sábado, 12 de setembro de 2015

Arquétipos e Símbolos

Muitas vezes lemos em livros esotéricos: “Evoluir é concretizar arquétipos”. Isto é: o homem evolui na medida em que consegue captar e desenvolver arquétipos. O termo arquétipo vem da composição grega Archais + tipos que significa o tipo, o modelo arcaico, primitivo, original.
   Para entendermos o que é um arquétipo temos que saber que a cada um de nossos corpos corresponde um plano, no qual a consciência daquele corpo vive. Então, contamos com este plano físico, com o astral, o mental e também aquele que corresponde ao nosso mental abstrato que é o intuitivo, chamado então de plano arquetípico. Com ele nossa consciência abstrata faz contato para nos trazer aquilo que chamamos de intuições e revelações.

A Roda do Dharma e suas oito sendas.

   Este plano arquétipo contém gravado em sua substância as matrizes, os modelos, as leis divinas, os princípios divinos também chamados pelos indianos de Dharma. São os arquétipos que vamos trazendo às manifestações neste plano em que vivemos, como uma maneira de evoluirmos o nossos habitat, a cada um de nós, as raças, os países, enfim a todos os grupos e a todo o conjunto da humanidade. Para cada uma dessas coisas, existe então um plano, um arquétipo estabelecido. Cada vez que entramos em contato com estas idéias arquetípicas, damos um passo em prol do nosso evoluir. Quando alcançamos o plano intuitivo através da nossa mente abstrata, que é a menos desenvolvida em nós, teremos tido um dos chamados momentos de revelações, momentos intuitivos. Para trazer à manifestação esses arquétipos, estes princípios divinos, usamos o recurso dos símbolos.
   O que são símbolos? São recursos para se chegar a arquétipos. Exemplifiquemos: Na formação das primeiras raças, os homens através de suas mentes abstratas, que eram muito pouco desenvolvidas, (mas com o auxílio de seres que os orientavam para que pudessem levar adiante as civilizações e também através de sonhos), recebiam rudimentos de idéias arquetípicas destes princípios divinos, destas matrizes. Trazia-as então à manifestação pelo recurso de símbolos. Suponhamos que um homem primitivo houvesse captado, num lampejo rápido, até através de um sonho, a existência das sete notas musicais que seriam as bases da música do seu mundo futuro, (que ele depois iria desenvolver) ele poderia então desenhar ou ter a ideia de moldar uma estátua de cerâmica de sete braços. Caso captasse o princípio da Trindade (vontade, sabedoria e amor), que ele também teria de desenvolver, ele poderia criar um objeto de três pontas. Suas criações teriam sido um representação simbólica de uma matriz do plano arquetípico que ele entrou em contato. Então, cada vez que ele olhasse estas representações, sua mente voltava a contatar o plano arquetípico, até que um dia, após estar mais evoluído, conseguindo contatar com mais freqüência sua mente abstrata, captaria o princípio divino totalmente. Assim, foi através de símbolos que desenvolvemos nossa mente abstrata para usar em nosso mundo as matrizes do plano arquetípico. Hoje sabemos que o princípio da Trindade, o número três, representa o equilíbrio. Porém, não conhecemos toda a potência deste arquétipo. Na medida em que evoluímos, as cabeças científicas vão percebendo que muito mais coisas materiais podem ser criadas, usando este princípio do equilíbrio. Intimamente, vamos nos tornando também cada vez mais equilibrados.



   Hoje sabemos que os princípios que captamos não só trazem a nós conhecimentos, como nos transmitem também tipos de energias, como é o caso do princípio dos sete sons, pois cada um deles, ao serem tocados, atuam em nosso corpo emocional. Outra coisa que observamos é que também a natureza, os animais manifestam arquétipos. O princípio divino da ressurreição, de que nada morre permanentemente, está refletido na mudança das estações. Podemos, nós homens, chegar à matrizes do plano arquetípico, apenas observando o comportamento da natureza.

Labirinto, um dos atalhos para chegar ao arquétipo.

   Voltemos à afirmação inicial que dizia “Evoluir é concretizar arquétipos.” Observemos como o homem primitivo se comportava: O Totemismo era o costume tribal que atribuía a sua ancestralidade a um animal. Isto é, a tribo teria se originado num animal, que era então o totem. Para evoluírem, usavam também o princípio do arquétipo. O totem seria o símbolo do princípio, da energia que a tribo necessitava desenvolver para sobreviver e crescer. Se a tribo vivia perto do mar,  provavelmente seu totem seria um animal marinho que lhes traria a energia para dominar o principal desafio da tribo: o mar. Se a tribo vivesse na montanha o seu totem poderia ser um cabrito montês com destreza suficiente para galgá-la. Em seus ritos comiam ou banhavam-se na carne e no sangue do totem para obterem a sua energia. Confirmamos assim a máxima esotérica que diz que assimilamos a energia dos arquétipos através dos símbolos. Também nós, homens modernos, fazemos de pessoas os nossos arquétipos. Para os islâmicos, Maomé é o seu modelo de comportamento que eles seguem para evoluir. Nós, cristãos, temos nosso modelo em Jesus. Inclusive, à semelhança do que faziam os tribais, nos é oferecido na eucaristia cristã o corpo e o sangue do Cristo, para obtermos as suas energias santas.  No simbolismo da última ceia, ao distribuir pão e vinho, Jesus teria dito: “Comei e bebei da minha carne e do meu sangue.”.
   Seguimos também ideias de líderes-modelos políticos e sociais para elaborarmos nossas doutrinas. Enfim, é sempre na busca de um arquétipo, de um modelo, que buscamos o recurso para evoluirmos.
   O arquétipo e a psicologia: O analista C. G. Jung via nas fábulas mitológicas que criamos, a manifestação popular e literária de arquétipos, dos sentimentos que precisamos desenvolver ou dominar. Por isso, foi um grande estudioso de mitos. Também dizia que os sonhos também escondem arquétipos que desejamos alcançar e que nos causam ansiedade.
   Profetas: Existem homens extremamente evoluídos que têm facilidade de entrar em contato com o plano arquetípico, devido a terem uma mente abstrata muito desenvolvida. Os profetas do Antigo testamento seriam alguns deles. Ao contatarem o plano intuitivo, desvendariam as matrizes dos acontecimentos que estavam por vir. Assim, previram a vinda do Messias. Assim também Jesus teria predito a queda de Jerusalém. Assim Nostradamus teria previsto as guerras modernas. Nas matrizes imprimidas na substância do plano arquetípico está a explicação para previsões que podemos fazer sobre o futuro.

