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segunda-feira, 31 de março de 2025

O Encontro

O BARRACO DA VELHA INGRÁCIA DISTAVA BASTANTE DA ESTAÇÃO DO TREM.      MAS ESTE PERCURSO ELA HOJE IRIA PERCORRER. ARQUEJANDO COM CERTEZA, MAS O FARIA SIM.   ERA CEDO AINDA, MAS ELA JÁ SE ACORDARA. NÃO DORMIRA MUITO, TÃO EXCITADA ESTAVA. ANTECIPARA JÁ A ALEGRIA DAQUELE ENCONTRO. HOJE NEM SENTIRA O COLCHÃO TÃO VELHO QUANTO ELA, QUE SEMPRE LHE MAGOAVA O CORPO. AO CONTRÁRIO, AO ABRIR OS OLHOS O QUE FEZ FOI LOGO SORRIR. COMO NÃO SORRIR ANTE A EXPECTATIVA DE TANTA FELICIDADE? NA ABERTURA DA MINÚSCULA JANELA, PELA VENEZIANA QUEBRADA, VIU UMA RÉSTIA DE SOL QUE DEU CLARIDADE A ESCURIDÃO DO BARRACO. OLHOU NA MESINHA AO LADO SEUS REMÉDIOS CASEIROS E PENSOU QUE HOJE NEM PRECISAVA DELES, TÃO SADIA SE ACHAVA. ARRUMOU-SE COM ESMERO, ATÉ COM ÁGUA DE CHEIRO FOI PERFUMAR-SE. QUE ESTRANHO! - PENSOU -HOJE, TUDO ERA BELEZA, VIDA, ENTUSIASMO                                                                  QUANDO OUVIU O SINO DA IGREJA BATER 9 HORAS, APRESSOU-SE A SAIR. IRIA FAZER UMA PARADA NA PRAÇA E ASSIM DIVIDIRIA PELO MEIO A SUA ESPERA ANSIOSA. ENCONTROU A VIZINHA NA SAÍDA, QUE LOGO FOI LHE DIZENDO: COMO ESTÁ BEM E ROSADA HOJE!   NOTOU QUE O CÉU ESTAVA MUITO AZUL, QUE O ORVALHO HAVIA MOLHADO OS VERDES QUE ELES ESTAVAM LUZINDO E AS FLORES PARECIAM PINTADAS POR UM ARTISTA OCULTO. SERÁ - PENSOU - QUE A PRAÇA MUDOU TANTO OU ERA ELA QUE AGORA A VIA ASSIM? A PRAÇA LOGO SE ENCHEU DE CRIANÇAS E UMA BOLA VEIO CAIR A SEUS PÉS. INGRÁCIA ATÉ ENSAIOU LHE DAR UM CHUTE E OS MENINOS RIRAM. AQUELE DIA SÓ PEDIA ISSO MESMO: RISOS. FELICIDADE NÃO PODERIA MAIS DEMORAR A ACONTECER.   .                                                                                                               OUVIU FINALMENTE O APITO DO TREM. PAROU NA PLATAFORMA, FIXADA NA SAÍDA DOS QUE CHEGAVAM. VIU-O.  SUA VOZ ENROQUECEU E SO PODE DIZER: - FILHO! FILHO, E PENSAR; O MAIS LINDO FILHO QUE ALGUÉM JÁ GEROU.           QUANDO ELE PASSOU SEUS BRAÇOS EM SEUS OMBROS E ENCOSTOU SEUS LÁBIOS EM SEU ROSTO ENRUGADO, UM VIGOR DE JUVENTUDE, UM SENTIDO DE SERENIDADE LHE PERCORREU A ALMA, HOJE A PRESENÇA DELE IRIA ENCHER DE LUZ A OBSCURIDADE DO SEU VIVER.


segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Sherazade e o Rei Chariar

