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segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

O Mito do Girassol

Clítia, a ninfa que deu origem ao Girassol.

   Clítia era uma ninfa do bosque. Era apaixonada por Apolo, o deus do sol. Todas as manhãs Apolo surgia num carro puxado por cavalos, emitindo um fogo dourado para todos os lados. Clítia então ia para um penhasco para admirar, fascinada, a chegada de seu amado. Ele surgia no leste e ela ficava ali o dia todo virando sua cabeça, que acompanhava o seu movimento até que ao fim do dia Apolo desaparecia fazendo o seu ocaso no oeste.

   De tanto ficar ali, o corpo de Clítia foi assimilando a cor do sol, foi ficando dourado e seus pés e pernas acabaram por enraizarem-se no solo. Assim, então, Clítia transformou-se numa flor: o Girassol.

  Pela manhã, o Girassol abre-se à luz solar e vai girando, girando fechando-se aos poucos até fechar-se totalmente. Porém, na manhã seguinte lá estará o girassol novamente abrindo-se, tal como fazia Clítia deslumbrada ante a beleza do luminoso deus Apolo.


domingo, 30 de maio de 2021

Mitos Nórdicos

Asgard, o palácio dos deuses nórdicos.

 Os povos escandinavos como noruegueses, dinamarqueses, suecos, islandeses e finlandeses podem se gabar de terem uma mitologia de deuses tão amados como aqueles do panteão grego.

   Entre os inúmeros que possuem, reinam como soberanos e mais conhecidos: Odin, Thor e Freya.

   Odín é o grande chefe de Asgard, sua morada, que corresponde ao Olimpo de Zeus. De lá, ele faz uma vigia constante ao mundo dos homens, sendo considerado por estes como o Pai sagrado e supremo, que lhes proporciona curas e lhes designa e determina o momento da morte.

   Odin dá uma especial atenção aos heróis mortos em batalhas, esperando que venham ao seu encontro trazidos pelas Valquírias. Estas mulheres virgens e imortais, usando lanças e escudos, protegidas por armaduras, se encarregavam de levar tais guerreiros ao Valhala, o paraíso de Odin. Ali, lhes eram oferecidas danças sensuais e muito carinho feminino, como recompensa aos seus atos heroicos. Podemos encontrar os fatos destes heróis narrados nas sagas escandinavas.

   Para irem desde Asgard, a morada celeste, para o mundo dos homens, era necessário que os deuses atravessassem a Ponte Bifrost com suas escadas que são as belíssimas cores do Arco Iris, ligação entre céu e terra.

   Através de Bifrost, os deuses desciam para dar uma constante assistência aos mortais, segundo acreditavam os nórdicos. Os deuses costumavam vir regar a grande árvore plantada por Odin e junto a ela faziam seus planejamentos para o destino da humanidade. A imensa árvore é conhecida como a Iggdrasil. Ela tem as suas raízes em profundezas que imergem em rios e poços de água. Assim aguada, é a generosa alimentadora de todos os seres vivos e de toda a natureza terrestre. Sempre permanece viçosa, pois suas galhadas jamais envelhecem.

   Thor é o poderoso filho de Odin. Com seu machado ameaçador defende os deuses contra os Ogros, seres gigantescos e maléficos, enquanto protegem os Elfos, seres benéficos, um tipo de elementais, amigos dos homens.

   É Thor o deus de um dos mais fortes fenômenos celestes: O trovão. Muito previdente, nos anuncia momentos de tormentas e chuvas torrenciais.

Odin, o deus supremo do panteão nórdico.

   Freya que é a deusa nórdica do amor e da beleza, poderíamos compara-la à Afrodite dos gregos. Como deusa do amor protege os apaixonados, e os antigos escandinavos costumavam se agrupar para cantar canções de amor em sua homenagem. Em seus cultos lhe pediam que bem acolhesse as esposas fieis no seu pós morte. Pediam-lhe ainda para as viúvas uma especial graça: Que encontrassem também, nesta ocasião, seus falecidos e amados maridos.

   A própria energia dos deuses lhes advinha de um tipo de bebida que costumavam tomar: Uma espécie de leite que lhes fornecia a cabra de Odin, de nome Heidrum.

   À semelhança dos deuses tinham também os seus Oráculos. : As Runas. Na verdade, estas foram o seu primeiro alfabeto, mas ao mesmo tempo servia de um meio de se comunicarem com o transcendente, com o espiritual. Os Vikings as escreviam em ossos e costumavam usa-las como amuletos benfazejos.

   Quanto a sua escatologia, contavam temerosamente com um fim de mundo tais como algumas religiões atuais aguardam. Sendo que um dos males que ocasionariam tal fim viria de uma serpente mítica, muito temida, que se acreditava estar postada na profundeza de um poço d’agua, junto à árvore Iggdrasil. Esta roía constantemente a sua raiz, enfraquecendo pouco a pouco a vitalidade do mundo dos homens.

   Previam, entretanto, uma batalha entre o bem e o mal que chamavam de Ragnarok. Odin, seus filhos e mensageiros se preparavam militarmente para este grande confronto final, certos de sua vitória.

   A mitologia nórdica contou com grandes escritores que narraram lindas sagas e estórias. O mais conhecido em nosso meio é o dinamarquês Hans Cristian Anderson, especialista em literatura infantil. São célebres seus contos de fadas e pouco de nós, adultos, desconhecem “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo” que nos entretiveram encantados em nossa infância.

