sábado, 30 de julho de 2016

A Mitologia e a criação do Universo


  A palavra mitologia é composta de “Mito” significando fábula, estória, mais “Logia”: tratado.
   Seus conceitos são variados: Seria um tratado que memoriza uma história real, verdadeira do homem e do mundo; uma memória da origem das coisas intuída e expressada através das fábulas dos povos pagãos. Seria também um imaginário onde os povos pagãos personalizam as forças da natureza. Ainda seria a personificação das potências internas do homem. Os mitos transformando emoções como amor, ciúme etc. em personagens de suas fábulas.
   É por este último conceito que o mito passa a ter muita importância, na medida em que procura e expressa a profundidade dos sentimentos e comportamentos humanos. O mito passa a ter valor para a Psicologia, mormente na psicanálise onde é conceituado como arquétipos, como um inconsciente coletivo, isto é, modelos de estados de ser comuns a todos os homens. Como o grande estudioso de mitos dentro da psicanálise contamos com o psicanalista Jung.
   A mitologia grega, sendo a base do patrimônio artístico e cultural do povo grego, vem a ser também a base de muitos de nossos usos artísticos e de expressões, que chegaram até nós através de Roma. Sabemos que esta sempre assimilou a cultura dos vencidos e, assimilando a grega , espalhou-a no ocidente.
   Por exemplo: Ao dizermos: ”Isto é presente de grego”, estamos nos referindo a estória mitológica do “Cavalo de Troia”.
   Quanto as fontes deste estudo, lembremos que a maioria do povo grego primitivo não sabia ler. Mas, suas lendas eram transmitidas oralmente por poetas, os Aedos, que transformavam as lendas em poemas, e os declamavam de aldeia em aldeia. Também os Rapsodes, cantores populares, as cantavam perante o público.
No século. IX AC, temos a fonte mitológica da obra de Homero que escreveu a Ilíada e a Odisseia. No século VIII AC, a obra de Hesíodo. Escreve a Teogonia, isto é, a criação do mundo, dos deuses e homens. Também temos as Escolas de Mistérios Iniciáticos como a Escola Órfica. (Escola Iniciática de Orfeus) , os Mistérios de Elêusis (que teatralizavam os mitos), também as artes plásticas do classicismo grego e o Teatro.
   A Mitologia grega desenrolou-se no Peloponeso (Grécia peninsular), nas suas famosas ilhas (Grécia insular) e onde hoje é a Turquia (antiga Grécia asiática).
Geia, a Terra e Urano, o céu estrelado.
  O povo grego ficou conhecido como o mais imaginativo da Antiguidade e haviam razões para isso. Principalmente por sua geografia. Pais situado sobre grandes penhascos, de onde se divisa ao longe horizontes muito distantes, visões marinhas amplas. Em um cenário radioso, o pensamento tende a divagar, pois sabemos que a medida que somos colocados, ao contrário, em espaços geográficos muito limitados nossa mente tende a se apequenar. Entre os próprios gregos vimos a diferença entre os atenienses e os espartanos, estes últimos colocados em cenários interioranos fechados.
   O espírito imaginativo do ateniense o fez criar personificações geniais para seus deuses, fazendo seus deuses à imagem dos homens, retratando neles suas fraquezas e talentos. Mais tarde, dali sairiam também os grandes filósofos.
   Do alto dos seus penhascos, os gregos viam a noite sumir e o sol chegar e imaginavam que a noite foi a primeira coisa a existir no universo. Então, aceitaram como verdadeiro o grande poema de Hesíodo. Nele, era dito que nas trevas flutuavam as sementes de toda a vida em absoluta desordem, todos os elementos da matéria.
   Deste Caos, surgiu Geia, a grande mãe, a força limitadora que iria construir as formas, pôr uma ordem ao Caos. Como um grande útero, Geia (ou Gaia) limitará e dará forma também a um mundo que vai repetir o seu nome, Geia. Dará também nascimento e formas a astros, criando o estrelado espaço celeste, que chamariam de Urano. Espaço que envolverá Geia num forte abraço. Assim, vemos os princípios que, segundo os gregos mitológicos, estruturaram o universo: Forma e Força, mãe e pai primordiais.  Do globo terra, brota um grande ovo do qual sairá Eros, o primeiro ser criado do par Geia e Urano. Eros é o amor, a vitalização, o movimento do qual nascerão depois todos os seres vivos.

A Tocha Olímpica, numa visão mitológica

Era chamada pelos antigos gregos que inauguraram os jogos olímpicos de: “A Tocha Sagrada de Prometeu”.
    Prometeu o grande herói civilizador, havia criado homens, moldando-os com o barro da terra e com as suas próprias lágrimas. Dava assim a estas suas criaturas não só um corpo físico, mas também muita emoção.
    Corria o tempo e Prometeu percebeu que os homens estavam muito tristes, sentindo-se frágeis e inoperantes, pois nem sabiam como forjar ferramentas para o plantio do solo.
    Subiu então ao carro de fogo do deus solar Apolo, que todas as manhãs surgia radioso no céu, e dele roubou uma tocha de fogo e entregou-a aos homens.
    Deu-lhes assim a sua maior aquisição. Com o fogo forjador, capacitaram-se a sobreviver não apenas pela labuta de matar animais, mas abastecendo-se com as riquezas da “Mãe Terra”.
  Zeus, o sábio deus governante do Olimpo, submeteu então Prometeu a um doloroso castigo, por ele haver dado tanto poder aos homens. Zeus temia que estes viessem a usar o fogo para forjar armas belicosas.
    Em nossa modernidade, a tocha agora chamada de “Tocha Olímpica“ representaria, segundo a Mitologia, uma época em que Prometeu iluminou os homens com o poder de usufruir a natureza.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A Trindade Sagrada

A simbologia da Trindade é uma das primeiras tentativas de entender a estruturação da natureza, do homem e do universo. Assim, vemos no antigo Egito o culto de Osíris, Ísis e Hórus, voltado à força da Trindade em relação à natureza. Hórus era a germinação que o pai Osíris, (o rio) fazia brotar nas suas margens (a mãe Ísis). Hórus era o fruto do casamento místico de Osíris e Ísis, do rio com a terra. Tríada de pai, mãe e filho que era a própria vida, a alimentação e a sobrevivência do Egito.

A trindade egípcia.

    Na Índia, a Trindade cultuada era voltada também para a natureza, mas também para os ciclos da existência humana. Era o nascer, o manter-se e o destruir-se da natureza e do homem: Brahma, Vishnu e Shiva. Shiva era o destruidor, liricamente descrito assim: ”Shiva é a força que faz a folha cair”, finaliza os ciclos, destruindo a criação para que novo ciclo criativo tenha início. Tais ciclos eram o próprio princípio da reencarnação do Bramanismo: Nascer, morrer e renascer se repetindo em ciclos contínuos.

A trindade indiana.