Em tempos antigos dois reis árabes, irmãos, chamados a encontraram suas ambos suas respectivas esposas nos braços de robustos negros escravos. Desesperados por esta traição resolveram correr mundo para acharem um consolo e uma resposta de Alah para aquela dupla decepção. Após muito caminharem, pararam num local à beira mar. Ali tiveram a aparição de um Dijin, um gênio que lhes contou que ele tinha tanto ciúme da sua mulher que a trancava num cofre e depois atirava o cofre no mar. Buscava-o depois, dormia de novo com ela e tornava a tranca-la e joga-la ao mar repetindo isto sempre. No entanto, ela sempre arrumava um jeito de trai-lo e o fazia de forma tão descarada que de cada amante que tinha guardava um anel que ganhara e fazia dos anéis um colar que já lhe rodeava o pescoço com muitas voltas.   O rei Chariar viu na aparição do gênio e no seu relato uma resposta de Alah.  Achou que Deus estava lhe dizendo: Nenhum homem jamais pode conseguir domar uma mulher a não ser matando-a. – Então, se é assim-disse o irmão – que se faça a vontade deAlah.                                                                                                                                                                                                                    Quando chegou a casa, ele mandou cortar a cabeça da rainha e capar todos os escravos negros do palácio. Chamou depois o seu vizir e disse: quero que uma jovem virgem venha dormir no meu leito e depois que eu tenha desfrutado uma note de prazer com a jovem, que de manhã lhe cortem a cabeça Assim fez por anos, noite após noite, ate que as virgens do reino, especialmente as mais belas, como gostava, começaram a rarear.    O vizir que tinha duas filhas virgens e lindas chamadas Sherazade e Dunizade começou a temer pelo futuro delas. Contou a elas as maldades do rei Sherazade a mais velha era uma moça instruída, coisa muito rara naquela época. Vivia cercada de livros e gostava de ler lendas antigas. Sherazade pensou no que o pai lhe contava e depois disse: Alah, em sua infinita sabedoria está me fazendo ver que somente eu posso demover este rei de suas maldades. Só eu posso adoçar-lhe o coração. Eu quero ser a próxima esposa deste rei. Está louca, filha, disse apavorado o vizir. Antes eu lhe caso com o primeiro pretendente e deixarás de ser virgem.  Ela, porém retrucou: Não quero pai!   Só quero agora mudar a cabeça deste rei, mantendo a minha sobre o meu pescoço. No dia seguinte Sherazade procurou o rei e fez a oferta de si mesma. - Muito bem disse o rei encantado . Como filha de meu vizir. Terás um trato melhor, mas pela manha, já sabes; zas! Fê-lo cortando ar, frente ao pescoço dela.   Quando estava já no auge de seus preparativos para a sua noite de núpcias, entrou para banha-la e vesti-la numa saleta próxima ao quarto, a sua irmã Dunizade. Enquanto o rei esperava-a sentado no quarto, Sherazade e Dunizade. Conversavam e riam muito. Do que será que tanto riam? Perguntava-se o rei e curioso foi até a porta e apurou o ouvido para escutá-las. Sherazade (combinada com Dunizade) enquanto se banhava, contava á irmã uma estória tão hipnótica que o rei se manteve ali paralisado, ouvindo-a muito tempo até que Sherazade se interrompeu , dizendo: Não posso contar o resto porque não sei contar estórias quando não tem mais lua no céu. Atrase-me muito e nem fui ainda para a cama do rei. Mas Sherazade o havia prendido ali tantas horas que o rei, ao deitar-se pegou logo no sono. Assim, pela manhã, porque não havia ainda cumprido seus deveres conjugais, transferiu a execução de Shrerazade para a manhã seguinte.

Na próxima noite, instada insistentemente pelo rei, Sherazade terminou de contar-lhe a estória que contara á Dunisade. Porém, teve a sabedoria de rapidamente já encadeá-la á outra estória, que espichou até o novo dia raiar – Ora meu rei, disse interrompendo-se como se estivesse muito aborrecida. Veja! Já está surgindo o sol! Eu não sei contar sob a luz do dia.  -----Como é o desfecho? Insistiu o rei – Só posso lhe dizer que é muito empolgante.                                              – Está -concordou ele- deixemos então o fim para anoite que vem. Mas sabes, de manhã, zas! E apontou o pescoço dela. Mas antes de dormir perguntou: conheces muitas estórias? Oh!  Sim! É realmente uma lastima que eu não possa lhe contar todas... – Mas sua irmã, por certo conhece muitas, não? – Minha irmã não sabe ler, meu senhor, nunca leu um livro de lendas e, além disso, se expressa muito mal. Assim se repetiram as coisas na noite seguinte e nas outras 998 que somadas às duas primeiras perfizeram as famosas “Estórias das Mil e Uma Noites”, nas quais Sherazade manteve sempre vivo o interesse do rei e a sua cabeça presa ao seu pescoço. Quando as mil estórias terminaram o casal já tinha três filhos, o rei ficara mais instruído, o seu coração se adoçara, e ele não queria por nada perder uma mulher com tanta determinação e sabedoria.