   Conhecer os mitos escandinavos é algo realmente imperdível.

domingo, 7 de março de 2021

Mitos Femininos - Para o Dia Internacional da Mulher


   Penélope

Dois seres esperaram com fidelidade Ulisses durante vinte anos voltar de sua “Odisseia”. Seu cão Argos que já velho ia adiando a sua própria morte apenas porque desejava rever seu dono e Penélope ,sua esposa.

   Estava casada com o grego Ulisses, rei da ilha de Ítaca, quando Ulisses foi chamado a guerrear na longínqua Troia. O tempo ia decorrendo e as notícias de que o guerreiro ainda vivesse eram cada vez mais raras e o certo mesmo era que jamais regressasse.

   Muitos príncipes das ilhas vizinhas e até nobres de Ìtaca cobiçavam o seu reino e naturalmente a sua bela rainha. Pretendentes eram então inúmeros e Penélope, fiel, urdiu um estratagema para afasta-los. Mostrava-lhes um enorme dossel que tecia . Dizia ser a mortalha que preparava para quando viesses a morrer seu sogro. Comprometia-se a decidir com qual pretendente ficaria quando a mortalha estivesse pronta. Contudo, à noite, desfazia os fios que tecera de dia, assim adiando indefinidamente o seu término.

   Sem um homem forte a governar Ìtaca, seus candidatos nobres iam se instalando por todos os recantos da ilha humilhando o menino Telêmaco, filho de Ulisses e Penélope. Para livrar-se de tudo só a desistência de esperar Ulisses resolveria, mas ela preferia espera-lo fielmente.

  Quando seus pretendentes não aceitaram mais seu ardil de protelação, pressionada a resolver-se, Penélope lhes propôs então uma difícil prova de habilidade: Concorreriam no salão do palácio , num jogo onde usariam o arco de Ulisses ,quando ela bem sabia ser o único com destreza suficiente para maneja-lo.

   A sorte sorriu por fim à Penélope . Justamente neste dia Ulisses, após vinte anos, chegava de volta a seu reino. Disfarçado em mendigo , a bem de surpreender os que assediavam sua esposa, já se dera apenas a conhecer a seu filho e a seu cão Argos.   Enquanto um a um dos nobres iam sendo eliminados na prova, em seu disfarce maltrapilho, Ulisses entrou na sala e ofereceu-se a concorrer.

 Foi então muitíssimo debochado. Mostrando a sua habilidade com seu arco, ele vence e mata cada um de seus oponentes.

   A doce e fiel Penélope recupera o amor de Ulisses e sente-se plenamente recompensada de sua longa espera.

Lilith

Alguns mitólogos a têm como a primeira feminista da História. Esta figura sumério-acadiana ignorada pela Bíblia e pela maioria dos cristãos, é citada no “Livro dos Esplendores” da cabalística judaica e também em textos apócrifos , não aceitos pelas escrituras sagradas cristãs.

   Teria sido a primeira mulher de Adão que se negou a lhe ser submissa uma vez que havia sido gerada com o mesmo pó que ele e não como a segunda mulher , Eva, que, pela tradição bíblica, saíra de uma de suas costelas

   Em seu livro “Lilith” o psicanalista  junguiano Roberto Sicuteri nos chama a atenção para um trecho do Zohar onde é dito que “ Deus os criou macho e fêmea.” Trecho que leva a ideia de que o ser humano (Adão) teria sido criado  andrógino ,levando em si duas naturezas.

   Diz o mito, que Lilith ao rebelar-se  contra Adão, foi abrigar-se  longe dele , na região do Mar Vermelho. Tal mito nos fala talvez de um momento  em que as duas naturezas do homem teriam sido separadas em dois seres. Só depois então teria surgido a criação de Eva. Que não lhe sendo igual , obedeceu  à supremacia do companheiro.

   Lilith foi depois então transformada num ser satânico , demoníaco, cuja figura  é representada com patas  e escamas , características animalescas , símbolos de seus desejos sexuais, negados por uma cultura de valores agressivamente patriarcais.

   Lilith é chamada hoje pela linha astrológica de “lua negra” representando o lado oculto de um ser que guarda pensamentos e desejos reprimidos  que não podem ser expostos.

   Lilith será sempre o mito da reação feminina não conformista ,da mulher quando ela se sente reprimida para cumprir o destino que lhe cabe. O conflito enfim ,com uma força dominante masculina . Um demônio criado pelo patriarcado.

Pitonisas e Sibilas

  Ouvir profecias foi um hábito constante dos povos etruscos, romanos e gregos. Os centros proféticos se multiplicavam em suas localidades. Porém, o mais famoso foi, sem dúvida, o de Delfos, dedicado a Apolo. Situado no monte Parnaso, num magnífico cenário natural donde se descortinava boa parte da Grécia. Para lá ocorriam pessoas de muitos países para consultas, homenagens e oferendas ao deus.

 Neste templo, Apolo ,deus dos sol ,se revelava aos mortais através de suas profecias. Passado o inverno , quando o sol retornava à Grécia, o mito nos diz que Apolo voltava de seu paraíso hiperbóreo e ia para Delfos onde o esperavam as suas Pitonisas.

  O nome destas sacerdotisas provinha da serpente Pyton. Esta, após o grande dilúvio que devastara a Grécia ao primeiro raio de sol enviado por Apolo para secar o solo , havia aparecido das profundezas da terra. Alguns vêm nesta serpente a potência do mal que surgida das entranhas da terra, foi morta pela luz de Apolo. Já para outros, ela corresponde ao símbolo da sabedoria que após um grande impacto que destruiu tudo o que era negativo, encontrava-se com a luz sagrada de Apolo.