    A Árvore Cabalística judaica foi tida como herética durante muitos séculos própria ortodoxia judaica. Guardou-se, porém dela uma tradição que foi passada ao Cristianismo. Quando hoje numa igreja cristã afirmamos: “Tu és o reino ,o Poder e a Glória “ não imaginamos que repetimos a tríada que na base da “Arvore cabalística” sustentava o homem, e o universo, conforme pensavam os religiosos da arcaica região da Caldéia.
    As Escolas Pitagóricas no terceiro século antes de Cristo eram voltadas à parte psicológica do homem. Viam nele uma Trindade de Percepção, Razão e Intuição. Percebemos as coisas ao nosso redor com nossos sentidos, as analisamos com a nossa mente racional, concreta, mas às vezes o nosso raciocínio erra. Só acertamos quando usamos a mente intuitiva abstrata.
    A mente concreta é aquela que causa os fenômenos psíquicos. Como exemplo a Telepatia. Alguém pensa em nos visitar e podemos eventualmente ver seu pensamento, seja em sonhos ou visões. Já a mente abstrata, traz nossas intuições não de algo externo, mas do nosso interior, do nosso Eu Superior. A intuição nos leva à causa real das coisas e também a um futuro por acontecer. Pode nos preparar para momentos que iremos viver, sem termos qualquer imagem ou ideia antecipada do que serão.
    Nos primeiros séculos da era cristã, a Igreja, que estava em formação, preocupava-se com o interesse que grupos esotéricos mostravam pela Trindade. Para que se calassem, a Igreja estabeleceu o Dogma da Santíssima Trindade. Em sendo dogma, era proibida de ser estudada. A Igreja assim fechou durante séculos este estudo sob ameaça de considerar herege a quem se aventurasse a fazê-lo. O Dogma dizia: “Jesus é três pessoas distintas num só Deus verdadeiro”. Para a Igreja incomodava que a teoria da Trindade estudada por esotéricos dissesse apenas que Jesus era corpo, alma e espírito como todos nós, um homem, enfim. Que estivessem a explicar que três pessoas distintas eram aquelas citadas no dogma.
    Quando outros dogmas vieram (como o da Virgindade de Maria e o da Sua Ascensão) a Igreja limitou e determinou seu próprio papel, aquele que teria para sempre: Não seria jamais a explicadora de simbologias e princípios divinos, mas ficaria no papel de guardadora de símbolos, com os quais enriqueceria os seus templos. Na verdade, o interior de uma igreja cristã é uma mina, um manancial de símbolos. Mas jamais serão por ela explicados, limitada que está, pelos seus próprios dogmas.
    Deixou com isso de auxiliar seus fieis a chegarem à profundidade de consciência que a interpretação de símbolos lhes dá. Porém, tudo está certo. Não julguemos a Igreja, pois todos temos um papel a cumprir e o da Igreja será sempre aquele tão importante de reunir, guardar e não deixar que se percam símbolos.

A Trindade cristã.

    Para nosso contato com o Absoluto, para o nosso Religare, contamos com uma Trindade de abordagens religiosas, com três principais correntes e práticas religiosas: A indiana, a cristã e a egípcia.
    A indiana conduz o homem pela mística. Quer anular a personalidade ,o ego, para captar a essência do Pai. Refere-se à primeira pessoa da Trindade. Existe nela um perigo: A alienação. Alienarmos-nos de interesses materiais que são afinal importantes, pois Deus está em toda a parte. Conta-nos o budismo Zen que, ao estabelecer-se, ele procurou fazer um equilíbrio entre o budismo indiano e o japonês, pois enquanto o indiano não dá a mínima importância ao ambiente que o rodeia , o japonês, como um amante da beleza que é, procura sempre enchê-lo dela, sendo que na mais humilde casa um ou outro aspecto da beleza sempre estará presente.
    A linha cristã traz como marca o relacionamento de um homem para com outro homem. Sua finalidade é o ”Amai-vos uns aos outros” da doutrina da segunda pessoa da Trindade: O Filho. Porém, nela também estamos expostos a um perigo: O demasiado rigor. Isto porque o Cristianismo é originário do rigorismo da disciplina mosaica. Quando bifurcou para o Islamismo, tornou-se de um rigor intensificado. Porém, aqui no ocidente temos linhas cristãs que para respeitar e apreciar alguém, lhe impõe mudanças de costumes e hábitos em matéria de vestuários, cortes de cabelo, frequência em festas, etc. Isso ,afinal, não condiz com o verdadeiro “Amai-vos uns aos outros”, pois este independe de costumes. Tanto faz que estejamos de burca ou num sári indiano ou num jeans americano, o costume é o que menos importa, só o amor entre indivíduos vale.
    Finalmente, temos a corrente egípcia, que é mágica. Nela, o homem se sente usufrutuário das forças da natureza. Usa amuletos, sortilégios, cristais, ervas. É atraído pelos grandes mistérios do mundo físico, pelas suas forças curativas. É o Espírito Santo, 3ª pessoa da trindade que o habilitará a ser um mago. Seu perigo será a despreocupação com o próprio comportamento, confiando que poderá sempre resolver suas dificuldades através apenas da magia. Como exemplo, temos num ritual (uma magia na qual se usa perfumes , cores, sons, elementos do mundo físico) quando seria necessário o equilibrarmos com a 2ª pessoa da Trindade, com o comportamento , o amor na atividade cotidiana, e nem sempre isto é feito.
    A partir do séc. XIX novas escolas espiritualistas as chamadas modernas, nos trouxeram o estudo da Trindade. Aparece a russa Helena Blavatsky relacionando-as aos três raios básicos do prisma solar. O raio azul, o amarelo e o vermelho. Também a brasileira de pseudônimo Chiang Sing, difunde entre nós este estudo. Ambas citam também as três consciências superiores de Vontade, Sabedoria e Amor que correspondem à consciência do nosso Atma, da nossa consciência Búdica e da nossa consciência de Manas respectivamente. Ambas falam ainda dos mestres ascensionados  que nos auxiliam no desenvolvimento destas consciências.
   Diferenciamo-nos uns dos outros devido a diferença como estas potências atuam em nós.
 Os três raios de Vontade, Sabedoria e Amor formam juntos o que o espiritualista chama de “Raio Egoico de nossa Mônada” Em cada um de nós temos um deles dominante, outro secundário e outro como terciário. Isto é, cada um de nós, os temos em combinações diferentes que poderiam ser assim ilustrados:


A chama trina, os três raios.



 1 V. S. A.   dominante, secundário, terciário.
 2 V.A. S.     dom.             sec.      terc.
 3 S. V.A         “                 “          “
 4 A.V.S          ”                 “          “
 5 A.S.V.         “                 “          “
 6 S .A.V.        “                 “          “
 7  V.S.A   Todos dominantes,  pelo equilíbrio de alguém que já atingiu  a perfeição.                              
    Porém, temos também o que chamamos de “Raio Encarnatório”. Pois alguém pode ter como seu raio egoico, dominante, a Vontade e numa encarnação estar desenvolvendo o seu secundário ou seja desenvolvendo a Sabedoria, ou o Amor que poderão  estar sendo apurados como prioridades.
    Estes conhecimentos são curiosidades intelectuais para melhor nos conhecermos, porém, o mais importante para nós é usarmos estas consciências no nosso cotidiano obedecendo a esta sequência ao fazermos os nossos atos inicia-los sempre por uma forte Vontade, depois discerni-los para fazê-los com sabedoria e por fim realmente concretiza-los que é o amor posto em atividade.
    Só assim nossos atos estarão perfeitos. Observamos também se não estamos usando demasiadamente um dos três raios em detrimento dos outros, para que  o equilíbrio seja alcançado.
No uso da magia com as três cores do prisma solar, não se trata de crer ou não crer na teoria benéfica de seu uso, mas sim de um sentir. Sentir que não somos seres soltos no universo, sem qualquer envolvimento com ele. Mas por estarmos assimilando a força de um astro (no caso o sol) nos sentirmos parte do todo universal, sentimento que é própria razão do Religare, da ligação ao Absoluto, a Deus.