Santa Ceia, consagração do simbolismo do pão e do vinho.

   Arquétipo individual e o livre arbítrio: As crenças esotéricas dizem que para o planeta, para a ciência, para as raças, para as nações, para tudo existe um arquétipo a ser realizado mas que para cada um de nós também existe um arquétipo individual em acordo ao nosso tipo de mônada, nosso tipo de individualidade.
   “A matriz individual de cada um de nós -dizem os arquivos ocultistas- é chamado de “átomo Crístico” ou Santo ser Crístico”.  É representado simbolicamente por um bebê miniatura, dourado, que dorme em nosso chacra cardíaco.
   A cada vez que entramos em contato , através da meditação, com este símbolo, conhecemos um pouco do nosso arquétipo individual, isto é: Do nosso papel na vida, e recebemos a energia da nossa individualidade monádica, da nossa mônada.
   O dia que cumprirmos o nosso papel, o plano designado para nós, este bebê crescerá e nos tornaremos o homem-Cristo tal como aconteceu com Jesus e outros mestres.
  Cumprir arquétipos não significa determinismo. O Arquétipo nunca se choca com o nosso livre arbítrio. Os arquétipos marcam para nós a linha geral de um acontecimento, de um plano, porém a forma como chegamos a cumprir este acontecimento ou este plano depende de nós, também o tempo que levamos para concretizá-lo depende de nós. Exemplificando: Nosso arquétipo nos estabelece um plano que diz que teremos como guia espiritual um mestre de determinada linha.  Um dia, chegaremos a ele, porém os atalhos que percorreremos, a forma como vamos fazer para chegarmos a ele, o tempo que isto nos demandará, depende de nós. Se por teu tipo de mônada, tens determinado papel a cumprir dentro da ciência, um dia obrigatoriamente o cumprirás. Porém, os livros que vais ler para tuas pesquisas, quais os trabalhos científicos que farás, o tempo que demorarás a cumprir tal plano dependerá de teu esforço, de teu livre arbítrio ao executá-lo. Isto também é válido em relação ao plano das nações. A forma como chegarão a cumpri-lo depende dos esforços da totalidade dos grupos nacionais.

   A Roda do Dharma budista: Dharma quer dizer plano divino, lei e arquétipos a serem cumpridos. É simbolizada por uma roda dividida em 8 partes. Elas representam 8 sendas, 8 caminhos. Em cada um deles cumpriríamos uma lei divina, que nos levaria num dia futuro a cumprir o arquétipo do Nirvana, que é o princípio da paz e da bem-aventurança. Cada vez que completamos uma das sendas, fazemos um giro na roda da nossa vida, impulsionamos o nosso Dharma, a nossa lei individual. Enfim, chegamos mais perto do nosso arquétipo, do nosso nirvana.

Oração aos Ancestrais

Em nome de Deus, em nome do nosso Eu, que hoje desperta para a sabedoria das leis, trazemos a vós, antepassados, agradecimentos por todos os fatores hereditários que transmitistes a nós.
  Agradecemos a vós, ancestrais tão longínquos a perderem-se nas infinitas eras atrás.
  A vós ancestrais desencarnados, enviamos esta mensagem:

  Se não achastes Deus no tumulto do mundo físico, buscai-O agora nas leis do plano em que hoje estais. Afastados do mundo físico, transcendei a ele, esqueçais receios e agitações. Não vos apressais a agir segundo moldes terrenos, buscai orientadores. Buscai-os com a pertinácia de quem deseja um facho de luz em noite escura. Eles vos conduzirão para cumprirdes vosso papel na manifestação de Deus, neste universo que nós e vós, antepassados, habitamos. Nós vos amamos!

   A vós, ancestrais que viveis ao nosso lado:

   Sirvamos juntos à nossa família, ao nosso país, aos nossos companheiros de evolução com a mesma humildade com que Jesus lavou os pés de seus discípulos. Façamos finalmente juntos a ação glorificada pelo amor impessoal. Gratos muito gratos vos somos por este reencontro!

  Graças vos damos mãe, avó, bisavó, por vosso ventre, pelo tabernáculo no qual abrigastes em embrião o nosso grupo familiar. (Aqui, façamos uma pausa no falar para pensarmos em suas figuras).
  Graças vos damos pai, avô bisavô pelo gene criativo que expressou-se através de vós. (Aqui, paremos a fala para pensarmos em suas figuras).
  Em nome do arquétipo divino que nosso Eu busca alcançar, agradecemos a todos vós, nossos inumeráveis e amados antepassados, por nosso corpo, por este templo que abriga o Espírito Eterno em nós e em vós.
  Por todas as experiências que vivemos juntos ,cumpra-se em nós a grande” Lei da Unicidade Universal”.
 Neste momento, com gratidão, emprestamos luz de nossa própria consciência crística para ajuda-los. Nós vos amamos!