    Como as pitonisas são encarregadas de trazer a sabedoria do deus, é possível que a serpente Pyton represente a segunda interpretação.

    Elas entravam no templo situado em enorme caverna e iam mascar folhas de louro, sentadas sobre um tamborete de três pernas. Este, colocado exatamente sobre uma fenda de onde vinham vapores causadores de tonteiras, as capacitavam ao transe. Momento sublime - segundo acreditavam - quando Apolo lhes falava. Muitas delas influenciaram positivamente o desenvolvimento das cidades gregas dando informações que auxiliavam em guerras e colonizações.

   Além das pitonisas, contava-se para oráculos ainda com as Sibilas. Eram consideradas as mais capazes . A que melhor sobressaiu-se foi a de Cumes, local na Itália aonde havia uma gruta – santuário de Apolo. Esta Sibila notabilizou-se por seus famosos livros que o mito afirma terem sido escritos sobre folhas. Neles teria predito os destinos de Roma .

   A capela Sistina nos apresenta, em magníficos afrescos de Michelangelo uma série de Sibilas.

   Eram privilegiadas pelo deus solar, mas ele se tornava implacável quando alguma delas se negava a ama-lo.

    Nem a Sibila de Cumes, tão famosa, subtraiu-se à ira de Apolo. Ele a queria tanto que prometeu dar-lhe tudo o que desejasse. A Sibila então pegou do solo um punhado de terra e lhe pediu tantos anos de vida quantos grãos estivessem em suas mãos. Quando ela recusou-se a ele , Apolo usou esta promessa para tentar convence-la , pois havia notado que ela se esquecera de pedir-lhe uma paralela juventude eterna. Então, deixou que ela envelhecesse. Os anos de sua vida permaneceram por séculos incontáveis, mas seu corpo degenerou sempre. Em uma angustia terrível, a Sibila de Cumes , também retratada naquela Capela pelo grande artista, se arrepende de querer viver tanto e ter se recusado a Apolo.

Antígona

    O grande amor de Antígona por seu pai a torna uma figura marcante inserida na grande tragédia grega “Édipo ,o Rei”.

     Quando Édipo descobre que o antigo rei Laio, brutalmente morto numa estrada , era seu pai e que ele próprio o havia assassinado; que sua mãe era Jocasta, mulher por quem se apaixonara e já lhe dera filhos, num gesto de desespero , furou seus próprio olhos para castigar-se. Humilhado pelo seu parricídio e incesto, foi banido impiedosamente de seu reino e de sua cidade .

   Com a perda de sua mãe e amante ,só o amor de sua filha Antígona será seu consolo e a luz, cego como estava, a guia-lo pelas longas estradas da Grécia, a errar em busca de um lugar distante aonde esquecer os seus remorsos.

   Antígona é verdadeiramente o mito do amor filial mas também do amor a irmãos. Outra tragédia a envolverá causando-lhe a morte.

   Vago o trono de Tebas, o antigo reino de Édipo, três pessoas o ambicionavam: Creonte, seu tio, e seus dois irmãos, Etéocle e Polinice.

    Quando Etéocle rivalizando com seu irmão pelo poder, o matou, Antígona desejou sepultar dignamente Polinice. Creonte , para a humilha-la, decreta enterra-la viva se o fizesse. Antígona prefere afronta-lo. Dá sepultamento a seu irmão e depois se mata para fugir a sua condenação .

Símbolo do amor fraterno e filial Antígona é a eterna personagem de dramas teatrais gregos.

Pandora

Quando o titã Prometeu criou o primeiro homem com o barro da terra , amassou-o e esculturou-o com as suas lágrimas. Assim o homem é : Instinto corporal e emoção. Porém, Prometeu achou-o incompleto e sonhou dar-lhe um complemento. Tratou então com os deuses para que estes, no Olimpo, criassem a mulher.

   Muito foram os deuses que cooperaram para a sua feitura. Minerva , a deusa da sabedoria ,deu-lhe a curiosidade para que ela questionando tudo a pudesse alcançar e deu-lhe intuições, caminhos que a levariam a acha-la. Vênus lhe deu uma beleza sedutora e Mercúrio o poder de argumentar, de persuadir. Talentos estes últimos que convenceriam o homem a aceita-la.

   Aqui os gregos privilegiaram a mulher ,pois enquanto os homens foram criados na terra, a mulher o foi no céu do Olimpo.  Deram-lhe o nome de Pandora. Pandora vivia na Idade de Ouro (também como Eva num paraíso). Zeus enviou-lhe de presente um baú lacrado com esta advertência : “Deixa-o fechado”. Palavras tentadoras para alguém tão curioso. Sucumbindo a tentação, Pandora abriu-o. Ele continha os bens do mundo que assim escaparam.

   Com estes soltos, os homens perderam seu paraíso, regrediram,  entrando em sofrimentos para separar os bens dos males. A Idade de Ouro  findou-se.

 Este mito da curiosidade feminina completa-se com este detalhe: Quando Pandora viu os bens escapando do baú quis rapidamente fecha-lo. Porém, conseguiu guardar apenas um deles: A Esperança.