sábado, 11 de junho de 2016

Interpretação Esotérica do Mito de Orfeu


Orfeu acalma Cérbero com sua Lira.
Orfeu era filho de Apolo e herdou do pai o dom da arte, da música.  Assim, tornou-se o maior tocador de lira e cantor da Antiguidade.
     Orfeu é no mito o próprio homem, descendente do divino e que traz em si o dom da arte. Ele era apaixonado por Eurídice, e estava sempre a procura-la porque seu maior desejo era possui-la e jamais se separar dela. Eurídice representa a própria luz interna do homem, a sua alma. O amor verdadeiro a se realizar.
    Entre as suas atividades mundanas ele sempre a busca porque não quer se separar do seu interior, de sua própria alma. Porém, Orfeu traz em si algo negativo que sempre o faz perdê-la. Não sabe que algo negativo é este. Por que –pensa ele- toda vez que está quase a possui-la a perde? Chegou a marcar um casamento com ela, mas no dia do casamento Eurídice foi passear num bosque e foi mordida por uma serpente e morreu. A serpente é o símbolo do mal, no caso o mal que Orfeu não conseguia vencer.
     Morta, Eurídice vai para o mundo de Plutão. Para o espiritualista, o reino de Plutão representa o âmago mais profundo do nosso ser, no mito o âmago do próprio Orfeu. É lá que Eurídice vai se refugiar, sempre na esperança de que ele saia a busca-la.
     Orfeu começa então uma desesperada procura para ir ao seu encontro. Passa por atalhos sombrios, e depois pagos um preço muito alto para o barqueiro Caronte, condutor de um barco que vai por águas revoltas de um rio, até reino de Plutão (o âmago de Orfeu).
     Esses esforços de Orfeu representam aqueles que fazemos para encontrar nossa luz interna, a nossa Eurídice.  Os atalhos são aqueles nos quais nos desviamos antes de encontra-la. As águas revoltas do rio são as ansiedades que colocamos em cima de algo que desejamos, e que nos dificulta consegui-las.
Hades permite a saída de Eurídice do reino dos mortos.

Chegando ao reino de Plutão, Orfeu encontra o cão Cérbero.  O cão tem três cabeças. As três cabeças simbolizando os nossos três corpos inferiores, nossos instintos, emoções e pensamentos. Orfeu precisa vencer estas três cabeças, para entrar na posse de Eurídice, o amor. Porém, ele possuía um recurso, a sua arte.
      Já tinha desenvolvido este dom e sempre que cantava levava alegria às pessoas. Ele irá ajuda-lo.  Frente a Cérbero, pega a sua lira e passa a cantar. O cão foi se acalmando, acalmando, até adormecer. Aqui o mito nos fala no valor da arte para os corpos inferiores do homem.
     Finalmente Orfeu encontra Eurídice. O deus Plutão, contudo, lhe impõe uma condição para leva-la para sempre.  Propôs-lhe: Passariam o rio, ele indo num barco à frente e ela num noutro barco seguindo-o. Ele não deveria olhar para traz, se isso acontecesse ele a perderia de novo.  Assim fizeram. Porem, quando estavam à meio do percurso de volta a terra dos vivos ,a ansiedade, a descrença tomou conta de Orfeu. Pensava: Será que o deus Plutão está mesmo me entregando Eurídice? Será que é possível eu possuir a minha alma, o amor? Posso realmente confiar nos deuses?
   Ficou tão ansioso que não se conteve. Olhou par traz. Quando virou-se, Eurídice, que já estava se materializando num corpo denso, começou a desintegrar-se e foi pouco a pouco desaparecendo. Orfeu de novo a perdeu.
Caronte conduz Eurídice pelo rio Estige (rio das almas).

     O que o mito nos diz? Qual era o grande erro de Orfeu que sempre o fazia perder sua alma? Era a falta de Fé. O mito então nos afirma que jamais contataremos nosso âmago mais íntimo a nossa própria alma, se não tivermos Fé, se não acreditarmos nas coisas divinas representadas pelos deuses.
    Desde este dia, o canto de Orfeu se tornou triste, até que Eurídice lhe apareceu num sonho e lhe disse que ela continuava no reino de Plutão, mas que desejava se mostrar a ele num cone de luz. Mas, isso só se daria se ele se dedicasse a mostrar a luz divina à Grécia.  É então quando Orfeu vai tornar-se um grande iniciador, vai criar a primeira grande Escola de Iniciação Espiritual, o Orfismo. Recebeu nela o nome de Orfeu, que significa “O que cura pela luz”. Ele restaura na Grécia o templo de Apolo, o senhor do sol, da luz, da arte.
     Com o seu canto, Orfeu apaixonou mulheres na Trácia, mulheres muito sensuais, mas ele que vencera já os seus instintos e continuava apaixonado apenas por Eurídice, o verdadeiro amor, as recusou. Raivosas, elas então o mataram esquartejando-o. Atiraram o seu corpo num rio.
      Logo depois, contudo, a região se viu assolada por uma grande peste. Consultado o oráculo, este disse que ela só seria extinta se procurassem a cabeça de Orfeu, que era a sede de seus pensamentos tão espirituais e lhe dessem um sepultamento digno, com honras.
   Quando a encontraram, num milagre, ela permanecia intacta e cantava: Eurídice! Eurídice!  Nossa alma, Eurídice, pelo trabalho realizado por Orfeu, contata sempre com ele dentro de um cone de luz, como lhe prometera.
  Na Grécia antiga era dito que nas festas do equinócio da primavera , nos santuários das escolas de Orfismo, as liras do templo tocavam sozinhas. O mito de Orfeu e Eurídice inspirou, na Idade Média, o romance de Dante e Beatriz. 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Festas Religiosas, como Eu as Senti

Cosme e Damião

   O dia 26 de setembro me remete a uma das lembranças mais felizes de minha infância. O culto a São Cosme e São Damião. Eu desconhecia naturalmente que eles haviam sido no Séc. III DC. Médicos na Arábia e na Ásia, que seus atendimentos aos pobres não eram cobrados nem que, como cristãos fervorosos, fizeram inúmeros milagres.
   Que me importava mesmo era participar do ajuntamento de crianças em minha arborizada e aprazível rua, onde recebíamos naquela ocasião balas e doces, os mais deliciosos. Cada um de meus vizinhos se esmerava mais nas guloseimas que nos dariam. Não recebíamos neste dia qualquer tipo de castigos ou advertências. Nele éramos nós, crianças, muito e muito mimadas.
   Hoje sei da crença que movia meus familiares e vizinhos. Fossem eles católicos adoradores dos dois santos ou membros das religiões afros cultores dos dois orixás gêmeos, seus Ibejís.
   Só nós, crianças éramos os intermediários, aqueles que intercediam junto a Cosme e Damião para que pudessem receber qualquer benefício que desejassem deles. E, o preço que nós cobrávamos por esta intermediação era recebermos gulodices e poder fazer neste dia consagrado aos santos as traquinices que quiséssemos.
   Quando me tornei adulta e fui estudar religiões soube que os Ibejís que correspondiam a são Cosme e Damião protagonizaram um dos milagres mais conhecidos da Afro Brasileira:
   Iansã, esposa de Xangô, teve dois filhos gêmeos, os Ibejís, mas um deles morreu. Então Iansã mandou fazer uma estátua de madeira representando a criança e colocou-a num altar na casa. Dia após dia Iansã orava, e conversava com a imagem como se viva estivesse. Esta prova desesperada de amor materno comoveu tanto os Orixás que eles fizeram a estátua criar vida novamente e, assim, Iansã teve seu amado filho de volta.