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O Retrato

À Minha Filha Vânia (Lembranças)


Ela queria ir ao baile. Ao primeiro baile. Mil vezes desfilou uma vivacidade de quinze anos de lá para cá, frente ao espelho...  Rodopiou, cantarolou sons que iam desde os mais românticos vienenses, até os mais frenéticos e atuais.
   Rodopiou enrolada em lençóis brancos que refletidos no espelho logo se transformavam para ela em esvoaçantes vestidos. Antecipou minuto a minuto a noite que queria. A noite esperada veio e passou. Agora, dela possui lembrança que buscará muitas vezes repisar. Vânia faz culto à alegria. Na falta de algum presente se servirá até das já vividas. Ela é assim mesmo. É tudo isso: vibração, riso, vida querendo expandir-se.
    Para nós que a tudo assistimos, há agora o retrato lá sobre a estante de livros. Retrato que a mim alegra, entristece e deixa confundida.
    Nele, o tema nada contém de novo. É nada singular . É apenas o de uma adolescente sorrindo infindavelmente em seu vestido puro e alvo. Mas há o olhar e além disso o seu nariz minúsculo e petulante. Neles há algo que me prende e fascina.


    Chavão tão velho é escrever sobre retratos que falam. Não vou fugir a ele. Por que ser original se é justamente o que acontece? Cada vez que passo pela estante , nele está Vânia me chamando, dizendo e afirmando: “Viver intensamente! Movimentar-me consonante ao mundo que não para! Amor, alegria! É tudo o que eu quero. Para mim é neste instante que o mundo nasce, tem início!” Não resisto e sento-me frente ao retrato para melhor escutá-la. Mas logo tanto entusiasmo leva-me, num paradoxo, a ficar triste.
    Lembro-me precisamente pelo contraste que encerra, de outro olhar que há dias vi...
    Era um recorte de revista. Ali, uma cena de guerra, tão longínqua quanto brutal, servia bem ao sensacionalismo ou ao realismo , como queiram, do jornalista. Havia nele fotografado um menino paquistanês. Tão velho em idade quanto Vânia, 14 ou 15 anos, nada mais. Fazia parte de um grupo de fugitivos, repatriados de sua cidade nativa em escombros, para fazer lar agora entre repugnantes canos de esgotos...
    O olhar impressionava como o dela , embora absolutamente inverso. Nada dizia, nada contava. Olhar inexpressivo como se conduzido apenas pelo instinto de seguir o grupo. Como se houvesse feito justamente o contrário de Vânia. Ao invés de fazer o mundo renascer para si, já o tivesse enterrado, sem chance de sobrevivência, sem nem cogitar mais numa forma de vivê-lo. Olhar vazio de futuro. Incapaz de interrogar á tanta adversidade: Por quê?
    Olhar de menino sem revolta, pois o único viver que conhece é esse mesmo: uma sucessão de desditas que inexoravelmente vão se acumulando. Não imagina possa existir em outro lado dos continentes , juventude plena de vigor, esperanças e planos.
    Muitas vezes quando passo frente à estante, lá está teimoso, lado a lado com a radiosa figura de Vânia, o trágico adolescente paquistanês...
    Fico acabrunhada. Procuro então serenar-me. Tento fazer como aquela geração passada que, por falta de comunicações rápidas como as de agora, pouco sabia do que se passava longe, fosse China, Índia ou Paquistão. Quero ignorar. Restringir minha felicidade às paredes do lar, numa indiferença omissa.


   “O rapaz está tão longe-digo de mim para mim- e a garota que é minha está tão feliz” Não é possível aquietar-me. Não consigo por o limite de minha alegria em meus filhos, meus amigos, meu próprio país. Sou exigente. Quero nada menos do que a estabilidade da humanidade inteira.
    Confusa, aturdida, resolvo apelar para a esperança ainda intocada de Vânia que lá do retrato continua falando-me. Nariz petulante , posto para o alto como a desafiar-me afirma: Para mim toda a história passada já era... E seus olhos decididos vão repetindo: Já era... Já era...
     Nessa afirmação que ela e os jovens “salvos do incêndio” que se propaga ao mundo encontraram, parece estar a promessa de algo melhor e positivo.
     Lutas que colocarão depois Vânia face à face com ganâncias, negatividades, que sua atual ingenuidade nem pode ainda calcular, com certeza a esperam. Mas tenho uma intuição : Seja o que for que venha a enfrentar, a vitória já é dela.
    Nem em livros elaborados por filósofos e eruditos, onde tanto busco e procuro, achei mais esperança que neste seu retrato. Menina entusiasta e feliz, com muitos sonhos e propósitos, dançando sob olhar protetor de pais e irmãos... Menina segura de si, em condições de prometer-me muito. Prometer vencer o mundo. Pega-lo entre as mãos, tal como se fosse terra gasta e ressequida. Cultiva-lo amorosamente, semeando nele sua beleza e alegria. E, um dia ir dá-lo ao menino paquistanês finalmente desabrochado em flores, muitas flores de paz. 

