem extremamente vigoroso, aparentando invencível força, pronto sempre a responder qualquer simples desagravo com violência, a responder pequenas contrariedades com reações intempestivas, porém, sensível o bastante para não conter o pranto diante de situações de intensas alegrias e tristezas, estaremos fazendo face ao arquétipo de Aquiles o grande guerreiro mitológico.
    A deusa Tétis que procriara Aquiles com um mortal era inconformada com a vulnerabilidade humana que seu bebê herdaria. Quer por tudo lhe dar a imortalidade. Vai então banhá-lo, para imunizá-lo no sagrado rio Estige. Na verdade, conseguiu em parte seu intento. Porém, esqueceu-se que ao segurar seu bebê pelos calcanhares , deixou esta sua região, não molhada pelas águas, vulnerável como a de qualquer mortal.
   Assim tornou-se Aquiles: invencível em qualquer embate, forte, mas com uma não percebida fragilidade.
 No texto passado, em seu diálogo com Príamo, vendo o rei ancião desnudar seu amor por Heitor, ele, que havia deixado há anos um filho em Esparta para vir guerrear em Troia, ao lembrar o próprio filho, revela-nos tal fragilidade emocional.
 
   Aquiles e Pátroclo

   Aquiles marca também suas amizades com seu caráter impetuoso.
   No ideal grego a amizade era muito valorizada. Estendia-se principalmente ao relacionamento entre dois homens devido à condição em que viviam as mulheres, devotadas apenas ao lar e aos filhos. A lealdade e o compartilhar recebia grande respeito da sociedade. Quando levada ao extremo, não raro, conduzia amigos à relações homossexuais, com plena aceitação.
    Homero não nos indica claramente se tal condição de relacionamento existiu entre Aquiles e Pátroclo, porém dá a sua amizade grande intensidade.
   Foram, os dois, amigos desde a infância e juntos viveram as aventuras juvenis.
    Conta o mito que durante a guerra de Troia, Aquiles fora humilhado por seu companheiro Agamenon que desejava a mesma escrava por quem Aquiles se apaixonara. Este, num ímpeto, deixa o campo de batalha e espera que Agamenon venha retratar-se.  Para o herói, pior que perder a guerra era ver-se humilhado, perder a honra.
 
Aquiles segura o corpo de Pátroclo.
 
 
    Contudo, Pátroclo, seu amigo, não se conformava pelas perdas provocadas por aquela ausência demorada do grande guerreiro, pela falta de sua vigorosa competência. Suplica-lhe que retorne à luta, mas Aquiles, teimoso, orgulhoso, recusa.
    Pátroclo resolve então intervir. Disfarça-se com a armadura do amigo pretendendo enfrentar os troianos, os intimidando com a temida aparência de Aquiles. Chegou até a conseguir algum recuo das tropas troianas apavoradas a pensarem: É Aquiles, Aquiles que chega!  Porém, o deus Apolo que desejava a vitória de Tróia, arranca-lhe o capacete que lhe encobria a face, revelando a fraude.
    Heitor, filho de Príamo, percebendo o embuste, golpeia Pátroclo que cai ferido mortalmente.
    Longe dali, nos conta o mito, Aquiles ouviu, numa mostra de identidade entre ele e o amigo, o seu grito de morte. Volta à luta e mata Heitor o arrastando pelas areias da praia, como vimos no mito de Príamo. Homenageia o amigo morto, num revanche, com o corpo de seu assassino.
    Diz-nos ainda o mito, que mais tarde pela ocasião da morte de Aquiles, suas cinzas foram misturadas as de Pátroclo, no simbolismo de uma amizade perene.

Aquiles e Penteseleia

Este mito nos expõe a extrema duplicidade de Aquiles: Seu vigor, sua emotividade.
    Penteseléia é a rainha das Amazonas, corajosas mulheres que vieram de longe guerrear a favor do rei Príamo.
    É bela, é selvagem. Enfrentaria em luta, face a face Aquiles. Tombará sob o golpe deste inimigo destruidor, investido de vigoroso ódio.
    Porém o inusitado se daria.  Nada contudo que não se esperasse do caráter dúbio de Aquiles.
    Quando Penteseléia põe nele o seu olhar agonizante, este olhar vai suscitar a sua grande vulnerabilidade . Aquiles viu refletido nele aquela Idêntica coragem, aquela mesma gigantesca força de que era possuído.
     Um amor súbito por Penteseléia, aquela guerreira espelho seu, réplica sua, o irá tomar. Abraça-a apertadamente arrependido, e, entregue à sua dor , cai num convulsivo pranto.
     Homero nos assegura que em todos os cantos da batalha, seu exército ouvia seus choros e lamentos.
     Tersites, um de seus companheiros gregos ousou debochar da extrema ternura mostrada à Penteseléia por Aquiles. Tenta profanar o corpo da Amazona, furando-lhe os olhos. Aquiles, transtornado pela dor, investe para o imprudente guerreiro e o mata a socos.
    Assim, serão todos os homens semelhantes a ele: Vigorosos no ódio, combativos nos conflitos do dia a dia, mas absolutamente frágeis quando um grande amor os possui. 