Mesmo quando todos os bens nos escapam – assim pensavam os gregos – sempre uma esperança nos restará. É o único bem que capaz de se renovar incólume em  nós,  é ela que nos impulsiona a seguir adiante.


sábado, 14 de novembro de 2020

A Lenda da Flor de Lótus

Uma lenda budista nos diz que quando o Buda Sidarta se iluminou os seus primeiros sete passos marcaram o loca em que depois nasceram sete flores e lótus.

   A lenda do lótus nos fala dos quatro elementos conversando: Terra, a água, o ar e o fogo. Eles resolveram então criar uma planta composta da energia de cada um deles e que combinadas harmoniosamente, apesar de serem diferentes, servisse de exemplo e modelo ao homem para que visse nela que a diversidade ,quando unida, pode atingir a beleza.

   A raiz da planta estava no fundo de um lago. Disse a Terra: Eu porei a força das minhas entranhas para alimentar uma raiz. Disse a Água: Eu farei crescer nela uma haste de sustentação, que me percorrerá. Disse o Ar: Eu a vitalizarei pondo nelas folhas que se estenderão pelo ar, movidas pelas minhas melhores brisas. Disse então o fogo: Eu lhe darei o meu calor e farei desabrochar nelas a mais bela flor existente.

Assim nasceu o Lotus, símbolo do Absoluto que é composto por varias diversidades, que é beleza total. Representa na Natureza todas as consciências e caminhos percorridos.


domingo, 4 de agosto de 2019

A Metamorfose das Espécies nos Três Reinos


  As visões espiritualistas de linhas orientais nos apresentam uma evolução que passa pelos reinos mineral, vegetal e animal antes de atingirem a forma humana. Assim, também pensam linhas como os maçons, os rosacrucianos, os martinistas e outros.
  Tal crença é milenar e podemos encontra-la na Antiguidade de vários povos. Em inúmeros museus, um imaginário de seres que atestam este pensar, enriquecem suas coleções não deixando que o percamos. Também tapeceiros, ceramistas, pintores contribuem para nos expor metamorfoses. Fabulosos seres em transições formais são inúmeros e aqui tentarei apresentar alguns.

Centauro atirando a sua flecha.
O CENTAURO - Metade homem, metade cavalo, é encontrado nos mitos gregos. Conta-nos Homero que tais seres híbridos usavam um discernimento e um raciocínio já humano, mas entravam numa violência agressiva quando estavam embriagados. A bebida afetava-lhes a consciência e sua parte animalesca, seus instintos prevaleciam. O mito grego nos fala num centauro, o Quiron, cuja evolução já estava tão próxima à humana que ele tornou-se o companheiro constante do herói Aquiles, chegando a lhe ser um verdadeiro mestre.
 Tal mito nos diz que ao morrer Quiron, Zeus, o senhor do Olimpo, o transformou, por seus esforços, na linda constelação de Centauro, que inspira o homem para o bem quando este a encara. No zodíaco, o centauro é o signo de sagitário, mantendo sua forma híbrida e carregando uma flecha direcionada ao céu. Segundo os estudos astrológicos, quem nasce sob a sua influência, além da praticidade terrena, possui também uma busca por transcendência, uma ânsia de ascender sempre.

O pássaro/alma "Bo" sobre um morto.
O "BA" EGÍPCIO - Deste pássaro minúsculo com face humana, encontraremos sua figura nas ruínas dos templos egípcios, em pinturas murais e junto às cenas de embalsamentos. Para um egípcio antigo o pássaro BA representava a alma do homem que na hora da morte fazia uma metamorfose neste pássaro, porque, segundo suas crenças, ao morrermos, atingíamos uma libertação. Nos libertaríamos de preconceitos e apegos que nos prendem. Ao término de uma vida atingiríamos enfim, a liberdade de um ser alado.

Tritão assoprando sua concha.
TRITÃO – Um fabuloso híbrido, metade homem, metade peixe. No mito grego era filho de Netuno, o deus do mar. Quando colocamos um caramujo nos ouvidos e ouvimos um ruído, um zumbido contatamos uma marca deixada nele por Tritão. Segundo o mito, Tritão soprava dentro dos caramujos, emitindo um som que alertava os marinheiros de obstáculos, de perigosos rochedos que estivessem próximos a eles. Principalmente isto acontecia no mar Egeu e no Mediterrâneo. Entre as criaturas das fábulas marinhas Tritão é o protetor por excelência.

Sereia atraindo navegantes.
AS SEREIAS - Também as sereias são seres imaginários que povoam os mares. Mulheres peixes da cintura abaixo. Formam uma dualidade de frigidez e fascinação. Sentem desejos de atrair homens para um acasalamento. Porém, não conseguem tal intento, pois não contam com órgãos genitais femininos e são da cintura abaixo frigidas como o são os peixes. Contudo, são imensamente sedutoras. Seu recurso de atração é o canto. Cantam muito sobre os rochedos para atrair homens.
Lembremos que na epopeia homérica da Odisseia, Ulisses precisou amarrar-se ao mastro de seu barco para fugir a atração enganosa do canto das sereias. Estas, ele o sabia bem, não lhe dariam prazeres sensuais e apenas o afundariam no oceano.
  O folclore brasileiro conta também com uma sereia, Iara, que vive nos rios amazônicos. É perversa. Atrai os incautos homens e depois os afoga no rio. Diz o mito que o homem que escuta Iara enlouquece. Seus familiares costumam então afasta-los das cachoeiras, riachos e fontes, pois o homem obcecado por Iara a procura em todos estes lugares.
O único odor capaz de afastar Iara é o do alho. Então, ainda hoje, o homem crédulo da Amazônia que necessita anoitecer na pesca, esfrega alho no corpo para evitar sua sedução.
 O culto Afro nos legou a crença em Iemanjá, porém não existe nela a perversidade de Iara. Também metade mulher, metade peixe, ela, vaidosa, só requer de seus adoradores adereços, colônias cheirosas, espelhos e pentes que são atirados então no mar em seu dia.
No sincretismo com Nossa Senhora das Candeias ela é a bondosa Mãe D’água possuidora de grande instinto materno que protege os pescadores dos perigos do mar. Estes, gratos a reverenciam com a Saudação afro: “Ado Iya”.