Família

     Seres individuais que somos, podemos, contudo, ser agraciados tendo uma família biológica e outra que por não saber como defini-la vou chamar de “espiritual”.
     A família biológica desenvolve e troca afetos pela convivência amiúde. Com ela, experienciamos nossos mais importantes momentos de alegria e de tristeza. Compartilhamos nossas vitorias e nossos fracassos.
   A família biológica é rica em personalidades distintas. Seus membros em geral são de temperamentos diversificados.
  Nela, encontram-se elementos naturalmente afins, cujo entendimento se dá com facilidade, onde admirações mútuas acontecem. Porém, encontram-se nesta família também aqueles que parecem estar inseridos juntos num mesmo grupo, com a finalidade única, última, de, por um esforço mútuo, atingirem um princípio maior, misterioso, talvez sublime de unicidade entre seres. O relacionamento entre eles é um exercício de ajustamento contínuo para que a convivência harmoniosa se preserve.
    Porém, dentro da família biológica, aconteçam que divergências possam acontecer o próprio dividir vivências conjuntas, as lembranças das grandes datas familiares compartilhadas sempre gerarão um amor que falará mais alto no caso da família, como um todo, ser sacudida por alguma adversidade.



     Creio que o nascimento de crianças, suas presenças dentro da família biológica, terá sempre um grande peso aglutinador, pois a criança sempre é nela o objeto de afeto de cada um do grupo e torna-se mesmo quase como um objeto de culto agregador. Além disso, a criança sempre exige exemplos. Então, por ela, nos tornamos melhores.
     Estarmos inseridos no seio de uma família numerosa é uma das mais generosas dádivas que recebemos da vida.
     A família que chamo “espiritual” é um agrupamento cujos membros se atraem por interesses comuns. Sejam eles interesses religiosos, místicos, científicos, artísticos, filantrópicos. Existe já entre seus membros uma afinidade natural e supreendentemente pronta, estabelecida. Ela torna seus encontros muito prazerosos. O diálogo que flui fácil é uma constante neste tipo de grupo, pois sempre existe um tema comum para debate. Tal afinidade os faz reunirem-se assiduamente e serem solícitos para a necessidade de cada um.
     Como a família “espiritual” satisfaz nossas preferências individuais, nos tranquilizando, geralmente nos deixa mais aptos a um relacionamento harmônico com a família biológica, se qualquer dificuldade advinda das dificuldades do cotidiano e da diversidade de temperamentos entre o membro desta, se apresentarem.
     O melhor que nos pode acontecer é possuirmos ambas as famílias. Nossa individualidade estará assim sempre completamente assistida. Existem, porém pessoas cujo infortúnio é não possuir qualquer família. Penso que tal solitude deverá ser avassaladora para as emoções de alguém.
     As características que marcam cada um destes dois grupos a que podemos pertencer contribuem para a plena integridade do nosso ser. Assim, contar com ambos é então a felicidade maior que podemos obter.

sábado, 4 de julho de 2015

O Islã

Uma peregrinação à Caaba

  O início do islã trata da vida de um rapaz de 23 anos, Maomé, empregado em levar caravanas pelos desertos da Arábia até a Judeia, onde ele durante anos contata ideias do Judaísmo e do Cristianismo do Séc. VI DC. ( juízo final ,paraíso etc.)  Possui um temperamento místico e um dia já aos 40 anos recebe a visão de um anjo (Gabriel) que lhe diz que ele será o último dos profetas, que selará o trabalho dos líderes do Judaísmo e do Cristianismo, Moisés e Jesus. “Inicia então encontros com o anjo que lhe vai passando durante anos, ensinamentos, ditando o que será depois o livro sagrado do Islamismo que significa "Obediência”): O Corão Recitação) Este, segundo seus seguidores, selará a Torá e os Evangelhos.
    Daquelas noites muito claras e enluaradas do deserto, ele escolhe a bandeira que terá o novo credo: O emblema da lua crescente. Decreta também um dia santa na semana, que será a sexta feira, para distinguir do Sabah judaico e do domingo cristão.
    Maomé quer então implantar tais conhecimentos na cidade onde nasceu: Meca (na atual Arábia Saudita), mas encontra uma reação muito forte e é perseguido.
    Isto porque a cidade era politeísta e nela estava a “Pedra da Caaba”, monumento sagrado dos árabes antigos, anteriores ao Islã. Lá havia também um poço de abastecimento, onde as caravanas oriundas de toda a Arábia se abasteciam, cultuavam os deuses e faziam compras, dando imenso lucro à cidade. Uma crença monoteísta no Deus único Alá, como Maomé queria, viria em prejuízo do comércio local.

O crescente, símbolo do islã.