sexta-feira, 12 de abril de 2024

Uma Negra Chamada Vitória

Negra Vitória está no mercado público. Mísera, seca, fedorenta, ruína que a vida teimava em levar até os noventa. Todas as noites por ali. Nunca encontrando um rico em seu caminho àquelas horas. Também, por que rico viria agora, como ela buscar restos pra forrar barriga, se podia escolher o que queria em dia claro? Mas tudo estava certo. Cada um como cada qual! Diversidade de sorte não a perturbava nada, principalmente hoje que para ela era uma noite diferente. Noite de realização e de entusiasmo. Noite pela qual tanto aguardava! Sentia até o coração lhe bater alegre, assanhado no peito murcho e derreado

Alterar-se com mazelas não era mesmo do feitio de negra Vitória. Miséria vira acomodação se bem organizada e a sua era. Vejam só: O seu Custódio lá da banca de carnes escondia-lhe sempre um pedaço de sebo dentro de um caixote. Ela sabia que o sebo seria seu sempre até que descansada e inerte não necessitasse dele mais.

O céu parecia mesmo a ter escolhido por afilhada, pois lá no fundo do mercado o vendeiro displicente jogava fora, nem bem podres ainda, abóboras e espinafre. Um dia até uma pera, fruta de rico, encontrara. Não. Não podia considerar sua sina de ingrata. Mas que às vezes cansava caminhar estirão tão comprido lá isso era verdade. As juntas de seu corpo rangiam todas parecendo até gemer com ela. Mas engraçado, até solidão que fustiga mesmo esta noite não fustigava.

Só achava que negras de sua classe deviam finar-se enquanto de canela jovem, senão já queriam até se igualar à gente delicada. Vejam ela: Quando o caldo do sebo misturado ao rebotalho caia-lhe nas entranhas esganadas, entranhas que esperavam o dia todo por aquela única panelada, ela sentia um bruto vômito e sujava o chão todo do barraco. Onde se viu negra acostumada a todos os tipos de mazela, com aqueles luxos de velha mimada?

Só uma coisa virava-lhe o pensamento, a perturbava: Aquele nome pretensioso posto nela: Vitória, Não que soubesse bem o significado do vocábulo. De estudo tinha apenas a tabuada que um patrão letrado lhe ensinara.  Mas sabia que o termo tinha a ver com algo que a gente podia alcançar. Se cada bebê que nasce tem o direito de chamar-se claridade, gloria e até vitória, algo dentro de si dizia que aguardasse. Tinha a certeza. Quando adquirisse o que queria com os trocados que trazia dentro do lenço encardido, todas as coisas ruins para ela desapareceriam como se tocadas por um mágico.

Dali a pouco negra Vitória já está na rua levando em suas mãos um pacote. As esperanças de negra Vitória ela traz todinhas enroladas numa única folha de jornal. Negra Vitória apressa-se, porque felicidade não pode mais esperar para acontecer. Suas pernas pareciam até aladas Mas, teve apenas um momento azarado. Tão excitada estava, que tropeça em palhas de milho em frente ao mercado e lá se vão ao chão todas as suas esperanças embrulhadas. Ela pega o pacote apalpando-o apalpando-o ansiosamente e abre depois a boca desdentada num sorriso puro, perfeito, quando o sente intacto.