ULISSES

    Ulisses protagoniza o arquétipo do homem astucioso e persuasivo. Aquele que sempre tentará ludibriar o destino dado pelos deuses, superar seus desígnios com a razão da consciência humana.
    Seus pensamentos ágeis, inventivos, sempre antecederão suas ações.
     Grego, rei da ilha de Ítaca, sua atuação na guerra de Troia onde, segundo o mito, certa vez disfarçado, deixa o campo de batalha, penetra na cidade onde roubará o Paládio (a bela estátua de Atená do templo troiano)  é uma de suas muitas astúcias.
    Sua grande e mais conhecida artimanha é o que decidirá a guerra que prolongava-se já por 10 anos. Que melhor fraude planejou do que, após fazer construir o famoso cavalo de madeira, mandar esconder as naus gregas por trás dos rochedos, simulando uma partida, uma desistência de seu exército?
    Jubilosos pelo suposto fim do conflito, os troianos que saem para à praia, lá encontrarão um soldado choroso, deixado ali propositalmente por Ulisses, instruído a dizer que fora abandonado por seus companheiros e a explicar aos curiosos troianos o que era aquele cavalo: Uma oferenda à deusa Atená. E, sua gigantesca estatura visava não deixar que os troianos o roubassem pois segundo dissera um oráculo – afirmava - caso o levassem para dentro de suas muralhas, ganhariam a guerra.
    Alegres, os troianos, na intenção de garantirem aquela vitória, enganados pelas mentiras de Ulisses, arrebentaram os seus portões e muradas levando assim para dentro da fortaleza, uma grande parte da tropa inimiga, escondida no espaçoso ventre do cavalo, propiciando eles mesmo ingenuamente o surpreendente e doloroso fim de Troia.
    Na Odisséia, (a volta à sua amada ilha de Ítaca) exibe toda a sua inteligência ardilosa, toda a lucidez para vencer obstáculos.
    Netuno que havia presenteado a muralha protetora da cidade de Troia, quer se vingar daquele audacioso que a venceu e tentará de todas as formas lançar sobre ele suas forças marinhas , dificultar-lhe o percurso de volta com tentações.
     Numa caverna, onde quer abrigar-se, Ulisses encontrará o gigante Polifeno a quem vencerá queimando-lhe o único olho que possuía. Mas, preservará para possíveis companheiros do gigante a sua identidade quando inventa a este que o seu nome é “Ninguém”. Assim, quando indagado : - Quem o queimou? Polifeno dirá simplesmente: Foi Ninguém, foi Ninguém.
       Quando o gigante veio buscar seus carneiros e passou a conta-los um a um, passando a mão sobre seus pelos, como já estava cego, não reparou que Ulisses havia amarrado seus marujos sob o ventre dos animais . Foi assim que saiu uma grande quantidade de homens a salvo de dentro da caverna.
      Segue Ulisses, ludibriando, astuciando, passando até imune pelo canto mavioso das sereias. Estas, mulheres frias da cintura para baixo, pois eram metade peixes, assexuadas inimigas dos homens, que queriam conduzi-los ao fundo do mar com seu canto sedutor.
 
Ulisses amarrado ouve o canto das sereias.
 
 
    Isto será para Ulisses o seu ardil mais fácil: Encherá de cera os ouvidos de seus marinheiros enquanto ele próprio se amarra aos mastros, feliz por ouvi-las e enganá-las.
    Parando em ilhas, amará ninfas e rainhas , mas depois as deixará porque sempre será vencido pela saudade, pela grande paixão que tem por seu lar. Ele é o herói ligado intensamente ao grupo familiar. É o símbolo da busca, do retorno à suas raízes. Retorno que para ele durou outros dez anos.
   É novamente usando disfarces, num embuste para enfrentar pretendentes ao seu trono e à sua esposa, que Ulisses entrará finalmente em seu palácio. Passando por mendigo andrajoso, é debochado por querer participar do torneio de arcos com que Penélope irá conceder sua mão ao vencedor.  Nem ela própria o teria reconhecido não fosse ao vê-lo abrir o arco que só a destreza de Ulisses sempre fora capaz de manejar.
   Será então com o seu caráter ardiloso que Ulisses tomará novamente posse de tudo aquilo que há anos deixara: Sua fiel Penélope; seu arco, guardado em um armário esperando que só a sua habilidade de novo o manejasse; sua ama que o criara e que o reconhece pela cicatriz que tantas vezes vira em seu corpo quando em sua infância o banhava; E o seu cão Argos que dá ensejo a este belo trecho da Odisseia: 

                       “Ao ver Ulisses que há tanto tempo partira

                        a cauda abana jubiloso e alegre

                        Mas não se move porque a velhice o tolhe.