    Ele então foge junto a seguidores para a cidade próxima de Medina, e lá se torna um incomparável administrador e chefe religioso, implantando o Islã, o Corão (144 suratas).
    Estava-se em 622 D.C e dali é iniciado o ano 1 do calendário islâmico, que terá então a diferença de 622 anos a menos que o calendário cristão. Por fim, Maomé consegue a façanha de unir as tribos árabes espalhadas, criando uma nação voltada ao culto de Alá (O Clemente, Misericordioso).
    20 anos após sua morte, num trabalho surpreendente, como jamais acontecera em qualquer outra religião, o Islamismo está difundido por todo o Mediterrâneo, Ásia e África.
    Não sendo necessário se ter clero nem igreja, bastando ao crente ajoelhar-se voltado à Meca para orar e louvar a Deus, tal credo era bastante prático para os nômades do deserto e de qualquer lugarejo. Isto contribuiu para uma difusão tão rápida; também contribuíram os impostos cobrados pelos dois maiores impérios da época: o Persa e o Bizantino, enquanto que os islâmicos não os cobravam. Também a promessa de um paraíso aos guerreiros mortos e o objetivo único de propagação religiosa e não espoliação territorial.
    Como Maomé foi tanto um estadista como chefe religioso, assim se conservou a tradição de religião e Estado unidos, em todos os califados que viriam depois. Compreende-se porque até hoje os islâmicos não conseguem separa-los. Suas terras sempre foram uma Teocracia. Todas as leis políticas, sociais são ditadas pelo Corão. Esta é a grande diferença entre nós cristãos e os islâmicos. Nós separamos o Profano do Religioso. Para eles, as suas atitudes cotidianas são dirigidas pela religião, por seu livro sagrado. Enfim, vivem muito mais a religião do que nós.
    O único país islâmico que não é uma Teocracia, separando Estado e Religião é a Turquia, isto após a revolução republicana de Ataturk em 1920.
    Quando Maomé morreu, tiveram início as desavenças por sua sucessão. Desavenças que irão dividir o Islã em duas partes bem distintas que lutam entre si até hoje. Divisão que será a causa da maioria das lutas internas que se espalham por todo o Oriente Médio.
    Abriu-se a facção Xiita que aceitava e ainda aceita apenas os descendentes de Maomé como seus sucessores e representantes do verdadeiro islã. Também a facção Sunita que não os aceita e sim os que descendem dos chefes políticos, amigos do Profeta. Hoje, os Sunitas são maioria em todas as terras do islã com exceção do Iraque e Irã, países de maioria Xiita.
    Vou aqui priorizar entre as inúmeras lutas entre estas duas facções, pela grande importância que tiveram, apenas estas duas: A da Idade Média , o chamado “Massacre de Karbala”, onde os Sunitas massacraram quase toda a família de Hussein, um neto do Profeta, onde sobrou apenas uma criança ,escondida numa tenda, criança que veio dar continuidade ao Xiismo. Esse massacre resultou num dia consagrado , que é ainda até hoje lembrado pelos Xiitas, com teatralizações sobre o martírio de Hussein, jejuns e procissões, tal como nós cristãos comemoramos a Pascoa e teatralizamos o sofrimento de Jesus.
    Os Xiitas sempre foram mais emocionais e mais dramáticos do que os Sunitas. São messiânicos (esperam um Messias). Creem no Filho de Deus ; nestes aspectos se assemelhando ao Cristianismo.

Alcorão, o livro sagrado do islã.


   A outra grande luta foi na Idade Média, que durou 8 anos, de 1980 a 1988, entre Saddam Hussein (Sunita) e Khomeini (Xiita).
    Além das 5 obrigações estabelecidas pelo Corão ,obedientemente seguidas por todo islâmico, o Islã obedece também a Jihad ,que é um preceito dado não pelo Corão , mas por juízes e teólogos islâmicos. Jihad significa : “Esforço e Sacrifício no Caminho de Deus” que presume uma luta interna de cada homem consigo mesmo. Significa também “Guerra Santa” ou Jihad militar, justificada quando há invasão de território. Como foi na Antiguidade na libertação da cidade de Jerusalém , invadida pelos Cruzados ,feita por Saladino. O terrorismo surgiu da má interpretação dada a Jihad.
    Há entre os islâmicos igualdade , não existe distinção entre pobre e rico, entre classes sociais. O que distingue um homem do outro e ser um Fiel , isto é, um seguidor perfeito de Maomé ,ou ser um Infiel. A questão é que os Sunitas acham que os Xiitas não interpretam direito o Corão ,então não são Fieis e os xiitas pensam da mesma forma sobre os Sunitas. A causa das hostilidades porém, é sempre a sucessão .Quem deveria suceder Maomé? Parentes ou amigos?
    A sociedade antiga islâmica era escravista como foram todas as sociedades antigas, entre elas cristãs e judaicas. Raramente seus escravos eram islâmicos seguidores de Alá e esta seria a razão da escravatura das Américas terem recebido muito raramente escravos islâmicos mesmo os saídos dos países islamizados. A escravatura foi abolida entre eles no Séc. XIX e nos Estados independentes do Imperialismo no Séc. XX.
    Para mais complicar as lutas internas entre os próprios islâmicos do Oriente Médio, temos entre duas facções Xiitas os chamados “Filhos de Musa” e os chamados “Filhos de Ismael”. Os Filhos de Musa creem que em sua descendência estão 12 “Imans” (iluminados) . Como o próprio Musa desapareceu de modo misterioso (saiu a cavalo, e o cavalo voltou só e ele nunca mais foi visto) então seus filhos acham que um dia ele voltará como o duodécimo Iman , um messias que espalhará o Islã em todo o mundo (o ideal último de todo islâmico)
    Entre os Ismaelitas (também Xiitas) estão os Drusos , uma comunidade religiosa pouco conhecida que está na Síria , na Jordânia e em sua maioria no Líbano. Provavelmente existem desde o Séc. X. O sistema teológico é reservado, e eles não se envolvem em lutas. Têm como mestre principal Tariq Al Harkins que para eles é a encarnação do filho dileto de Deus, um descendente da linha Xiita , da filha de Maomé, Fátima.
    Só pode ser Druso os descendentes de um Druso. São muito místicos ,esotéricos, acreditam na Reencarnação. São também fechados , porém acredita-se que sejam um dos grupos mais puros e bem intencionados do Islã.
    Outro ramo dos Ismaelitas (hoje quase em extinção) são os Nazaritas chamados de “Assassinos” Este nome lhes vem de uma droga que usavam o “Hashishium”. Eram justiceiros , Seu chefe era conhecido como “O velho da montanha” .Um personagem misterioso que aliciava jovens , levando-os a um local paradisíaco , criado por ele numa montanha onde experimentavam e tinham uma antevisão de um futuro paraíso, que eles obteriam caso se dispusessem a serem justiceiros, matando a golpe de adaga todas as autoridades consideradas importunas e tiranas.