A mítica imagem do lobisomen.
O LOBISOMEM - Numa inversão ao processo evolutivo do animal para o homem, temos o mito do lobisomem. Nele, o homem se transforma em lobo. O grego antigo acreditava tanto nesta metamorfose que passou a estudar uma doença mental que intitulou de Licantropia. Esta levava o homem à profunda depressão e isolamento até sua transformação em um lobo.
  No norte e nordeste do nosso país, esta crença é ainda mantida. Nela, é dito que o sétimo filho de um mesmo sexo nascido de um casal, tem a tendência de tornar-se um lobisomem. Ainda mais: diz ela que a lua cheia auxilia este tipo de metamorfose.

Bacanal com a presença de um sátiro.
SÁTIROS - Metade homem, metade bode. Tais híbridos influenciam os comportamentos sexuais animalescos nos seres humanos. Faziam-se presentes nos bacanais gregos e romanos do deus Baco. Provocavam nas mulheres do cortejo de Baco, as bacantes, instintos sensuais muito primitivos. Apareciam esses híbridos também nos Sabats medievais com a conotação de seduzir mulheres. Nos processos contra bruxarias, inúmeras mulheres, acusadas de manterem relações com estes seres caprinos, foram queimadas em fogueiras.

A ORIGEM DO POVO HELENÍSTICO - O melhor exemplo da metamorfose de um ser vindo de um minério para o ser humano, nós encontramos na formação deste povo grego. Conta-se que o único casal que sobreviveu ao dilúvio grego, Decalião e Pirra, sozinhos e desesperados, pediram à deusa Diana que lhes desse uma nova humanidade para ajuda-los. A deusa então lhes disse que pegassem os ossos de sua mãe e tirassem por trás de seus ombros. Porem, a única mãe que agora possuíam era a Mãe Terra. Compreenderam então que seus ossos eram as suas pedras. Passaram a pega-las e as lançavam. Então, a umidade das águas do dilúvio criou sobre elas musgos que logo se tornavam em carne. Também, no céu apareceu o deus solar Apolo, que com os seus raios iluminadores deram aqueles novos seres, em transformação, a consciência iluminada dos homens. Assim foi como Decalião e Pirra viram surgir diante deles a civilização muito sábia dos Helenistas.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

O Rigorismo das Deusas

Não é sem razão que a Cabala em sua árvore da vida coloca a essência feminina no lado do rigor e a vê como a força guardiã da moralidade e do comportamento. Também os gregos mitológicos representavam a vingança na figura da deusa Nêmesis.

   Foi Nêmesis que vingou-se do deus mais lindo da Mitologia, Narciso, por este desprezar todas as mulheres que o amavam. Jurou que ele haveria de amar alguém a quem jamais pudesse possuir.
    Levou-o então a uma fonte cristalina para beber. Ali, ao abaixar-se, ele viu sua belíssima imagem refletida. De pronto, se apaixonou por ela, sem saber que enamorava-se de si mesmo. Desejando agarra-la, cada vez que se aproximava para pega-la, a imagem nas águas desaparecia. Ficou ali tentando e tentando possui-la, mas via seus esforços inúteis.  Tanto tempo tentou até ficar esgotado e acabou por morrer nas margens da fonte por amor a si mesmo.  Hoje lembramos esta vingança de Nêmesis, chamando de narcisista a alguém cujo único objeto de amor é ele próprio.
  
   Também Deméter era cruel em suas vinganças. Como senhora da fertilidade da terra que era, amava muito a natureza e exasperava-se quando alguém a desrespeitava.
   Aconteceu que Erisícton, um homem muito rico, cortou para fazer moveis luxuosos um magnífico carvalho do bosque da deusa. Sabemos que o carvalho para os povos pagãos era uma árvore sagrada, reverenciada como tendo poderes mágicos. Quando Erisícton o abateu com o seu machado, Deméter ouviu de longe os gemidos que a árvore dava. Resolveu puni-lo. Para ela, como a Mãe terra que era, que alimentava generosamente a todos, nada melhor para punir alguém do que deixa-lo morrer de fome. Assim, Erisícton passou a ter uma fome voraz. Vendeu tudo o que possuía para comprar alimento, pois nenhum o saciava. Empobrecido, passou a entrar nas cidades para roubar alimentos, mas tudo em vão. Quando as cidades passaram a persegui-lo por seus roubos, ele, desesperado de fome, sem que alimento algum o satisfizesse, olhou o seu próprio corpo de carne e morreu devorando-se.

   A Discórdia vingativa também era representada por uma deusa: Éris.
  Foi Éris que apenas por não ser convidada para um banquete onde compareceriam muitas deusas, como vingança, apareceu repentinamente meio à festa, trazendo em mãos uma maçã de ouro. Ofereceu-a àquela deusa que fosse escolhida a mais bela da festa. Tal maçã foi um autêntico “Pomo de Discórdia”, pois gerou logo uma rivalidade e competição acirrada entre as deusas, todas se achando a mais bela. Esta vingança, feita através de uma discórdia bem planejada, teve como resultado a dramática “Guerra de Troia”.