                         Ao vê-lo Ulisses, sem que o vejam os outros,

                         rápido enxuga inoportuna lágrima.

                          E o fado liberta o velho Argos

                          Que vinte anos esperara para rever o dono.”

   O homem com o perfil de Ulisses terá um decidir rápido e vivaz. Terá presteza e facilidade de sair incólume de situações difíceis onde sempre usará de sutileza e astúcia.
   Suas raízes culturais e familiares o prenderão firmemente. Voltará sempre a elas mesmo que haja se desviado por atalhos sedutores. Por elas, empregará se necessário subterfúgios e ardis. 

VULCANO

Vulcano (Hefesto) criado pela nereida Tétis era a criança tão feia que sua mãe, a imortal Hera, julgando que os filhos de todos os deuses imortais deveriam ser belos, envergonhada de apresentá-lo no Olimpo, acabou por atira-la ao mar, do alto para o mundo dos homens, aumentando sua feiura ao aleijá-lo.
    Representa o homem que traz em si um grande talento, uma grande sensibilidade à grandeza, à beleza da arte. O homem artista que só através dela se consolará e superará quaisquer sofrimentos, mágoas e revoltas.
No mito, se torna o legítimo artesão divino, senhor do fogo e da bigorna com os quais forja lindíssimas peças de ouro , joias e armas.
    Forjou a famosa armadura de Aquiles, que provocou, após a morte deste, uma competição, por quem iria herdá-la. Competição que resultou no suicídio do guerreiro Ajax, inconformado por perder tal preciosidade para seu competidor Ulisses.
    Também a reluzente armadura de Atená saiu de suas mãos criativas.
    Toda a sua arte o tornava um ser realmente divino, mas seu lado humano, bem explicitado em suas revoltas, o levava à maldades inesperadas.
 
Vulcano (Hefestos grego), artista e
forjador divino.
 
 
    Mandou de presente para sua mãe Hera que o deixara coxo, um trono feito de ouro, tão belo que deslumbrou todos os imortais. Porém, não assinou o presente. Quando Hera sentou-se nele sentiu-lhe a imponência, a majestade. Contudo, ao tentar levantar-se, estava presa a ele. Todos a rodearam na tentativa de libertá-la, querendo desfazer a magia do feitiço que o autor desconhecido imprimira aquele trono, sem nada conseguirem.
    Logo suas desconfianças se confirmaram: tal maravilhosa obra só podia ter sido esculpida pelo artesão divino, querendo vingar-se da mãe que o rejeitara.
    Ao ser chamado, fez a sua proposta: Iria libertá-la caso lhe fosse dada por esposa a mais bela das deusas do Olimpo: Afrodite.
    Muitos estudantes de mitos surpreendem-se da Mitologia dar a Vulcano, o mais feio dos deuses, à mais bela das deusas.
    Porém, Vulcano é o artista que busca eternamente a beleza è apaixonado por ela . Só o belo, o perfeito como o de Afrodite, o contenta, o completa.
    Quando Afrodite o traiu com Ares, Vulcano, magoado, forjou uma teia de ouro transparente e forte, tão esplêndida como tudo que saia de suas mãos e nele enrolou os dois amantes que dormiam e fez com que os outros deuses olímpicos fossem testemunhar o adultério de sua esposa.
    A união de Afrodite e Ares (Marte) é um desvio jamais aceito por um artista pois une beleza à violência, à guerra. Só o retrata para repudia-lo.
    Apesar da característica instintiva, sensual de Afrodite tê-la feito procurar amantes, sua presença radiosa é sempre também vista junto a Vulcano, embelezando sua oficina repleta de forjas, instrumentos, foles, pedaços de ferro e bronze onde o artesão divino trabalhava num fervor, absolutamente entregue a tirar perfeição daqueles materiais pesados.
    Somente Afrodite, deusa da beleza que era, tem a sensibilidade de perceber aquela que Vulcano traz internamente.
    Vulcano sempre corresponderá ao perfil do eterno artista que olha o mundo sob um prisma profundo; cujos olhos o devassam; que vê nele sutilezas, mistérios, nuances que o comum dos homens não percebe; que deseja reproduzi-lo para eternizá-lo, para que os momentos de emoção e beleza não se percam.

  ORFEU (A busca da alma, do âmago de si mesmo)

    Quando dizemos: “Tal homem vive para as coisas do espírito, Nada há que valorize tanto como a busca de uma origem divina em si”, com certeza estaremos nos referindo a alguém com um arquétipo semelhante ao do lendário Orfeu.
    Orfeu ama e busca sua alma. No mito, ela é Eurídice, a bela ninfa que ele quer por tudo possuir. Porém, sempre um imprevisto ocorrerá impedindo seu propósito. Chegou sim a casar-se com Eurídice, mas no próprio dia das bodas a ninfa foi mordida por uma serpente, e morreu.
 