Congadas

   Quando visitei a cidade de Ouro Preto, encantei-me com a história de “Chico Rei”. Este, rei numa tribo do Congo, chegou aqui em ferros para ser escravizado e perdeu sua esposa-rainha na cruel e tenebrosa travessia por mar, sobrando-lhe apenas um filho.
   Possuidor de uma inteligência privilegiada ,era também um conciliador nato. Assim, em pouco tempo granjeou respeito, pacificando revoltas entre escravos e liderando o trabalho na mina. Francisco (foi o nome que aqui adotou) encantou de tal forma seu patrão, que este He facilitou horas vagas e ele, trabalhando arduamente, conseguiu comprar a alforria de todos aqueles que com ele vieram no navio e depois a própria mina de seu patrão ,quando este faleceu, conforme nos relata o historiador mineiro Agripa Vasconcelos.
   Chico fez amizade com o clero da cidade, através de sua grande devoção, a três santos cultuados em Portugal: Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e santa Efigênia, para a qual mandou construir uma bela igreja.
   Um dia, terminada uma missa em louvor a estes santos, os simpatizantes de Chico, em grande número, o coroaram e o declararam novamente rei do Congo, com o beneplácito do sacerdote católico daquela paróquia mineira.
   Dançando e cantando alegre e ruidosamente como fazia na África, Francisco, agora “Chico Rei”, dava início às Congadas.
   A festa que vi contava com apenas um entre centenas de grupos que hoje se paramentam em acordo as regiões de onde chegaram os escravos e também dos que participaram da vida de Chico. Temos então nela os moçambicanos, os congolenses, os angolanos, marinheiros, a rainha, o príncipe seu filho, mineradores. Tudo se mesclando a um forte sincretismo às tradições cristãs onde não eram esquecidos os santos negros cristãos
   A musica executava-se através de instrumentos como pandeiros cavaquinhos, cuícas e atabaques, sempre acompanhada dos congados montados a cavalo. Jamais uma Congada , este bailado tanto festivo como dramático, poderá ser esquecida.

Primeiro dia do ano na praia (Rio de janeiro)

   Fui caminhar na praia e encontrei suas areias repletas ainda de flores brancas. Rosas lírios, palmas, com que na véspera um povo devoto fez sua homenagem à Iemanjá. Certamente ela a merece. Iemanjá ,a nossa dona Janaína, é a beleza esplendorosa do mar.
   Os antigos gregos mitológicos viam o mar em seu aspecto de fúria e destruição. Ele era Netuno , o deus que ao se revoltar contra os homens, enfiava no fundo do mar seu garfo tridente e provocava terríveis maremotos. Já os africanos que aqui chegaram como escravos, deram ao mar uma personificação feminina: Iemanjá é para eles o vai e vem suave das ondas que balanceiam tal qual o andar bamboleante e sedutor de uma mulher.
   Quando o sol ou a lua emitem um raio sobre o azul do mar, este nos mostra uma faixa de faiscantes gotas brancas cristalinas. Foram estas as cores que os afros deram a Iemanjá: Azul e branco.
   Na véspera, fogos de artifícios em um espetáculo impressionante a louvara também, pois Iemanjá conta com muitos aspectos. Que dizer então de sua grande fertilidade?  No gigantesco ventre dos oceanos milhares e milhares de cardumes ali vivem. Iemanjá, a mãe prolífera de todos os orixás, é a própria vida manifestando-se em inumeráveis seres.
   Sentei-me em suas areias a ali fiquei entregue ao fascínio de Iemanjá, vendo nela aquela suave movimentação marinha que através de seus cultos, os escravos tão bem souberam personalizar. Pensava em como estes, saídos de tribos, conseguiram perceber com perfeição nossas características femininas, ilustrando-as em seus Orixás. Focalizaram em Iansã a nossa sensualidade, em Oxum a sedução mais inocente de nossa denguice e faceirice, mostraram também em Nanã, a avó de todos eles , a sabedoria que podemos alcançar na velhice e nesta pródiga Iemanjá, que- conforme suas crenças- concebeu todos os seres terrenos, a nossa fertilidade.

    O Boi Bumbá e o Círio de Nazaré

   Foram dois festivais que jamais presenciei, mas que meus pais, ele um poeta, ela dedicada à cultura, fosse ela histórica ou religiosa, com frequentes viagens ao Norte, passaram a mim.
   O Boi Bumbá, ou Bumba meu Boi, nos conta o mito de pai Francisco e mãe Catarina. Esta, grávida, tinha desejos de comer uma língua de boi. Francisco, homem simplório, acreditava que se não a satisfizesse seu filho nasceria com deficiências. Mas era muito pobre. Nem um único boi possuía. Então, tomado de temor, roubou e matou um boi de se patrão, um rico boiadeiro. Este, sabedor do roubo, prende Francisco.
   Aqui, o mito folclórico torna-se, na verdade, um fato religioso quando entra nele as figuras de um padre e um pajé. Ambos dão assistência espiritual a Francisco, homem que fora sempre tão honesto e agora, muito sofrido, passava por humilhações. Através das magias do pajé e das orações do padre, num grande milagre, o boi é ressuscitado e devolvido a seu dono.
   O final da teatralização do Boi Bumbá é de grandes agradecimentos pelo milagre e os folguedos e danças comemoram o perdão que finalmente o patrão dá a Francisco. Depois da dramaticidade do sofrimento de Francisco, o perdão é o ponto principal, a alegria da festa a serem atingidos.

O Círio de Nazaré

   Certamente o nome Nazaré significa muito para nós cristãos pois foi lá que o Cristo cresceu e criou-se, foi de lá que, caminhando até o lago pesqueiro de Cafarnaum, encontrou seus primeiros discípulos.
   A origem desta festa nos vem dessa cidade da Galileia, onde é dito que São José, um carpinteiro, teria esculpido uma imagem de madeira onde representava a Virgem com o menino Jesus ao colo. Imagem que passa depois a ser adorada pelos primeiros cristãos. De lá, foi à Espanha e chega finalmente a Portugal, à uma vila de pescadores que por homenagem à imagem santa recebeu o nome de "Nazaré”.
   Já a tradição brasileira nos diz que um caboclo do Pará achou uma estátua nas margens de um igarapé e a levou para casa. Tal estátua era uma réplica daquela venerada em Portugal. Porém, no dia seguinte a estátua havia desaparecido e encontrada no mesmo local do seu achado. Assim, o caboclo levou-a varias vezes à casa e sempre e sempre ela retornava ao mesmo igarapé. Falou então o governador da Capitania (estava-se no sec. XVIII) daquele estranho fenômeno e este mandou coloca-la na capela do palácio sob a vigia de guardas mas novamente ela fugiu, voltando à beirada do pequeno rio.
   Compreendido então que Nossa Senhora não queria sair dali, ergueu um ermida coberta de palha, similar aquela que a abrigava em Portugal.
   Hoje, a festa dura dias e compreende varias romarias, terrestres e fluviais.  Se meus pais estivessem ainda aqui, veriam também nas romarias dezenas de motoqueiros ruidosos e uma quantidade imensa de jovens em bicicletas.
   Conta a festa com grupos de danças e cantorias, brincadeiras e feiras de lindos artesanatos. Nos rios da Amazônia, os ribeirinhos sem condições de irem até Belém, fazem suas próprias procissões fluviais com o mesmo fervor.
   O festival do Círio de Nazaré, onde são carregados círios do tamanho dos pagadores de promessas, hoje reunindo dois milhões de pessoas ,tornou-se Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.
Para mim, isso revela a força de um população muito simples que se impôs pela sentimento cristão e conseguiu com ele sobrepujar qualquer manifestação sofisticada de nossas sociedades mais eruditas e modernas.