A dança mística dos dervixes.

    Conseguiram levar o terror a todo o Oriente Médio nos séculos XII e XIII. As lutas entre estas duas facções Xiitas (Filhos de Musa e Filhos de Ismael) foi o que enfraqueceu O Xiismo, tornando os Sunitas maioria.
    Os Sunitas fundaram a belíssima cidade de Bagdá (Séc. VIII) (hoje quase toda destruída por guerras) e nela introduziram as famosas Madrasas (Escolas de Teologia e saber) . Fundaram lá também a “Casa da Sabedoria”. Desta, foram para a Espanha, para a região da Andaluzia, levando toda a beleza da arte arquitetônica que hoje vemos nela , a filosofia dos gregos antigos, a matemática de Pitágoras, a geometria de Euclides, instrumentos novos de navegação e Astronomia. Enfim, toda a sabedoria que os mouros introduziram na Andaluzia fez a riqueza de Córdoba, Sevilha, Granada, Toledo.
    Em Jerusalém estão os primeiros monumentos islâmicos: O Domo da Rocha (Mesquita de Omar) que situado no monte do Templo é também um local sagrado para os Judeus pois foi ali que aconteceu o episódio bíblico do “sacrifício de Isaac”. Também ali está a magnífica mesquita Aqsa.
    Tentemos agora entender o grande ódio que o Oriente Médio tem ao Ocidente. Isso vem de longe. Na Idade Média lá tivemos os horrores das Cruzadas com os cristãos fazendo massacres inimagináveis às populações judias e islâmicas. Isto porém é passado .Modernamente tivemos o imperialismo russo e britânico em posse do Irã .Só ao final do Séc. XIX a Grã-Bretanha e a Rússia reconheceram a independência do Irã. Nas Filipinas (local islâmico) os E.U. Fincaram pé. O presidente americano justificava a posse da Filipina islâmica dizendo que estavam ali para desenvolvê-la, civiliza-la e educa-la. Quando lá, guerrilhas internas começaram contra os E.U., o general MacArthur achou que as guerrilhas eram contra as leis de guerra e que prisioneiros não mereciam então quaisquer benefícios de guerra .Ordenou: Matem todos os prisioneiros maiores de 10 anos .Isto é, enfim todos. Tal episódio foi apenas há um século (1913). Diz nosso grande historiador Voltaire Shilling, em tom de ironia: “E os americanos dizem não saber por que são odiados pelos Muçulmanos!” (Ocidente X Oriente, pág. 115).
   O Islã conta com grupos fundamentalistas que se acham responsáveis pela pureza dos costumes islâmicos. São eles: o Taliban (Iraque), Irmandade Muçulmana (Egito), Hezbollah (Líbano) Hamas (Cisjordânia), República Islâmica (Irã). Suas atividades criminosas são em geral contra os costumes dos próprios Fieis dentro do Oriente Médio.
    Quando falamos em fundamentalismo, lembremos que temos entre nós também fundamentalistas de grupos cristãos , contudo, não tão radicais e nem sendo criminosos. Temos Batistas, Prebisterianos, Evangélicos, Adventistas que são contra costumes modernos como divórcio, aborto, células tronco etc. e são anti- Darwinistas, não aceitando a teoria evolucionista de Darwin.


Templo de Baha'i Flor de Lótus em Nova Delhi.

    Falemos um pouco sobre o atual “Grupo Estado Islâmico”. Saddan Hussein era um dirigente Sunita do Iraque, que agia segundo o fundamentalismo do Taliban. Foi deposto por uma invasão de países ocidentais aliados, liderados pelos E.U. em 2003 . Foi enforcado em 2006, sendo substituído por um governo Xiita ,sendo o Xiismo maioria no Iraque. Então a reação sunita contra Xiitas não se fez esperar. Em 2004 foi criado o ”Grupo Estado Islâmico” para vinga-lo. Naturalmente seus alvos são todos os Xiitas (que segundo eles são Infiéis que devem ser todos mortos) e também principalmente os cidadãos americanos e os de costumes ocidentais em geral. São chamados também de Jihadistas, isto é, da Jihad militar que tem a obrigação de lutar contra invasores. Visam pôr toda a Síria sob o controle do “Grupo Estado Islâmico”. Para isto, precisam derrubar o atual governo . Então, se uniram aos rebeldes que vêm há anos querendo derrubar o ditador presidente Bashar Al Assad. Contam com grandes recursos do petróleo. Na Nigéria o cruel ditador Bah Haram se juntou a eles. Pretendem depois tomar a Jordânia e a Arábia Saudita. O líder do Grupo Estado Islâmico é Abu-Bahr-Albagdade chamado fanaticamente de “o califa de todos os muçulmanos” Tem agentes em todo o ocidente aliciando jovens para sua causa.
   Todavia, com todo o terrorismo e horror que estamos assistimos vindo do Islã, acredito ainda na parte mística , boa do Islamismo. Quando pensamos nas atrocidades do nazismo que durou os anos da guerra (7 anos) mas que por fim terminou não podemos perder a esperança. Confio num movimento religioso , o Islã ,que conta entre seus membros grupos tão puros como os Sufis e os Bah’ais. O movimento Bah’ai foi fundado no Séc. IX pelo persa (iraniano) Bah’a Ullah. Propõe a união de todas as religiões .É universalista; profundamente devocional. Propõe também a igualdade entre homens e mulheres. È perseguido contudo dentro do próprio Irã e protegido pela ONU, tem seus membros encaminhados a outros países (Aqui no Brasil estão em grande número) São liberais e abertos a todos.
    Os Sufis provieram da facção Xiita, Fatimida . Creem que foi Fátima, filha do Profeta, que obteve as primeiras noções sufistas. Foram muito perseguidos porque o Islamismo ortodoxo só admite que se adore a Deus. Vê o interagir ,a experiência mística, pessoal homem-divindade como uma heresia feita pelos sufistas ,uma pretensão absurda.
    Do Afeganistão (antigamente Pérsia) nos veio o grande mestre do Sufismo Mevlana Rumi que o propagou na Ásia Menor (hoje Turquia) onde é ali até hoje desde o sec. XIII idolatrado, principalmente na cidade de Kônia , sede maior de sua pregação. É o inspirador dos Dervixes girantes (Ao rodopiarem chegam ao transe , por estarem em comunhão com Alah). É também um dos maiores poetas do Islã. Sua grande obra é Mathnavi (seis livros), considerada uma das obras primas da literatura persa. Seus ensinamentos vieram sempre através da arte poética, devocional (Busca Deus em toda parte ,mas o encontra em seu coração, segundo seus versos.)
    A característica marcante dos dervixes girantes é a evolução espiritual obtida sempre com o auxílio de um mestre. Segundo Rumi, o homem como parte da unicidade entre seres , jamais poderia evoluir sem o concurso de alguém, como ele próprio obteve, pela convivência com seu grande mestre Shamis Ad Din.
Vejo os Sufis e os Bah’ais como a grande perspectiva de um Islamismo puro e sagrado.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Tipos de Telepatia


