quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Alma Gêmea de Júlia

Para minha amada neta Júlia                   



   Júlia nunca poderia adivinhar que a demora na chegada do ônibus que esperava, a levasse finalmente ao encontro daquilo que mais queria: encontrar a sua” alma gêmea”.

   Ela acreditava piamente nisto: que neste mundo onde todas as coisas pareciam duais, tinham suas polaridades de negativo e positivo, esquerdo e direito, também o feminino e o masculino deveriam ter uma correspondência harmoniosa, que pudesse formar um par perfeito. Trazia em si a certeza que em algum lugar deste planeta o seu complemento masculino deveria andar às soltas esperando apenas o momento exato de se unir a ela.

   O caso, porém era que tivera já experiências amorosas e todas haviam redundado em decepcionantes fracassos. É bem verdade que encontrar “alma gêmea” pra Júlia não era fácil.

 Ela era alguém muito sensível. Sua sensibilidade tocava às raias do incomum. Possuía uma imaginação que se poderia considerar de transcendente.

   Naquele seu cotidiano onde suas amizades masculinas pareciam viver porque viam os outros viverem, onde ninguém demonstrava estar preocupado com indagações existenciais como ela se fazia,encontrar um homem-complemento que se lhe ajustasse, vamos convir que era procurar agulha em palheiro.
 Isto tudo preenchia o pensar de Júlia durante a espera do ônibus e este demorava... demorava... Entre a quantidade de linhas que faziam parada ali, quase todas já haviam passado. A 15 que levava ao mercado, a 21 que ia ao campus universitário, a 33 margeando a orla marítima e tantas outras. Somente a sua não apontava.

   Neste momento, um vento forte fez mover um papel no chão, próximo a seus pés e Júlia baixou os olhos atraída pelo ruído que fizera. Era um papel tipo ofício, dobrado, novo como se alguém o tivesse perdido há poucos instantes.

   Embora a imaginação de Júlia a fizesse também acreditar que o acaso não existe; que pequenos detalhes aparentemente sem importância nos encaminham às circunstâncias maiores que vivemos, ali, porém ela não percebeu: aquele papel era justamente o que faltava para desencadear tudo o que lhe estava por vir.

   Sua curiosidade a fez apanhá-lo e abri-lo. E, porque o ônibus custou a chegar, ela teve tempo suficiente para ,ali mesmo, ler o longo texto que continha: uma monografia datilografada, não assinada e que levava este título singular:  Quem sou eu?

   De início, seguindo a leitura apenas para passar o tempo, Júlia acabou por absorver-se profundamente nela, embevecida no relato tão sincero que o autor fazia sobre si mesmo. Ali era desnudada uma personalidade masculina tão ou mais sensível que a dela própria. As minúcias emocionais deste homem ignorado eram contadas com cativante simplicidade, de molde mesmo a impressioná-la.

Veio o ônibus e ela pegou-o com o escrito entre as mãos para dali em diante fazer dele o motivo de seus pensamentos, nos próximo dias e noites.

   Em muitas delas, Júlia o poria ao lado da cabeceira de sua cama para reler seus trechos e se indagar: Quem seria este homem que se descrevia como o retrato fiel daquela “alma gêmea” que ela sonhava para si?

 Um dia afinal, após haver dissecado nas suas entrelinhas todas as nuances daquela personalidade invulgar, chegou a evidente conclusão que se apaixonara por seu autor. Contou até as suas preocupações a sua melhor amiga. E o que ela lhe disse?  Que talvez ele fosse alguém careca, vesgo , barrigudo e muito velho para ela. Mas Júlia teimava em idealizá-lo como uma imagem de beleza masculina. Só tinha um desejo agora: Achá-lo.

Por tal desejo, começou a sofrer uma serie de pesadelos. Sonhou uma noite que voltava a parada de ônibus. Ali, com o papel à mão, abordava cada passageiro que subia , indagando quem o perdera , mas só via rostos que balançavam em negativas.

   Em outro sonho embarcara no coletivo que levava ao mercado. Lá, as bancas não vendiam frutas ou verduras, eram cheias de monografias e estavam todas assinadas.  Quando viu a primeira assinatura vibrara. Finalmente, descobrira-lhe seu nome, mas logo a decepção: cada uma trazia um nome diferente. Qual seria  entre eles o do  seu amado? Acordou gemendo, suada, agitada.