O Reisado ou Folia de Reis

   Festival religioso, de origem colonial portuguesa, foi o mais longo que presenciei pois durou desde o natal até o dia 6 de janeiro, dia de Reis.
   Ele já se iniciara, naquela comunidade nordestina, por grupos bem paramentados que seguidos de palhaços foram dia após dias, barulhentamente de casa em casa para anunciar a vinda do Messias.
   Como isso se fazia pela manhã, geralmente eram recebidos nas casas onde seus moradores lhes ofereciam um bom café. Agradeciam declamando versos.
   Já no dia 6 dava-se uma predominância à dança comandada pelo ”Mestre”.Com o auxílio instrumental de sanfonas, violas e chocalhos enfeitados de fitas coloridas dançava-se o Gingá, onde os figurantes se balançavam abaixados, quase em cócoras. Também, cruzando com destreza as pernas para frente e pra trás ,para um lado e para o outro ,  a dança do Encruzilhado era apresentada.
   O Reisado refere-se a uma episódio da história cristã em que os três Reis magos, Belchior, Gaspar e Baltazar, chegam a Jerusalém para adorarem o menino Jesus e querem saber onde encontrar a quem perigosamente chamaram de “Rei dos Judeus”. Sabedor disso, Herodes torna-se indignado de que pudesse existir ali uma autoridade superior à sua. Ordena então que sejam mortos todos os bebês que estavam nascendo em Belém. Um anjo, porém alerta a São José e a Virgem Maria do perigo que Jesus corre. Acontece então o episódio que a Cristandade chama de “fuga da sagrada família ao Egito”.
    Também os magos são advertidos por entidades angélicas e fazem um caminho diverso no retorno a seus países.
  A parte ingênua e supersticiosa entra no festival por conta dos enfeites nos chapéus usados por figurantes. Estes são ornados por muitos pedacinhos de espelhos. É acreditado que tais espelhos têm o poder de rebater todos os maus pensamentos que os tocarem. São chapéus mágicos. Então, muitos acreditam que saem do Reisado completamente purificados.
  Eu tinha apenas nove anos quando em Pernambuco assisti este Reisado e não tinha ainda nenhum mau pensamento a ser refletido nos espelhos. Queria apenas seguir nas ruas aquelas coreografias alegres, musicadas (sanfonadas) que saudavam um Deus–menino que eu nem entendia bem o que de tão importante teria feito.         

A Lavagem do Bonfim

   Um dia cheguei a Salvador justamente quando acontecia o rito de lavagem na escadaria de sua matriz.
   Confesso que comecei a caminhada de 8 km. Que saía da igreja da Conceição da Praia até o Bonfim apenas levada por uma curiosidade de turista .Porém no decorrer dela fui contagiada por aquela grande devoção com que o fiéis tanto do Catolicismo como os do Candomblé cultuavam Jesus e Oxalá. Os dois cultos têm afinal que homenageia-los pois os vêm cada um como um filho representante do Deus supremo. O primeiro um filho enviado por Deus Pai, o segundo enviado de Olurum .
   No percurso, reuniam-se milhares e milhares de pessoas lideradas em sua frente por mulheres que em tradicionais vestimentas de baianas estavam realmente lindas. Suas roupas de algodão branco muito alvo, saias rodadas enfeitadas por aquelas rendas que fazem a alegria consumista das turistas no mercado de Salvador, batas, colares e pulseiras completavam a beleza de seus trajes. Nas mãos já carregavam as bilhas e cântaros. Dentro delas muitas flores mergulhadas em Agua de Cheiro. Tais águas já haviam sido preparadas dias antes em vários terreiros de Candomblé e Umbanda com ervas perfumadas como Alfazema, Manjericão, Flor de Laranjeira, deixadas repousar para receberem a benção de orixás.
   Essas aguas cheirosas seriam depois despejadas nos 10 degraus das escadarias da igreja do Bonfim.  Ali, essa oferenda de flores e perfumes seria deixada porque a igreja não abriria suas portas.  Já desde um tempo atrás, devido ao aumento considerável da multidão que ocorria ao culto, por segurança este ficou restrito a chegada à escadaria. Esta estava linda com seus jarros de flores.
    É assim mesmo com flores -nos diz o mito- que Oxalá deve ser louvado.   Foram elas afinal que o fizeram obter sua esposa Iemanjá.
    Iemanjá era belíssima e tinha muitos pretendentes.  Com quem então se casaria? Orumilá, o grande adivinho da Afro, ordenou que a cada um deles fosse dado um cajado. No dia seguinte, o cajado que amanhecesse florido indicaria o seu futuro marido. Ao amanhecer, só o cajado nas mãos de Oxalá tinha flores, muitas flores.
    Vi a igreja cercada de barraquinhas com guloseimas da região, compradas logo que cessou o rito. Após muitas vozes cantarem fervorosamente louvores a Jesus e Oxalá, numa grande demonstração de união e aceitação de diferenças doutrinárias, apareceram bandas que punham à tona a alegria que caracteriza o povo baiano, que paralelamente é tão religioso que até se costuma dizer dele em outros estados: “na Bahia todo dia é dia santo.”
   È realmente impossível alguém assistir a Lavagem do Bonfim sem sentir essas suas duas características: Alegria e religiosidade.

Festival junino a São João

   Esta festa eu as realizava anualmente em minha casa fazendo pequenas fogueiras, preparando uma farta mesa onde não faltavam aipim cosido regado a melado, doce de aletria (massa adocicada) bolo de milho, cuscuz e muita canjica. Na fogueira, assávamos a batata doce. Tal como em meu lar infantil de avós portugueses fazíamos.
   Quanto à fogueira, contava a meus filhos esta história cristã: Santa Isabel, prima da Virgem Maria estava grávida e contava com esta para auxilia-la no parto. Acontecia, porém, que Maria morava na baixada de um morro enquanto Isabel habitava o seu pico. Então, as duas combinaram: quando Isabel sentisse as primeiras dores do parto acenderia em frente à casa uma fogueira para que a prima subisse à ajuda-la.  Assim, na noite em que são João Batista nasceu uma fogueira acesa o anunciava.
   Minhas meninas, ainda pequenas, adoravam vestir-se neste dia em roupas de algodão colorido e principalmente pintarem-se muito. Faziam adivinhações ingênuas para saber sobre futuros namorados e havia muita alegria quando cantávamos juntas: “São João! São João! Acende a fogueira no meu coração!“.
   Lembro-me de sentir-me muito feliz por estar inserida nas tradições de meu povo, minha família e religião.

30 de dezembro (Culto assistido em Copacabana)

Em suas areias um grupo religioso Afro introduzia os Orixás regentes do ano de 2016. Devido ao espetáculo de pirotecnia a acontecer na noite seguinte, atraindo multidões, este rito fora antecipado.
Rito fotografado por meu filho Alexandre,
em 30 de dezembro de 2015.
   Os curiosos iam chegando e muitos eram os atuantes diretos do culto que ali aconteceria. Estavam todos caprichosamente vestidos em roupagens compridas muito alvas, e pareciam imunes, indiferentes à assistência crescendo ao seu redor. Apenas esperavam contritos que o dirigente do terreiro lhes abrisse os trabalhos.
   Quando os regentes do ano, o par Oxalá e Iemanjá foram anunciados, os cantos belíssimos de louvor e muita saudações de “Epa Baba” e “Odó Iyá” eram ouvidos. Flores e velas acesas, os presentes prediletos de Oxalá, numa noite muito clara, faziam as areias da praia resplandecerem de beleza.
   Logo se percebeu que vários componentes do rito eram tomados em transe por outros orixás, pelo comportamento que exibiam. Vi um deles uma moça, pondo a mão, repetidas vezes sobre a orelha como Obá fazia para esconder a mutilação de sua orelha – conforme nos conta o seu mito. Vi outras pulando num pé só tal como também o mito nos diz que Oxum dançava porque queimara os pés. O “Aparelho” tomado por Omulú fazia-me lembrar de sua vergonha pelas cicatrizes que a história Afro diz ter ele em seu rosto.
 Enfim, os gestos apresentados, os ritos, eram justificados nos seus antigos mitos. Senti ali nos descendentes daquele povo negro que fora escravizado o desejo de manter suas lendas, não deixar que sua história se perdesse, teatralizando-a. Conclui que vários orixás vieram fazer suas saudações a Oxalá e Iemanjá porque certamente Olurum ,seu Deus maior, segundo seus crentes ,grande conciliador fraterno de todos os filhos que criara, assim gostaria que fizessem.
   A noite já ia alta e o culto sob toque de atabaques, seguia com suas gesticulações e posturas ,para muitos estranhas e até burlescas.
   Pela singeleza de suas crenças ,pela firmeza em preservar suas origens, saí dali certa de que a Afro- Brasileira tem muito a ensinar a nós cristãos.