Orfeu ampara o corpo de Eurídice,
morta pela serpente.
    O desespero o toma. Por quê? Por que quando mais a deseja quando a tem já tão perto a perde? Sente-se alguém incompleto, bipartido. Precisa achar a sua unidade. A busca pela unidade corpo/alma lhe será insana. Terá que buscá-la nas profundezas de si mesmo (no mito, o reino dos mortos de Plutão) Terá que ressuscitá-la.
   Atender o barqueiro Caronte que cobra exorbitantes taxas para conduzir alguém vivo pelo rio Estige são os preços altos que terá que pagar para ir buscá-la. É necessário que atravesse as águas fluviais ora revoltas, ora flutuantes de suas emoções (simbolizadas no rio). Porém enfrentar o furioso cão Cérbero de três cabeças que guarda a porta do Hades, será seu maior desafio.
    Contudo, Orfeu não é alguém abandonado pelos deuses , pois possui talentos: Sua música, sua poesia. Criou a cítara e quando ela acompanha a sua extraordinária voz, ele atrai pássaros, apassiva feras. São os recursos com que conta. Todo homem – pensa ele - conta com recursos próprios para encontrar sua alma, seu mais interno ser e os dele eram fabulosos, por isto não desiste.
    Comove Caronte, quando traduz em versos para ele , a imensa atração que tem por Eurídice.
    E Cérbero, o cão? Este adormece indefeso , ao ouvir a mais bela voz da Trácia entoar ante ele canções tristes de impotência por não possuir ainda Eurídice.
    Penetra, sim, o Hades, Ali o recebem Plutão e Proserpina. Deslumbrados, os deuses assistem Orfeu com a suavidade de sua voz pacificar os transgressores que cumprem penas no Tártaro. Veem com surpresa a harmonia de seu canto diminuir a fome e a sede eterna de Tântalo. Vão por fim conceder-lhe o que deseja: Eurídice.
    Porém, condições existem para que alguém tome posse plena de sua parte divina, de sua alma. Os deuses dão-lhe então imposições: Poderá leva-la, mas ao atravessar o rio, de volta ao mundo dos vivos, a deverá preceder em outro barco. E, importante seria; não olhar para trás.
    Contudo em meio ao percurso Orfeu pensa: E se Plutão o está enganando? Será que Eurídice realmente o segue? Não resiste a ansiedade, a ter uma confirmação. Volta-se para olhar atrás. Eurídice que já apresentava a aparência dos vivos, desfaz-se ante seus olhos, retornando ao Hades. De novo a tem perdida.
    O olhar para trás em mitos mesmo sob fortes emoções é o não voltar-se a erros e falhas do passado e para Orfeu vai lhe revelar qual falha que o havia sempre feito perder a sua alma: a falta de fé, de crença e confiança nas promessas dos deuses.
 
Orfeu pacifica as feras com sua arte.
 
 
    Eurídice morta não é mais contatada. No entanto, continua a ser o complemento dele, sua parte integrante. Ela então também não consegue usufruir a felicidade dos Campos Elíseos (o grande paraíso dos mortos). É necessário para isso que Orfeu se regenere, torne-se um homem de fé inabalável, aproveite seus dons para auxiliar os homens, que faça um grande serviço à favor deles. Por paixão à Eurídice, Orfeu se empenha.
    Cria os “Mistérios”, as “Iniciações”, cria o Orfismo. Neste seu grande movimento onde a meta era espiritualizar a consciência dos homens, estes aprenderão as leis divinas, através da ascese, do estudo , meditação, da arte poética e lírica, e da catarse purificadora.
    A morte violenta de Orfeu nos mostra a incompreensão mostrada para com os homens que desligados das tentações materiais empenham-se apenas em buscar sua unidade, seu complemento alma, sua centelha de imortalidade.
    As Mênades, mulheres sedutoras da Trácia, sentem-se traídas quando Orfeu, homem belo e cheio de talentos, as recusa por amor e fidelidade à sua amada Eurídice. Esquartejam-no, jogando o seu corpo ao rio. Mais iradas ficam, quando aparecerá flutuando no rio a cabeça de Orfeu, sede de seu pensamento, a cantar: “Eurídice!, Eurídice!”
    Só quando foi resgatado o seu corpo esquartejado para ser cultuado num templo, recebendo honras e reconhecimentos; quando ele unificou-se a sua Eurídice pelos Mistérios Iniciáticos que dedicado e cheio de fé propagou, os habitantes da Trácia se livraram das pestes e sofrimentos que continuamente os acometiam.
 

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