Finalmente chega à frente da porta do seu barraco. Ela chama de porta as duas tabuas ruídas e cruzadas. Entra e coloca então o pacote sobre um caixote novo, evidentemente a pouco comprado. Está coberto com uma toalha alva. Aquela alvura pondo contraste chocante ante a penúria do barraco. Negra Vitória para olhando tudo extasiada. Está encantada, com o aparato que ela própria idealizara.

Tira depois do pacote uma estátua de São Jorge e pensa: Seu barraco serve agora de teto ao sagrado ao que é divino, que não é domínio de pobre, nem domínio de rico.

Ali dentro ela sente uma alegria, uma paz, um êxtase. Uma transcendência que nem o patrão letrado que lhe ensinara tabuada saberia explicar. Porém negra vitória, mísera, velha, seca, conseguiu tudo isto.


domingo, 29 de agosto de 2021

O Estratagema de Takla

No século VII, vivia na cidade de Medina na Arábia, um homem de meia idade chamado Mosab. Sua vida era muito difícil. Já fora adestrador de falcões e durante uma queda ficara capenga. Porém, viajara várias vezes ajudando caravanas de peregrinos que iam até a Pérsia. Lá, aprendeu Geometria, Cálculos e os segredos da Astrologia com sábios sacerdotes. Quando não pode mais trabalhar com falcões por estar capenga, mudou-se para Damasco, na Síria e ali conheceu Takla com quem se casou. Sua profissão ali não era das mais rendosas, tornou-se um professor. Ensinava Astrologia e Geometria. Era um homem muito estimado por seu gênio paciente, mas para poder sustentar uma esposa e uma filha tinha que contar com Takla que, muito ativa, bordava tapetes com cenas do Alcorão.

   Um dia bateu em sua porta um emissário do califa de Damasco. Este lhe mandava uma ordem para que comparecesse perante ele. Mosab ficou lívido de emoção. O que –pensou ele- aquele poderoso rei havia de querer com um homem tão humilde como ele? Após muitas conjecturas sobre aquele honroso convite, pôs suas melhores vestes, seu turbante novo, sua melhor túnica e foi atender a ordem.

   Quando atravessava os luxuosos salões para chegar até o rei, ouviu de nobres muçulmanos comentários desdenhosos como; O que quer nosso soberano ouvir deste astrólogo capenga? Mas a entrevista foi cercada de mistério. Todos os secretários foram convidados a se retirarem, ficando a sós Mosab e o califa. Este então esclareceu em tom amistoso.

   _Tenho recebido muitas informações elogiosas a teu respeito. E, a minha atual favorita é amiga de sua esposa Takla e falou-me varias vezes de tua sabedoria, então para agradá-la quero nomear-te para o cargo de meu primeiro ministro.

   _Eu, primeiro ministro? Repetia Mosab estupefato.

   _Exatamente- confirmou o califa e passou a nomear as capacidades que seriam aproveitadas em Mosab: És um homem honesto.  Conheces os segredos da Geometria de Euclides. Sabes então muito bem lidar com números e contas. Conheces também Astrologia e a qualquer momento poderás dizer-me como está a trajetória dos planetas no céu. Ninguém duvida da tua sabedoria em interpretar o Livro Sagrado, o Alcorão de Alá. Julgo-te, portanto o mais confiável para vigiar as despesas do tesouro do meu califado. Porém - continuou o rei- só poderei te nomear meu Grão Vizir depois que responderes duas perguntas.

   _Ò nobre soberano- respondeu Mosab - só direi a verdade sejam quais forem as conseqüências.

   _Bem, Então esta é a primeira: Tens amigos entre a população de Damasco?

   _Sim. Tenho bons amigos em toda a parte, entre sábios e ignorantes, ricos e pobres. Tanto na mesquita como no mercado estou sempre rodeado de amigos.

  _ Muito bem. Então passo à segunda: Tens inimigos entre os muçulmanos de Damasco?

_Não. - Respondeu ainda com sinceridade Mosab - Sempre só contei com muita afeição. Estou certo que durante toda a minha vida não fiz um só inimigo.

  _ Então- declarou o califa- sinto muito, mas não poderei te nomear meu primeiro ministro.