Páscoa em Ouro Preto

   Lembro-me ainda das vigílias na madrugada da Semana Santa para ver a montagem dos grandes tapetes de serragens coloridas em suas ruas. Isso porque sua Páscoa não é somente uma manifestação de fé, mas sobretudo uma manifestação de arte.
O trabalho na madrugada é árduo. Porém, a dedicação a sua feitura é alegre, com grupos de seresteiros anunciando, paralelamente, que o Cristo iria ressurgir. Os temas dos tapetes são naturalmente cristãos e vi neles vários dos seus símbolos. Lá estavam trabalhados com perfeição o Cordeiro de Deus representativo do sacrifício do Cristo, a taça da Última Ceia, o Santo Graal. Também vi, nas serragens, figuras de pelicanos, estes nos lembrando de sua lenda de que alimentava os filhos famintos com o sangue de seu próprio peito, menção feita a Jesus sacrificando-se.
   O percurso que a procissão faria no próximo dia seria longo atravessando ladeiras desde a igreja de são Francisco (famosa por sua riqueza) e a de nossa senhora do Rosário. Nenhum daqueles espontâneos artesões de tapetes estava preocupado pela certeza de que no dia seguinte, após passar a procissão, todo o seu trabalho estaria destruído. Estavam certos: os pés que os pisariam estariam abençoados não só pela energia devocional que os movia desde o Domingo de Ramos .  Sobretudo porque todos que os pisariam estariam irmanados por uma união que não distinguiria pobre de rico ,nem raças diversas. Juntos, todos tinham um só desejo: louvar o Cristo.
   Quando na noite seguinte cheguei à Praça Tiradentes, com seus magníficos casarões coloniais, uma multidão já a tomara. Sentei-me então ao chão sobre uma pedra mas nada me importava, porque a onda de fé que sentia era muito forte, contagiante e até emocionante. Além disso, a arte era ali mostrada não só no teatro que se desenrolava sobre um imenso palco, eu a via também no vestuário e na arte joalheira com que se paramentavam os figurantes. Elas nos levavam com detalhes minuciosos a nos lembrar dos personagens históricos do Velho e do Novo Testamento.
   Para todos nós que assistimos a essa maravilhosa representação teatral, não faltaram episódios belíssimos como o Lava Pés, o beijo de Judas, em sua época chamado de “ósculo sagrado” com que se cumprimentavam os componentes de um movimento reivindicador de melhorias. Tendo então Judas, desta forma, indicado Jesus aos guardas romanos como o líder do grupo ali presente. Teatralizou-se também a escolha entre Jesus e o bandido Barrabás, a lavagem de mãos feita por Pilatos, isentando-se de condenar um justo. Tudo nos serviu como um verdadeiro e bem atuado resumo das tradições cristãs.

A Festa do Divino

Foram os Açorianos chegados ao litoral de Santa Catarina no Séc. XVIII que levaram para lá esta bela festa religiosa. Assisti-a numa pequena vila de pescadores.
   Sua origem, com certeza lendária, nos remete a Portugal onde a rainha Isabel (que se tornaria uma santa depois) estava casada com Don Diniz. Sendo este rei muito orgulhoso, ela resolveu um dia lhe dar uma lição de humildade. Instou com ele para que deixasse sentar em seu trono um mendigo tão devoto que estivesse presente no próximo ofício religioso em honra do Espírito Santo. Assim, o inusitado aconteceu. O mendigo andrajoso não só sentou-se no trono do rei, como recebeu uma coroação simbólica, e foi ovacionado pelo povo ali reunido. Hoje, este é o episódio que enseja nos festejos a coroação de um imperador.
   Eu soube que as comemorações já haviam começado dias antes naquela comunidade pesqueira, quando fieis católicos saíam pelas ruas indo de casa em casa, fazendo a ”Romaria da Bandeira do Divino”. Esta, um estandarte vermelho com uma pomba branca bordada em seu centro. Sua finalidade era o recolhimento de donativos, nunca negados, que garantiriam os gastos do evento.
   Também dias antes já fora escolhido por uma comissão da qual fazia parte o padre da paróquia, um adolescente da comunidade para ser o imperador coroado.
   No dia da festa ele estava muito belo. Trazia no peito encasacado, uma faixa vermelha, calções de cetim, meias brancas compridas e carregava nas mãos um cetro. Seguia-o um pajem e também velhos pescadores respeitados. Um alferes empunhava a bandeira do Divino, abrindo caminho para o seu cortejo.  Tambores eram batidos, fogos espocados e as cantorias chamadas “Folias do Divino” animavam a sua passagem.
   No Adro da igreja as barracas para oferendas esperavam enfeitadas, vi alguns levando nas mãos, pés e braços de cera e gesso como demonstração de bênçãos, recebidas. Porém, será dentro da própria igreja que o menino imperador será coroado. Nestas missas ao Divino, o sacerdote geralmente fazia o ato litúrgico do Pentecostes. Nelas é citado o Espírito Santo como o grande fazedor de milagres.
   Falava-se em são Pedro, um pescador inculto, conseguindo falar no dia do Espírito Santo várias línguas, o que eu prefiro entender como a referência a um homem simples que pelo entusiasmo de sua crença no Cristo, conseguiu comunicar-se com um número imenso de estrangeiros, que ocorriam à Jerusalém para os festejos judeus do Pentecostes, e até convertê-los.
  Enfim vi naqueles dias após a quaresma uma demonstração de fé tão sincera quanto espontânea. Inesquecível.

Nossa Senhora dos Navegantes

   Assisti anos atrás na praia do Pântano do Sul, um dos últimos núcleos de pescadores da ilha de Florianópolis, uma festa em louvor à Nossa Senhora dos Navegantes, também chamada por nós brasileiros de Nossa Senhora das Candeias.  Acontecia no dia 2 de fevereiro. Um pequeno barco, enfeitado de bandeiras onde seria colocada a imagem da santa vestida de branco e azul, deveria ser levado à pequenina igreja e ali abençoado num ofício religioso. Seguido depois por crianças vestidas de anjos, moradores e veranistas começam o cortejo pela rua. Celebrado por um foguetório, o barco é carregado como um andor por alguns pescadores que o levam em direção ao mar. Nas areias já os esperavam os barcos maiores as vezes com pitorescos nomes gravados em seus cascos, também estes enfeitados, para juntos, sempre precedidos pelo barquinho da santa, irem mar a fora em procissão.
   Sei, contudo, que a fé na Senhora dos Navegantes, os milagres que pescadores dizem já terem recebido dela ,não se restringem àquela vila .  Milagres ela os tem feito em vários outros locais deste Estado. Ninguém pode esquecer a benção milagrosa feita aos ocupantes do barco “Sertaneja” em Laguna. Este, desaparecido a mais de um mês e, após muitas buscas já dado como perdido, aparece na praia da mesma Laguna intacto e com seus tripulantes vivos, apesar de esgotados por fome e sede. Até o cão de bordo embora inerte de fraqueza estava vivo.
   Os sinos da igreja de Laguna e todas as capelas da região repicaram o dia todo, o povo saiu às ruas a festejar saudando Nossa Senhora dos Navegantes que os trouxera vivos. A volta do “Sertanejo” tornou o seu milagre inesquecível para os adoradores da santa.
   Como Nossa senhora dos Navegantes faz uma sincretismo na Afro Brasileira com Iemanjá, há uns poucos quilómetros do Pântano do Sul, nas mesmas areias, vi um outro culto à noite se desenrolar . Seguidores desta outra crença, iam ali celebrar a “Rainha do Mar”.   Vi muitos fieis, após o rito, irem se banhar nas águas, pulando as sete primeiras ondas surgidas.  Por que sete afinal? Talvez porque nos acostumamos a ver o número sete como o final de uma sequência de coisas ou sentimentos que nos beneficiam. Assim, temos na Afro Brasileira, grande influenciadora da nossa cultura, as sete linhas de seus orixás, no Cristianismo os discípulos oriundos como Jesus de um povo ,o Judeu, que cultuava o castiçal de sete velas, o Menorá, perguntando ao Cristo: “Devemos perdoar um inimigo sete vezes?” Ao que o Cristo, em sua sempre pródiga misericórdia, responde : “Não só sete, mas sete vezes sete.”
   Terminei o meu dia 2 de fevereiro certa de que seja através da crença no Cristo ou através da crença em Iemanjá, será sempre pela Fé que afinal obteremos os nossos milagres.
   Hoje, após estas festas assistidas, sinto-me grata por ter testemunhado esta mesma Fé que ,segundo o próprio Cristo, é o sentimento que nos dá o poder de “remover montanhas”.