   Hera, contudo, foi a recordista em rigor. Vingava-se de quem ousasse se intrometer entre ela e seu amado esposo Zeus. Vingou-se de Eco, ninfa de bosque, que tentou esconder dela os namoros de Zeus. Eco, tão tagarela que era, sofreu de Hera o castigo de, para sempre, repetir as últimas palavras que alguém dissesse. Tão envergonhada ficou Eco, ante as outras ninfas, que foi se esconder numa caverna. Então, é sempre em frente a um muro ou locais fechados que ouviremos o repetir humilhado de Eco.
   Já com a sua bela rival Io, Hera foi profundamente impiedosa. Para esconder de Hera a sua amante Io, sempre que a esposa o via com ela, Zeus transformava Io numa bela novilha branca.  Desconfiada, Hera elogiou a beleza da novilha e a pediu de presente a Zeus. Sem poder como recusar-lhe o pedido , ele a deu à esposa .Uma vez na posse  dela, Hera a pôs sob a guarda de Argos ,um ser que tinha cem olhos para vigia-la .
    Incomodado por não poder ver mais a amante, Zeus mandou Hermes matá-lo. Sem o seu guardião de confiança, Heras, contudo, planejou um terrível castigo à rival.
  Conservou o corpo de vaca de Io e mandou cobri-lo com um enxame de insetos terríveis, e de moscardos, espécies de moscas que comiam até a madeira mais rija, para mordê-la o tempo todo. Desesperada pelas constantes mordidas, a vaca Io fugiu da Grécia, tentando se libertar de Hera, mas passou anos a correr por vários lugares e só após muitos anos, com o corpo completamente mutilado, chegou finalmente um dia ao Egito. Foi quando, lá na Grécia, com Io muito distante, Zeus jurou a esposa que já a havia esquecido, que Hera então resolveu transforma-la novamente na forma humana que um dia tivera e suspender o castigo terrível que lhe dera.
   Hera perseguia igualmente os filhos bastardos de seu marido. Bons exemplos disso são Hércules e Dionísio. No berço de Hércules bebê, Hera colocou duas cobras. Porém, prenunciando que seria o homem mais forte da Mitologia, Hércules bebê as estrangulou com seus braços. Mais tarde, quando já estava rapaz, Hera exigiu dele fazer doze tarefas altamente perigosas, na certeza de que ele não iria sobreviver à elas.
    Já com Dionísio ela o desterrou para a longínqua e então desconhecida Arábia, certa de que jamais voltaria à Grécia. Porém, tal como o acontecido com Hércules, este conseguiu também o melhor: Foi na Arábia que ele encontrou a raiz de uma planta desconhecida: A parreira. Provou da uva e criou o vinho, que o tornou famoso. Voltou à Grécia cheio de glórias.

   Athena (Minerva) também não foi isenta do rigor feminino. Athena era a melhor bordadeira do Olimpo. Tecia e bordava com perfeição. Porém, a jovem Aracne também era uma excelente bordadeira. Tinha, contudo, um defeito: A vaidade. Resolveu competir com Atená e propôs um certame para ver quem bordava melhor.
   Athena então disfarçou-se em uma velha e foi até a sua casa e advertiu-a de que aos deuses ninguém devia desafiar. Aracne não lhe deu ouvidos e, ao contrário, fez um enorme desenho onde criticava os erros dos deuses imortais. Isto irritou Athena. O certame veio e a deusa para humilha-la, rasgou em pedaços tal desenho na presença de todos. Tão envergonhada ficou Aracne, que subiu perto ao teto e tentou se enforcar.   
   Athena resolveu então conserva-la viva, mas para sempre pendurada as próprias teias que tecia. Transformou-a numa Aranha. Hoje continuamos vendo Aracne nas alturas, tecendo sem parar, incansavelmente, as teias que a mantêm presa.

  Diana, a virgem casta que desejava sempre ficar virgem, não fugiu ao grande rigor feminino das deusas. Puniu com crueldade Ácteon porque ele inadvertidamente a surpreendeu tomando banho nua numa lagoa.
   Imediatamente ela transformou seus braços e suas mãos em patas, sua cabeça numa galhada. Enfim, num Cervo. Ele um caçador que muitas vezes perseguia fêmeas de Cervos que estavam prenhes, (contrariando um respeito aos animais que Diana exigia), fugiu a correr.  Chegando, porém, de volta à sua própria matilha de cães, estes não o reconheceram. Embora Ácteon quisesse dizer em desespero; Eu sou Ácteon! Eu sou Ácteon! Sua voz humana não mais lhe saía. Seus cães o estraçalharam.
Assim Diana ficou duplamente vingada; Por ter visto o seu corpo nu e por desrespeitar as fêmeas prenhes.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