O bom professor abaixou a cabeça arrasada por aquele desfecho não esperado, mas o califa tornou a explicar-se: _ Observe bem: Sou um rei generoso, mas tenho inimigos dentro e fora de minhas terras O grande profeta Maomé, um enviado divino, teve inimigos cruéis que tentaram por todo jeito vencê-lo até matá-lo. E Alá, o misericordioso, também tem inimigos. Quem são afinal os hereges que tentam desacreditar Seu nome, senão seus inimigos?

   Seria um absurdo que meu primeiro ministro fosse um homem tão fraco, sem expressão, que não conseguisse contar com um só inimigo. Mosab, todos os homens de personalidade forte têm inimigos.

   Quando, porém, olhou para Mosab, o rei se comoveu com o seu desaponto e disse;

_ Vou te dar uma oportunidade, Se dentro de 24 horas tiveres arranjado 7 inimigos em nossa cidade serás meu primeiro ministro. Vá que eu te esperarei aqui amanhã após a terceira prece do dia.

   Ao sair do palácio, Mosab passou por um homem vendendo água, pensou então em agredi-lo derrubando a água, o tornando o seu primeiro inimigo. Mas depois refletiu. Não teria coragem de agredir um miserável aguadeiro. Era muita covardia. Talvez fosse melhor procurar o xeique Ismael e lhe contasse sobre as infidelidades de sua esposa. Os 4 irmãos dela ficariam furiosos e ele assim já arrumaria 4 inimigos. Porém o repugnava fazer intrigas.Desistiu. Melhor então era procurar poetas que tinham fama de talentosos e dizer perante várias pessoas que os versos deles eram horríveis. Mas, a poesia sempre lhe fizera tão bem! Com poderia arranjar inimigos incomodando homens que só viviam para as coisas delicadas das artes. Impossível.

   Quando chegou em casa sua aparência assustou sua esposa Takla.

_O que foi que o califa te disse que te perturbou tanto?- perguntou-.

_ Exigiu-me arrumar em 24 horas 7 inimigos em troca de um cargo de Vizir. Mas como arrumá-los entre estas pessoas de Damasco tão solidárias com a nossa pobreza?

_Ora –respondeu Takla- só isto? È muito fácil arrumá-los. Deixa que eu trate disso.

_ Por favor, Takla, não quero que consigas inimigos agredindo nenhum de nossos prezados visinhos.

 _ Não o farei -disse ela muito animada- Senta-te ai sobre esta almofada bem tranquilo, fica lendo tópicos do Livro Sagrado, e te garanto que nem terás terminado todas suas Sutras e eu já terei arranjado teus inimigos e o rei amanhã te fará primeiro ministro.

   Takla saiu, mas Mosab nem conseguia fixar-se no Alcorão. Pensava em tudo que poderia perder: Via-se ao lado do rei recebendo homenagens de nobres maometanos. Iria com certeza morar num palácio com fontes e jardins, onde receberia seus amigos poetas. Sua filha naturalmente se casaria com um nobre dono de milhares de tamareiras  e afinal tudo estava perdido. Não acreditava que Takla fosse capaz também de fazer inimigos. Mas, dali a umas horas ela aparecia radiante.

   _Meu marido – disse – já está tudo arrumado. Era de sete inimigos que precisavas? Pois te garanto que já arrumei mais de setecentos.

 _ Por Alá, Takla, o que fizestes? Quantas pessoas agredistes?

 _ Nenhuma. Apenas chamei algumas de minhas conhecidas para uma reunião e nela declarei, como se já fosse um caso já consumado, que o califa tinha te escolhido para seres seu primeiro ministro. A surpresa foi tão grande que tive até que jurar pelas barbas do profeta Maomé. Surpreendi alguns cochichos assim: Este rei deve estar doido de contratar uma capenga para ministro! Quando declarei que era amiga da sua favorita, notei já algumas expressões de inveja e logo ouvi sussurros onde alguém dizia: Este rei realmente nunca soube escolher os seus auxiliares!

  _ Mas Takla – argumentou Mosab – Como é que apenas com comentários maldosos de algumas mulheres vais me trazer tantos inimigos?