sábado, 30 de abril de 2016

O Desenvolvimento da Crença em Deus - Parte II


Uma síntese baseada no livro 

“Deus” de Frederic Lenoir

Cristianismo

  O ano I do calendário cristão é marcado com a figura de Jesus tentando substituir a ideia do Ser criador rigoroso das leis mosaicas que exigia o ”olho por olho, dente por dente” por um Pai criador que pede o perdão “sete vezes sete” para os inimigos, o amor incondicional aos pecadores. Seus livros sagrados são os Quatro Evangélicos dos apóstolos Marcos, Mateus, Lucas e João e as Epístolas de Paulo.
  
Luta contra heresias (o desvio da Igreja na Idade Média)

   Em 1232, o papa Gregório IX emite uma bula que institui a Inquisição, oficializando as lutas contra heresias. Surge então vários eruditos favoráveis à Inquisição que depois se tornaram santos: Santo Inácio de Loyola, São Tomás de Aquino, St. Agostinho. Surge também um afamado rei perseguidor do persistente Politeísmo: Carlos Magno. Porém termos no Sec. XV uma voz contrária; Bartolomeu de Las Casas que luta contra a perseguição aos nativos pagãos da América do Sul.

Concílio Vaticano II

   Entre 1962 e 1065, o papa franciscano João XXIII, através do Concílio Vaticano II pede perdão aos fieis cristãos pelos erros da Igreja Medieval. Através de um dos melhores papas que a Cristandade já teve, a Igreja se reabilita. O Cristianismo conta hoje com quatro grandes ramos:
1)    A originária Igreja Católica Apostólica Romana
2)    As várias Igrejas Protestantes surgidas na Idade Média
3)    O Espiritismo kardecista
4)  O moderno Pentecostalismo com seus muitos ramos que proliferam sobremaneira no Brasil.

Islamismo

  Após 622 de nossa era, o Islã se espalha rapidamente na Arábia e para muitas outras terras tendo como chefe idealizador Maomé. Omo mestre espiritual e administrativo que foi, imprime ao Islã suas duas características: A Clemência, quando chama seu Deus único Alá de “O Clemente, O Misericordioso”, mas também o rigor de costumes, introduzindo a Jihad (Guerra santa contra infiéis).  O Alcorão é o seu livro sagrado. Os seguidores da linha de Alá, o Clemente, interpretam a Jihad, aparecida no Alcorão, como uma luta interna do homem contra seus próprios erros, mas os seguidores da Jihad, guerra santa, hoje trazem um terrorismo e uma violência que estão ensanguentando boa parte do mundo.

Misticismo

O Bahaismo e o Sufismo são duas grandes correntes da mística islâmica. A primeira perseguida dentro do Irã Xiita é de cunho universalista e espalhou-se rapidamente pelo ocidente pelo trabalho de seu mestre Baha’hullah.  Suas orações se distinguem por uma fervorosa adoração ao Criador. O Sufismo nos traz também um grande mestre: Mevelana Rumi, poeta da Pérsia medieval (Afeganistão) que introduziu a dança giratória dos Dervixes. É o místico que – segundo ele – buscou Deus em todos os lugares de peregrinações e em todos os templos e foi encontra-lo em seu coração.
   Do misticismo judaico nos vem a Cabala, nascida na Antiguidade da Caldeia e introduzida depois na Europa medieval e hoje bastante difundida em todos os países da América. Trouxe-nos o esquema precioso da Árvore da Vida cabalística que nos leva a uma gradual elevação de consciência.
   No Brasil, contamos com inúmeras Escolas místicas cristãs como o Rosa Cruz, o Martinismo a Antroposofia e outras. Os séculos XIX e XX introduziram muitas escolas espiritualistas que trouxeram as ideias orientais ao Ocidente. Entre elas a Teosofia de Blavastky, o Gnosticismo, o Budismo Zen e Tibetano e os vários ramos de Yoga.  Proliferam hoje no Brasil as academias de Hatha, os grupos de Raja e Brama yoga.

Ateísmo Moderno

No Séc. XIX temos Karl Marx se insurgindo contra qualquer religião organizada. Dizia: ”A religião é o ópio do povo”. Essas suas ideias ficaram caracterizadas e difundidas no Comunismo.
Entre os séculos XIX e XX, as teorias freudianas apregoam a não satisfação de desejos e anseios instintivos como causadores dos desequilíbrios humanos. Suas teorias não abordam, ignoram o valor da espiritualidade, das indagações existenciais que um homem se faz como fator importante na aquisição da sua tranquilidade e não o emprega em suas terapias.
  
A Crença em Deus na atualidade

 Contamos hoje com a filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt, conhecida como “A pensadora da liberdade” que se expressa sobre a crença de Deus desta forma: Em relação à afirmação de ateístas modernos de que Deus morreu, diz: “Não se trata certamente da morte de Deus, pois sabemos tão pouco sobre a sua existência”. Sem dúvida, o modo como pensamos Deus durante séculos não convence mais ninguém. Porém se algo morreu foi apenas o modo tradicional de pensa-lo (De sua obra “A Vida do Espírito”).

sexta-feira, 18 de março de 2016

O Desenvolvimento da Crença em Deus - Parte I


Uma síntese baseada no livro

“Deus” de Frederic Lenoir

O Xamanismo
  
O desenvolvimento do homem e sua crença em Deus acompanhou o desenvolvimento do planeta. Vamos ver como estava o planeta há 100 mil anos. O planeta vivia grandes cataclismos. Era a época em que a sua superfície era assolada por terremotos, incêndios, maremotos, erosões. Então, o homem era obrigado a mudar constantemente seu local de moradia. Era nômade. Vivia da caça, pois plantar nem era possível.

Xamãs com seus tambores.