   Porém, numa coisa acreditava: seus sonhos a alertavam para uma conclusão óbvia: Sua “alma gêmea” era alguém que tomara o ônibus naquela parada. Resolveu confiar nos sonhos. E esperava ansiosamente pelas noites e depois seguia certo rito. Lia um trecho da monografia e a punha sob o travesseiro e aguardava o sono vir apenas para sonhar. Nem sempre isto funcionava, mas Júlia, tão fantasiosa, teimava. Teve um novo sonho quando leu pela décima vez aquele autor desconhecido descrever o que pensava sobre o amor.

   - Vejo o amor- dizia ele- como uma plenitude que deverá somar atração física e um dialogar que acuse uma afinidade muito ajustada de pensamentos e emoções. Sem esta plenitude, o amor entre um homem e uma mulher estará castrado, não alcançará suas possibilidades totais e trará mais frustrações e sofrimentos do que júbilos a ambos.
O Beijo de Klimt

   Nunca Júlia se sentiu tão identificada à sua “alma gêmea” e isto a levou a um sonho assim: Estava novamente na parada do ônibus e quando fez sinal para que o motorista que conduzia à orla marítima a levasse, este a advertiu: Este não o levará a quem queres! Deverás ir ao Campus!  Nunca um despertar lhe trouxera tanta alegria. Possuía agora a chave do seu dilema. Conseguira achar o espaço onde encontraria o seu homem.

   Sem por limites à sua fantasia, concluiu que o motorista do seu sonho deveria ser uma daquelas entidades que ela supunha viver em algum plano transcendente e cuja finalidade única de existir era auxiliá-la em suas metas.

   Por acaso ocorreu-lhe alguma vez o mais simples: por um anúncio em jornal comunicando haver achado a monografia?  Não. Não lhe ocorreu.  Isso, aliás, não combinaria nem um pouco com o seu modo de ser. Preferia mesmo continuar conduzida por seus sonhos. Atraiam-lhe coisas que ultrapassassem as fronteiras da razão. O desvendar daquele mistério, através dos esforços de seu subconsciente lhe parecia muito mais excitante. E, foi compensada.Veio por fim a noite que sonhou ter chegado ao Campus.  Ali, lembrou-se que o seu amado escrevia com muita fluência e que por seu estilo deveria pertencer aos estudos humanísticos. Como aluno ou professor seria naquele setor que o encontraria e assim restringiu em muito a área de sua busca. Finalmente, ainda em sonho, foi até a Faculdade de Letras e viu afixado na porta um enorme cartaz que dizia: Concurso de monografia. Tema: Quem sou eu? Seguia-se uma lista de professores inscritos e ao lado do nome, Gabriel Alencastro, um lembrete a lápis vermelho: Impedido de participar.

  Só nesta ocasião, absolutamente convicta de que Gabriel Alencastro era o seu homem, que Júlia conseguiu passar do terreno quimérico dos sonhos para o da realidade. Resolveu procurá-lo. Na verdade, partia ali da estaca zero. Contava apenas com um papel sem assinatura em mãos,  porque o resto, todas as indicações que possuía, vinham apenas de sonhos. Porém, lembremos,  Júlia era alguém para quem a fantasia era algo muito consistente, portanto nem chegou a questionar a validade daquilo tudo.

   E Gabriel Alencastro? Afinal existia? Sim. Era ele mesmo. Sem ter uma cópia do escrito que fizera, tomara o ônibus do Campus exatamente minutos antes de esgotar-se o horário do concurso. Ao querer apresentar-se, constatou que perdera a monografia e está visto também a chance. E, que tal era ele? Velho, estrábica, barrigudo?  Nada disso.  Correspondia com perfeição ao que Júlia ideara pra ele: Jovem e charmoso. Amou Júlia e ela amou-o. Afinal, vamos permitir que no mundo de Júlia o romantismo tenha lugar; que as suas imaginosas fantasias consigam uma solução inusitada para coisas que parecem impossíveis de serem concretizadas. Que ela encontre enfim aquilo no que acredita: Possuir uma “alma gêmea".



                                                                Da vó

                                                     Porto Alegre, janeiro de 2012.

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