 _ Ai é que te enganas. Elas contarão a notícia há pelo menos vinte pessoas, estas a mais vinte e assim progressivamente a estas horas mais de cinco mil homens de Damasco já estão a par da notícia e o ódio que vem da inveja vai estar no coração dos mais ambiciosos.

   No dia seguinte Mosab foi a presença do rei para contar-lhe o estratagema de Takla.

   _Agora compreendo-disse o califa- porque hoje na audiência da manhã vários secretários fizeram tantas referências nada elogiosas a ti. Chegaram a contar-me que tu te disfarças num pobre professor capenga, quando na verdade és um espião com cúmplices no Egito, aos quais prometestes revelar segredos de nosso Estado. Outro disse-me que te surpreendeu preparando com teus estudos de Astrologia, sortilégios para matar toda a minha família real. Já vês que todos estes teus inimigos foram inspirados pela inveja surgida em apenas 24 horas, graças ao estratagema de tua esposa. Amanhã, sim, Mosab, assumirás o cargo de meu Grão Vizir. Mas te dou um conselho: Quando tiveres qualquer dúvida na condução do meu califado, consulta Takla.  Não há nada mais precioso do que se ter uma esposa com tanta perspicácia quanto aos sentimentos humanos.

- Extraído de “Novas Lendas Orientais“ de Malba Tahan.


O Amor Venceu a Morte

 

O Amor que Venceu a Morte - Um Conto Indiano

Na Índia antiga havia uma princesa, filha de um rei, chamado Savitri. Quando ela chegou à idade de casar-se, seu pai, como era de costume, mandou que ela escolhesse um marido. A carruagem real, acompanhada de uma magnífica escolta, foi pelas estradas para Savitri visitar as cortes vizinhas.  Porém, em nenhum dos reinos ela encontrou um príncipe que lhe agradasse.

      Aconteceu que a comitiva passou por um bosque. Ali, sábios místicos e homens desgostosos com o mundo, se refugiavam,entregando-se a meditações e exercícios espirituais. Ali morava também um velho rei cego que fora destronado e fugira para aquela ermida com a família. Tinha um único filho de nome Satyavam.

Iama, deus hindu da morte

       No país, era hábito que qualquer pessoa que passasse perto de um bosque – ermida onde vivessem sábios parasse para lhes render homenagens, tal era o respeito que até os nobres tinham aos nobres. Assim, a caravana de Savitri, parou , entrou no bosque, ela viu o filho do rei cego destronado e se apaixonou por ele.

      O voltar á sua corte, o pai perguntou-lhe se encontrara algum príncipe digno dela. Ela disse que sim, mas que ele não era mais príncipe porque o pai dele fora destronado e morava numa cabana num bosque.

     O rei chamou então o adivinho famoso, Narada, para fazer uma previsão para aquele possível casamento. Narada disse que a escolha dela fora muito funesta, pois aquele jovem Satyavam dali a um ano morreria. O rei tentou dissuadir Savitri de casar com alguém que além de pobre, tinha vida tão curta, mas Savitri respondeu que o seu amor era tão grande que venceria a própria morte.

 Casaram-se e Savitri foi viver na cabana do bosque, só ela sabendo o dia que Satyavam morreria. Os três dias que antecederam a data fatal, ela passou em jejuns e orações, escondendo a sua angústia. Ao amanhecer do dia marcado, não querendo nem por um instante deixar seu amado sozinho, ela foi com ele para o campo colher raízes e frutos. Quando estavam lá, Satyavam queixou-se que sentia o se corpo enfraquecer-se, as suas forças se esvaírem. Pediu que se sentassem ao chão, pôs a cabeça no colo dela e em poucos instantes, morreu.

    Abraçada ao corpo dele, ela ficou ali esperando que os emissários do deus da morte Iama chegassem para levar a sua alma. Ao chegarem, nenhum dos emissários, porém, conseguiu acercar-se do local onde os dois amantes estavam. Em roda do lugar onde ela se sentara com ele ao colo, ardia um círculo de fogo que ninguém podia passar.Era como um anel de ouro que isolava os dois.

    Os emissários da morte voltaram ao deus Iama da morte e lhe explicaram que era impossível tocar na alma daquele jovem porque para passar o círculo de fogo se queimariam. O deus foi então pessoalmente ao bosque e como era um deus pode atravessar o círculo e falar com Savitre.