O Dilúvio Grego

Muito conhecida é a história do dilúvio judaico, quando Noé aporta a sua arca no cume do monte Ararat. Porém, pouco divulgada é aquela do dilúvio grego. Vamos então lembrá-la:
   Quando Prometeu, o grande herói civilizador ensinou aos homens o uso do fogo, tal como previra o deus Zeus, os homens se acharam tão poderosos que esqueceram os deuses, a sua parte espiritual. Passaram a fazer desmandos mais desmandos e corromperam a humanidade.
   Então, os três irmãos olímpicos Zeus, Netuno e Plutão, irritados resolveram unir-se para criar um cataclismo que acabasse com aquela humanidade propiciando a vinda de outra melhor. Zeus, o senhor dos céus, fez despejar das nuvens chuvas torrenciais, Netuno enfiou o seu tridente no fundo dos mares fazendo as águas crescerem e os rios transbordarem e Plutão já preparou seu reino dos mortos para receber as almas que ali chegariam.
   O dilúvio veio. Porém, lá aos pés do monte Parnaso, morava um casal muito devoto e amante dos deuses: Decalião e Pirra. Prometeu o eterno protetor dos homens, então, os ensinou a fazer uma barca. Com ela, eles navegaram nove dias e noites dentro das águas revoltas e foram parar nos altos do monte Parnaso. Ali, desesperados, pediram um oráculo à deusa Geia para saberem o que fariam com aquela terra devastada. Entravam assim num sistema oracular, muito usado na Grécia antiga, onde o consulente fazia uma pergunta que era respondida não claramente, mas com uma proposição a ser decifrada.

Decalião e Pirra atirando pedras sobre
os ombros, dando origem a nova humanidade.

   Geia lhes disse: Sem olharem para trás, atirem os ossos de sua mãe para além dos seus ombros. Muito tempo levaram para interpretá-la, pois nenhum osso de qualquer mãe havia mais.  Acabaram, porém, por compreender que a única mãe que possuíam agora era a Mãe Terra e que seus ossos eram as suas pedras.
   Pegaram pedrinhas e as atiraram para trás das suas costas e logo o limo que fora deixado pelo dilúvio envolveu as pedras tornando-se carne e transformaram-se em homens. Quando o casal virou-se ali viram uma nova humanidade que surgia.
  Contudo, das profundezas da terra, levantou-se uma serpente ameaçadora. Mas logo, lá do alto céu, o deus solar Apolo, que havia reaparecido, a matou flechando-a com os seus quentes raios. Tal serpente é interpretada pelos mitólogos como todos os nossos instintos inferiores que querem nos dominar quando queremos melhorar evoluir, mas que acabam sempre vencidos pela nossa parte espiritual, nossa luz solar interna.
   Na verdade, após o dilúvio grego surge a maravilhosa civilização helenística. Decalião teve um filho de nome Heleno que dará nome de Hélade àquela terra reconstruída e nomeará de Helenos a seus habitantes.
   Assim, temos na Grécia antiga uma incomparável civilização que se espalhou numa vasta área desde o Mediterrâneo à Ásia. Desenvolveu-se no início do reinado de Alexandre o Grande pelo século IV A.C. Este difundiu aquela cultura rica em todos os tipos de Arte, em Filosofia, e Ciência Astronômica.
Esta cultura Helenística, segundo a Mitologia, é um resultante da intermediação punitiva dos deuses imortais através do Dilúvio Grego. No entanto, foi uma das civilizações mais espetaculares que o mundo já conheceu!

domingo, 4 de novembro de 2018

Mitos Brasileiros

O imaginário popular com seus mitos é riquíssimo em nosso país. Aqui estão alguns deles:

Mula Sem Cabeça - O cristão convicto, rigoroso e ingênuo não poupou os sacerdotes que traiam o seu voto de castidade. Porem, segundo o pensamento católico, a mulher será sempre a grande sedutora, maior pecadora. Tornaram então suas amásias em Mulas sem Cabeça. Também chamadas de ”Burrinha do Padre”, em certa altura da vida, elas os abandonam e numa noite de quinta feira perdem a beleza de seu rosto transformando-se neste animal decapitado.


   Sua sina é correrem troteando desabaladamente, sem rumo, perdidas pelos campos. Sem a intenção de agredirem alguém, dão, porém, fortes coices a tudo que lhes passar pela frente. Só voltam a serem mulheres, caso os seus amantes sacerdotes as amaldiçoarem diante do altar, antes de iniciarem as suas missas. Não são poupadas nem depois da morte, pois suas almas tornam-se assombrações cuja presença muitos latidos contínuos de cães anunciam.

Bicho Papão e Tutú – Mitos que assustavam imprimiram antecipadamente terríveis medos nas mentes infantis. As mães de cinquenta a cem décadas atrás, sem o preparo psicológico para a educação de seus filhos como as atuais, costumavam embalar para o sono os seus bebês amorosamente no colo e caminhando incansavelmente de um lado a outro. Porém, os amedrontavam com canções deste teor: “Bicho Papão lá de cima do telhado, pega esta criança que não quer dormir calada”. Depois então, ingênuas, pediam o afastamento de outro ser imaginário, igualmente terrível, cantando ainda: “Tutu Marambaia não venha mais cá, que o pai do menino te manda matar”.
   Talvez pensassem depois, que só a segurança de um pai protetor daria um perfeito descanso, livraria suas crianças dos seres imaginários nos quais acreditava.

O Anhangá - Nossos índios também não foram isentos (com certeza ainda não o sejam) do temor a estes tipos de seres fantasmagóricos.
    Muitas tribos opunham Anhangá, ser mau que era, à bondade de Tupã, para muitos o deus do Brasil.
    Os primeiros Jesuítas aqui chegados falaram muito deste temor que os índios tinham a esta espécie de Duende que trazia maus agouros para quem tivesse a infelicidade de vê-lo.