   Sua religião era apenas um deslumbramento e um temor diante daquelas forças naturais agressivas. Porém, as tribos contavam com indivíduos encarregados de interceder para obterem favores destas forças que eles achavam vir de um mundo invisível a eles: Os Xamãs. Estes conseguiam benefícios através de transes induzidos pelo auxílio de beberagens e principalmente pelo batimento ritmado de tambores.
   Havia já, sim, um início de religiosidade, porque os registros arqueológicos mostram sepulturas com cadáveres portando armas que deveriam proporcionar ao morto caçadas no além, entendidos como uma crença numa sobrevivência pós-morte.  Acreditavam, então, nesta sobrevida e também num mundo invisível.
   Era já a sua religião o que compreendemos por espiritualidade? Certamente, não. Se entendermos a espiritualidade como uma busca pessoal e íntima por respostas ao mistério do existir, indagações existenciais e intelectuais como: De onde vim? Que sentido tem o meu existir? Era apenas um respeito temeroso pela natureza a que davam a conotação de um sagrado mistério.
  
O Totemismo

Totem de um pássaro.
Vivendo da caça, os homens primitivos sentiam que dos animais lhes vinha a sua energia de sobrevivência. Geralmente escolhiam um animal que representasse a força que mais necessitavam para sobreviver, fosse uma agilidade para subir montanhas, uma de correr rapidamente por planícies, talvez uma presteza para subir em árvores. Ele tornava-se o seu Deus, o seu totem adorado. Em cultos, matavam um animal da mesma espécie, bebiam o seu sangue e sua carne era também distribuída na tribo. Acreditavam que assim estariam assimilando as forças de seu Deus/Totem.

A Grande Mãe – Matriarcado

  Mais tarde, chega-se a época em que o planeta lhes dá melhores condições, está mais aquecido e seu solo mais acalmado. O sedentarismo substitui o nomadismo. O plantio é acrescentado à caça. A mulher passa a ter um grande papel nas clãs, pois enquanto o homem sai para caçar, a mulher encarrega-se do plantio. Aparece então um fervoroso culto à uma deusa: a Mãe-Terra, a Grande Mãe. É do solo que agora lhes vem também a sobrevivência. A figura da mulher na realidade já era valorizada, pois havia um desconhecimento de que os nascimentos eram originados no ato sexual, atribuindo-se apenas à mulher o poder de dar nascimento. Havia então já um culto à fertilidade feminina. Vivia-se um Matriarcado.
Deusa da fertilidade
de Creta.
    Começam a surgir grandes sacerdotisas e feiticeiras substituindo os antigos Xamãs. Entre os antigos que cultuavam as deusas–mãe vamos encontrar os povos que habitavam a Gália (França) e que se intitulavam os Tuatha de Danan (Povo da deusa Ana).
   O Patriarcado irá sim, substituir depois o Matriarcado. Porém, teremos uma transição a este no Egito, onde veremos um grande culto à Isis equilibrado ao de Ozires. Ela é a margem do Nilo que lhe dá alimentos, Ozires é o próprio rio que a fertiliza Isis. Lá, teremos faraós homens e mulheres e grandes rainhas lembradas como Hatchepsut, Nefertiti e Cleópatra. A governança se equilibra no Egito.
  
Patriarcado e Politeísmo

Zeus, Poseidon e Hades.
Quando as tribos descobriram a participação do homem no nascimento, o homem retoma com vigor o seu poder Ele, afinal, é o grande macho criador. A sociedade muda com o aparecimento de sacerdotes que organizam a religião.  Dos antigos transes dos homens Xamãs , passa-se a cultos com leis religiosas estabelecidas a serem cumpridas . Do Matriarcado passa-se ao Patriarcado. Surge o Politeísmo com cada tribo adorando seus próprios deuses. Na Grécia, a crença em deuses segue firme em meio à épocas civilizatórias adiantadas. Porém, mesmo contando com muitas deusas, o mundo - segundo sua mitologia - continua regido por três deuses: A Zeus cabe o céu, a Hades o subsolo da terra, e a Netuno a imensidão dos mares.

Monoteísmo

   A primeira ideia de um Deus único nos vem do Egito, com o faraó Akenathon (1.300 AC) com seu Deus Athon. Mas, o Egito volta ao Politeísmo após a sua morte, cultuando três deuses: Osires, Isis e Horus e ligado ainda a Fitolatria e Zoolatria. Na Fitolatria, cultuando-se muito o Lotus, (símbolo dos quatro elemento da natureza), e o Papiro a grande garantia comercial externa do Egito. Na Zoolatria, principalmente o culto ao gato.
Faraó Akenathon.
   Temos depois os Judeus adorando seu Deus único Jeová (ou Javé), Deus que estabelece leis comportamentais muito rigorosas e especialmente em relação à obediência da mulher ao homem, num sistema bastante patriarcal que o Cristianismo, apesar das ideias do próprio Cristo, também levará adiante.
  Paralelamente, na antiga Persa (hoje Irã) também o Zoroastrismo cultua um Deus único Ahura Mazda, religião que desaparece com o tempo.
    Quando, em nossa idade moderna, aqui chegaram da África os escravos negros, estes nos puseram à par da crença que vinham levando por séculos em seu Deus único Olurum. Olurum é um Deus bastante misericordioso, pois - segundo creem- do alto céu manda à terra os seus mensageiros, os Orixás, apenas para auxiliar os homens.
 
 A Índia Bramânica

   O Bramanismo volta-se para o homem, com a sua ideia de Reencarnação. Esta resultou, porém, num determinismo que estabeleceu o sistema cruel de castas que persiste na Índia até hoje. Quanto à visão de Deus, é profunda e voltada ao Cosmos. Deus cria, mantem e destrói contínua e ciclicamente o universo e todos os seres dentro dele. Uma visão absolutamente fora ,adiantada para um contexto de 4.000 atrás. Brama, Vishinu e Shiva ilustram estas energias de criação, manutenção e destruição. Temos nos Vedas bramânicos a mais bela epopeia religiosa.
   O Bramanismo apesar de seus erros, foi a grande abertura para chegarmos à visão de um Deus tal como a que temos hoje.

Deus no Judaísmo

A Bíblia é a palavra de Deus para o Judaísmo. Moisés teria recebido por doação divina “Os Dez Mandamentos”. Também teria escrito o Pentateuco, cinco livros (Gênese, Exílio, Levítico, Número, e Deuteronômio) que formam a Torá, a sua escritura sagrada. A Torá hoje é a parte antiga da Bíblia (Velho testamento) enquanto a nova é o “Novo Testamento, época de Jesus”. O nome Bíblia – segundo Lenoir - se origina da cidade fenícia de Bibelôs onde eram adquiridos o papiro, vindo do Egito para se fizer os manuscritos. A visão do judeu antigo a respeito de Deus era ainda aquela de um velho barbudo que lá do alto céu castigava ou premiava os homens. Outra visão que o Cristianismo também levaria adiante por séculos.

Espiritualidade

Lao Tsé.
Entre os séculos VI e VI surgem grandes correntes filosóficas e depois espiritualistas que se voltam para reflexões e indagações íntimas. Na Filosofia, Sócrates nos dizendo: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses” na Espiritualidade, teríamos, na China, Lao Tsé com sua teoria do Tao, o Caminho, onde cada astro do céu e cada ser busca seu próprio Caminho, corre para concretizar um papel, um objetivo final. Para a indagação: o que estou fazendo aqui neste mundo? Responderíamos: buscando o meu papel dentro do universo. Surge também Sidarta Gautama, o Buda, investindo sua doutrina na busca íntima por felicidade, pela bem-aventurança de um Nirvana.
   Pratica-se na Grécia as experiências iniciatórias nos Templos de Mistérios, onde cada iniciando busca a evolução de sua consciência.

Budismo e Deus

Ainda no sec.VI o Budismo se difunde sem grandes preocupações quanto a existência de Deus. Fixado que está apenas em debelar as dores humanas, o que tenta fazer através de sua doutrina das “Quatro Nobres Verdades.”


(Na próxima postagem estarei dando continuidade a este mesmo tema, a iniciar-se pelo Cristianismo e sua visão de Deus).