sexta-feira, 12 de abril de 2024

Uma Negra Chamada Vitória

Negra Vitória está no mercado público. Mísera, seca, fedorenta, ruína que a vida teimava em levar até os noventa. Todas as noites por ali. Nunca encontrando um rico em seu caminho àquelas horas. Também, por que rico viria agora, como ela buscar restos pra forrar barriga, se podia escolher o que queria em dia claro? Mas tudo estava certo. Cada um como cada qual! Diversidade de sorte não a perturbava nada, principalmente hoje que para ela era uma noite diferente. Noite de realização e de entusiasmo. Noite pela qual tanto aguardava! Sentia até o coração lhe bater alegre, assanhado no peito murcho e derreado

Alterar-se com mazelas não era mesmo do feitio de negra Vitória. Miséria vira acomodação se bem organizada e a sua era. Vejam só: O seu Custódio lá da banca de carnes escondia-lhe sempre um pedaço de sebo dentro de um caixote. Ela sabia que o sebo seria seu sempre até que descansada e inerte não necessitasse dele mais.

O céu parecia mesmo a ter escolhido por afilhada, pois lá no fundo do mercado o vendeiro displicente jogava fora, nem bem podres ainda, abóboras e espinafre. Um dia até uma pera, fruta de rico, encontrara. Não. Não podia considerar sua sina de ingrata. Mas que às vezes cansava caminhar estirão tão comprido lá isso era verdade. As juntas de seu corpo rangiam todas parecendo até gemer com ela. Mas engraçado, até solidão que fustiga mesmo esta noite não fustigava.

Só achava que negras de sua classe deviam finar-se enquanto de canela jovem, senão já queriam até se igualar à gente delicada. Vejam ela: Quando o caldo do sebo misturado ao rebotalho caia-lhe nas entranhas esganadas, entranhas que esperavam o dia todo por aquela única panelada, ela sentia um bruto vômito e sujava o chão todo do barraco. Onde se viu negra acostumada a todos os tipos de mazela, com aqueles luxos de velha mimada?

Só uma coisa virava-lhe o pensamento, a perturbava: Aquele nome pretensioso posto nela: Vitória, Não que soubesse bem o significado do vocábulo. De estudo tinha apenas a tabuada que um patrão letrado lhe ensinara.  Mas sabia que o termo tinha a ver com algo que a gente podia alcançar. Se cada bebê que nasce tem o direito de chamar-se claridade, gloria e até vitória, algo dentro de si dizia que aguardasse. Tinha a certeza. Quando adquirisse o que queria com os trocados que trazia dentro do lenço encardido, todas as coisas ruins para ela desapareceriam como se tocadas por um mágico.

Dali a pouco negra Vitória já está na rua levando em suas mãos um pacote. As esperanças de negra Vitória ela traz todinhas enroladas numa única folha de jornal. Negra Vitória apressa-se, porque felicidade não pode mais esperar para acontecer. Suas pernas pareciam até aladas Mas, teve apenas um momento azarado. Tão excitada estava, que tropeça em palhas de milho em frente ao mercado e lá se vão ao chão todas as suas esperanças embrulhadas. Ela pega o pacote apalpando-o apalpando-o ansiosamente e abre depois a boca desdentada num sorriso puro, perfeito, quando o sente intacto.

Finalmente chega à frente da porta do seu barraco. Ela chama de porta as duas tabuas ruídas e cruzadas. Entra e coloca então o pacote sobre um caixote novo, evidentemente a pouco comprado. Está coberto com uma toalha alva. Aquela alvura pondo contraste chocante ante a penúria do barraco. Negra Vitória para olhando tudo extasiada. Está encantada, com o aparato que ela própria idealizara.

Tira depois do pacote uma estátua de São Jorge e pensa: Seu barraco serve agora de teto ao sagrado ao que é divino, que não é domínio de pobre, nem domínio de rico.

Ali dentro ela sente uma alegria, uma paz, um êxtase. Uma transcendência que nem o patrão letrado que lhe ensinara tabuada saberia explicar. Porém negra vitória, mísera, velha, seca, conseguiu tudo isto.


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