     _ Filha, entrega-me esta alma. Sabes bem que a morte é apenas uma etapa no caminho dos mortais.

     Savitri entregou-lhe a alma de Satyavam, mas quando o deus tinha dado apenas alguns passos, ouviu atrás de si sobre as folhas secas, os passos de Savitri.

   _ Filha -disse o senhor da morte- porque me segues? Não sabes que a morte é o destino dos homens?

   _ Sei –respondeu ela- mas sei também que o destino da mulher é ir aonde o seu amor a leva.

     O deus da morte disse-lhe então: _ Pede-me qualquer graça, menos a vida do teu marido.

    _ Então, por favor -pediu Savitri- devolvas a vista do meu sogro que ele não seja mais cego.

     _ Neste momento teu pedido foi atendido, teu sogro está curado.

Narada, o mais famoso adivinho da Índia! 

    E, o deus da morte da morte foi embora com a alma de Satyavam, mas novamente ouviu passos e viu que Savitri ainda o seguia.

    _ Por favor, Savitri, ainda me segues?

    _ Eu nada posso fazer-disse ela- Embora eu me esforce para voltar para trás, para a minha Ca a minha mente corre atrás de meu marido e o meu corpo obedece a minha mente. Tu estás com a alma de. Tu estás com a alma de Satyavam e como a alma dele  é um complemento da minha, aonde a dele vai, a minha vai também.

   _ Savitri, A tua dor é uma dor sem esperança. Dou-te outra graça, menos a alma de Satyavam.

   _ Bem –pediu Savitri- se queres mesmo me dar outra graça, faz com que o meu sogro recupere o seu reino que perdeu, com todas as suas as suas riquezas.

   _ Tudo agora já está te concedido.  Agora volta filha, pois nenhum ser vivente, jovem como tu, deve andar ao lado do deus da morte.

     Como, porém Savitri persistiu em acompanhá-lo, ele lhe perguntou:_ Supõe Savitri, que o teu marido tivesse muitos pecados a resgatar e que eu o estivesse levando para o inferno. Gostarias assim mesmo de  segui-lo?

_ EU o seguiria alegre -respondeu ela- pois o céu é um inferno para mim sem Satyavam e o inferno é um céu para mim ao lado dele.

    _ Tuas palavras me comovem Savitri, mas pela última vez, vai embora porque não te darei a alma de teu marido.

    Porém o deus olhou-a com piedade e lhe disse:_ Sem me pedires a alma dele, pede-me outra qualquer graça que eu te atenderei.

    _ Bem, se me permites desejar, quero ver preservado o reino que acabastes de dar novamente ao meu sogro, que a sua nobre dinastia tenha continuidade.

     O deus da morte sorriu da sua artimanha feminina, pois ela sabia que sendo Satyavam filho único, só através de seus filhos o reino do velho rei poderia ser preservado e afinal ele, o deus da morte, lhe prometera “qualquer coisa” Compreendeu que desde o primeiro pedido ela quisera chegar a isto.

     _ Ó filha –disse vencido- Toma a alma de teu marido, leva-a contigo. Ele voltará a viver e será o pai de teus filhos e com o tempo herdarão o reino de teu sogro. Pela primeira vez vi um amor triunfar sobre a morte! Nunca vi uma mulher amar tanto! Savitri, nem mesmo eu o senhor da morte, nada posso fazer contra a força de um amor tão imenso!

    O deus da morte afastou-se e no colo de Savitri o rapaz começa a ressuscitar.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Livro de Janeiro

Símbolos e crenças como uma expressão do homem
no entendimento de sua realidade e da criação!

Valor: R$ 30,00 cada
Informações e vendas pelo e-mail: helyetterossi@gmail.com 

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Livros de Setembro

Os dois livros mais procurados neste último mês entre os meus editados são:


Sobre as diversas categorias dos mitos.
Romance sobre a Espanha do séc. XV e
as perseguições a árabes, judeus e ciganos.

Valor: R$ 30,00 cada
Informações e vendas pelo e-mail: helyetterossi@gmail.com