A Telepatia (forma de intercâmbio entre os seres) não se dá apenas com o nosso corpo mental. Temos também:
    A Telepatia Instintiva- esta se dá através de nosso plexo solar. Segundo o pensamento esotérico, era esta a telepatia que acontecia nas primeiras raças humanas, quando a mente do homem não estava ainda desenvolvida. Formigas, pássaros e outros seres do reino animal assim também se comunicam, seguindo um instinto de sobrevivência. Acontece também esta telepatia entre mães e filhos recém-nascidos, impossibilitados ainda de comunicação verbal.


Comunicação Telepática.

      A Telepatia Sensitiva- Acontece pela região do diafragma. Recebe e comunica ondas emocionais. È muito responsável por surgimentos de hérnias, e úlceras do diafragma. O intercâmbio entre pessoas que sofrem choques emocionais, com outras emocionalmente fortes, torna-se importante. Porém, só na telepatia mental acontece o intercâmbio com o chacra superior do entrecílios.
      Geralmente, os mestres espiritualistas, comunicam-se com seus discípulos através da mente concreta, lhes dando ideias de coisas objetivas a serem realizadas em seu habitat... Seus discípulos iniciantes têm pouco desenvolvimento em sua mente abstrata. Quando tiverem esta mente desenvolvida, todos irão usufruir da Telepatia Intuitiva.
    Telepatia Intuitiva- Acontece através do chacra pituitário, com a ajuda da qual poderemos emitir conceitos eternos que ultrapassam tempo e espaço, e artes igualmente duradouras.
    A Telepatia, toda ela é, enfim, o grande e amoroso recurso divino para nos levar à perfeita Unicidade entre todos os seres. 

Luso Açorianos em Santa Catarina

    Ter morado em Santa Catarina foi reportar-me à infância ,quando ainda no Rio de janeiro, tradições e costumes me eram transmitidos por meu avô português.
    Foi lembrar-me de jogos (petecas, amarelinha, esconde/esconde) canções e versos tão simples e puros que na época tanto eu como as crianças portuguesas cantávamos a viva voz:
   
Menina minha prima                              Lá em cima daquele morro
Entra dentro desta roda                         Passa boi, passa boiada
Diga um verso bem bonito                    Também passa moreninha   
Diga adeus e vai embora                        De cabelo cacheado
                  
    Já adolescente tive a oportunidade de convívio com a amorável gente catarinense.
    Conheci São Francisco do Sul, a mais antiga de suas povoações que nos lembra a abordagem no séc. XVI de nautas espanhóis que, salvos de uma tormenta no mar, viram depois esta acalmar-se e durante os 2 anos que ali estiveram ergueram uma capela de agradecimento à Nossa Senhora das Graças.Observa-se que apesar das divergências entre Portugal e Espanha acontecendo naquela época em nosso Sul,os Lusos ali chegados, conservaram o nome de Nossa Senhora das Graças para a edificação que hoje é ainda a Matriz da cidade.

Litoral catarinense, rico em enseadas.

    Ali, está a lembrança daqueles portugueses que no séc. XVII migraram de são Vicente, na região paulista, para o Sul, servindo a coroa de Portugal, chegando seduzidos principalmente pelas promessas de ganhos e sesmarias
    Povoação com suas vielas estreitas, ruas de paralelepípedos , coreto na praça e naturalmente sua fileira de casas coloridas onde se reproduz os beirados que em Portugal  revelava  quem tinha ou não tinha “eira e beira”. Suas janelas tão baixas que ensejavam  alguém debruçar-se em seus peitoris para namoros  ou amenas conversas entre vizinhos.
    Hoje, vemos ali ainda bem forte a tradição do “Pão Por Deus”, uma das mais belas trazidas pelos imigrantes que chegaram da ilha de São Miguel.
 Esta troca de mensagens entre amigos, versos românticos entre namorados, também pedidos colocados em papeis enfeitados, expostos publicamente, nos mostra  a alma simples, singela, do povo português:

                     “Neste Pão Por Deus, meu  amado
                       De tanto e tanto fervor
                        Te mando aqui escravizado
                        Meu coração  com amor.”

Pão-por-Deus tradição açoriana preservada.


    Hoje ainda encontrei vários  “Pão Por Deus” nas zonas litorâneas e até no centro de Florianópolis, Desterro. Era assim que Franklin Cascaes desgostoso com os episódios dolorosos acontecidos na capital catarinense, cujo protagonista foi Floriano Peixoto, desejava que sempre se chamasse esta cidade: Desterro, jamais Florianópolis.
    Foi mesmo com as regiões litorâneas ,por onde se espalharam os Açorianos,hoje o maior contingente étnico da Ilha, que mais tive contato, entrevistas e convívio.
    Apraz-me assistir a Festa do Divino, acontecendo após a quaresma , no Pântano do Sul,uma das últimas vilas de pescadores do Sul da Ilha.
    Não é raro ver-se dias antes do festejo, um grupo de três ou quatro fieis, levando pelas ruas fervorosamente a bandeira do Divino (Vermelha, com uma pomba branca ao centro) arrecadando donativos para os gastos necessários a ele.
    Com sua cantoria, violas  e tambores, lá vão eles parando em moradias, levando seus estandartes com fitas coloridas penduradas,cada uma delas um agradecimento por alguma benção alcançada.
    Porém, será a coroação do menino imperador investido de uma faixa vermelha no peito, meias compridas alvas, que carrega um cetro esperando ser coroado, que fará a beleza da festa, terá a grande importância de não  se  deixar perder uma tradição portuguesa, nascida na longínqua Idade Média, especialmente no arquipélago dos Açores,quando pequenas  edificações eram erguidas apenas para guardarem os apetrechos das comemorações em honra ao Espírito Santo.
    Imperdível  é  também assistir o arrastão da Tainha  que atrai turistas   à esta praia do Pântano do Sul, reduto de descendentes de Açorianos.
   Pelos meses de Abril e Julho nos morros que cercam e embelezam esta vila, lá se postam vigias que irão distinguir nas ondas do mar a chegada de cardumes que se aproximam das encostas. Sinais são dados aos pescadores já à espera na praia, que logo se aprontam a por seus barcos ao mar para os cercarem.
   Vi dezenas de moradores e até turistas ajudando no arrasto das redes. O espetáculo é realmente pitoresco.
    As riquezas do mar fazem ainda hoje a sobrevivência dos ilhéus dos Açores que se estabeleceram principalmente nos litorais da Ilha catarinense. Também o cultivo de ostras que nos proporciona degustar nos restaurantes de Ribeirão da Ilha as mais saborosas especiarias deste molusco, faz não só a sobrevivência mas também a riqueza dos produtores que  ali implantaram um dos maiores cultivos de ostras do país.
    Não só a pesca abundante garantiu ao que imigrou a sua prosperidade. Também a “Farinhada”, já conhecida pelos índios Carijós, que aqui encontraram, foi seu grande recurso. Muito logo, centenas de engenhos de farinha de mandioca espalharam-se pela Ilha.O solo propício ao plantio de bananeiras, incluiu em suas refeições caseiras seus famosos bolinhos de banana, iguaria sempre presente.
    As antigas famílias açorianas trouxeram também de sua terra a arte belíssima da renda de bilro. Atualmente ainda segue sendo uma das grandes fontes de lucrativo comércio.

Rendeira manejando o bilro.

    Nas margens da Lagoa da Conceição,hoje chamada até  de “Avenida das Rendeiras” em Florianópolis,as rendeiras com a beleza de suas rendas,a destreza de suas mãos manejando o bilro, surpreende e encanta o turista.
    Porém, se a intenção é continuar pesquisando os costumes dos primeiros açorianos,podemos achar seus rastros também  na praia de Armação (sul da Ilha). Lá, como em todos os locais que  recebiam o nome de “Armação”, esses imigrantes iluminavam as suas noites com óleo de baleia. Ali, este cetáceo era trabalhado aproveitando-se dele suas barbatanas e também sua carne.
    Não só Cristianismo mas também  Magia foi trazida de Portugal para cá.
    É  ainda Franklin Cascaes em seu belíssimo livro “ O Fantástico na Ilha de Santa Catarina” quem nos relata  esta faceta incluída  até hoje entre o povo catarinense.
   Tive ocasião de entrevistar gente relacionada à “ bruxas” atuais, que naturalmente já não andam –segundo os seus “Causos”- fazendo diabruras como darem nó  nos rabos e crinas de cavalos e outras tantas. Porém, que ainda são procuradas como advinhas e têm suas  previsões e trabalhos  de auxílio contra mal olhado, maus  agouros etc, muito respeitados.
    Para nos jogarmos profundamente nos vestígios lusos que permeiam toda esta linda Ilha,precisamos aguçar os ouvidos à entonação de voz, à fala  daqueles  que carinhosamente são chamados “Manezinhos da Ilha” que não assimilaram influências dos que chegaram depois, aqueles que ainda guardam muito de um  linguajar antigo da terra natal de seus bisavós e tetravós.  Quantas vezes ouvi deles o seu :“Se queres, queres. Se não queres diz” , o seu “ Pró mode de...” o seu   “trés antonte”.
    Santa Catarina, Continente e Ilha, realmente joga todos os meus sentidos à doçura de minhas próprias raízes e ascendências portuguesas. Porém, melhor que   eu, uma das estrofes do “Rancho de Amor à Ilha” , de Claudio Alvin Barbosa, nos fala de todo o encanto desta região catarinense .

                                       “ Um pedacinho de terra perdido no mar!
                                          Num pedacinho de terra,beleza sem par!
                                          Jamais a natureza reuniu tanta beleza!
                                          Jamais algum poeta teve tanto prá cantar!”