   Anhangá, ser espiritual, é fantasma maligno que se encarna com a aparência de um grande veado que ataca caçadores principalmente nas noites de sexta feira. Todos os males das tribos eram atribuídos a este maligno ser e muitos locais na mata eram evitados por estarem “mal assombrados”. Conta-nos Câmara Cascudo, em seu belíssimo livro sobre a geografia dos nossos mitos, que existe ainda a crença de que um recém casado deve evitar adentrar este lugares, pois se caso encontre Anhangá, morrerá.
   O mito de Anhangá me faz recordar uma canção escolar que crianças cantavam no dia do índio.
   Dizia ela: “Oh! manhã de sol! Anhangá fugiu! Ah! Ah! foi você! Que me fez sonhar e me lembrar da minha terra!”.
   Seguia-se depois um apelo à Tupã que assim dizia:
 “Oh! Tupã, deus do Brasil, que o céu enche de sol, de estrelas, de luar e de esperança. Oh! Tupã tirai de mim esta saudade! Anhangá me fez sonhar com a terra que eu perdi!”

As Bruxas - Sua crença está em todos os recantos de nosso país. Porém, em Florianópolis com seus muitos descendentes das ilhas portuguesas dos Açores, que de lá trouxeram esta lenda, ela é muito forte.
   Contamos hoje com os magníficos escritos de Franklin Cascais que nos conta “causos e mais causos” atribuídos a bruxas e relatados por gente humilde e contadora de histórias.
   Geralmente trata-se de idosas que foram a sétima filha de partos de mães que deram a luz sete filhas mulheres uma após outra. São vistas voando em bando, desenrolando os fios de um novelo que determinará pela maior metragem do fio desenrolado quem será a chefe do bando.
   Mas trabalham também individualmente em toda parte da ilha principalmente em Cacupé, na Lagoa e em Santo Antônio de Lisboa.


   O temor de alguns ingênuos habitantes afirmam que com suas bruxarias chupam o sangue de criancinhas e lhes provocam diarreias até deixa-las em pele e osso: infernizam a vida de pescadores quando estão a tarrafarem, equilibrando-se sobre o balanço das ondas transvestidas em formas assustadoras.
   Em dias passados os cavalos foram as suas maiores vítimas. Faziam elas tranças em seus rabos com nós tão apertados que deixavam os pobres animais sangrando e as vezes os faziam voar depois com elas sobre o rancho de seus donos, exibindo a estes descaradamente, em deboche, aquele malefício. Para os seus donos havia apenas o recurso de leva-los nas noites de Sexta feira Santa para banharem-se no mar para afastar deles possíveis bruxedos.
   Acreditam ingênuos ilhéus que suas façanhas são conduzidas pelo “Capeta”, pois, já quando algumas bruxas nascem já lhes coloca como sinal um dente canino no céu da boca e as fazem sempre acompanhar por morcegos que dão voos rasantes e por corujas.
   O antídoto mais usado contra bruxarias é sem dúvida o cheiro do alho, por isso ainda usa-se nos ranchos mais humildes pendurar-se réstias de alho nas paredes.
  Franklin Cascais, porém, distingue bruxas de feiticeiras. Essas últimas são as famosas e benquistas benzedeiras, muito requisitadas, que também afastam desavenças familiares e resultados de “mal olhado”. Ainda hoje são muito procuradas em Ribeirão da Ilha e Monte Ratone. Costumam benzer uma casa endemoninhada com a queima de cascas de alho. Também a água recolhida numa fonte antes que o sol se ponha na Sexta Feira da Paixão, também é acreditada como um recurso espiritual muito eficaz contra estes tipos de maldades.
   Assim é, na forte ingenuidade das crenças catarinenses, o grande medo causado por estas imaginárias bruxas.

O Lobisomem - Seu mito percorre todas as regiões de nosso país com poucas variações entre eles. Segundo a tradição, origina-se de uma doença milenar de nome Licantropia. Conta-nos Câmara Cascudo, o grande mitólogo, que a Licantropia nos leva até um rei da Grécia antiga chamado Licaon que tentou matar Zeus lhe acabando com a imortalidade. Este então o castigou transformando-o, pondo nele a maldição de um lobo voraz.  Já a visão católica moderna atribui a origem do mito a castigos contra relações sexuais incestuosas.
   O mito nos diz que depois de sete filhos machos, o último deles poderá tornar-se um Lobisomem. Não havendo, pois, nenhum indício de que isto acontece à mulheres.
   Como homem, ele apresenta uma aparência de cor amarelada e tem no rosto uma palidez cadavérica. Como personalidade é geralmente melancólico, dado a esquivar-se à convivências, retraído e apático. Apresenta as vezes os joelhos e cotovelos esfolados, pois quando transformado, corre sobre eles numa imitação de patas.
   Transformado, é uma espécie de vampiro cuja voracidade por sangue o faz dar dentadas nas carótidas de suas vítimas. Essas são geralmente animais novos como porquinhos, novilhos, cabritos e as vezes até crianças recém nascidas.
   Sua transformação dá-se habitualmente nos primeiros minutos de uma sesta feira. É então quando procura um lugar que lhe dê estrumes de animais nos quais irá se deitar, buscando ali energias animais. Então, tirará a roupa dando sete nós nelas. Acontecendo tudo isto em noites de lua cheia, quando então uiva como um lobo.
   Tal maldição lhe durará até as duas da madrugada, hora em que voltará ao lugar em que se transformou. Tirando os nós das roupas, veste-as retornando à aparência humana. Se alguém desejar fazer-lhe mal, buscará suas roupas e tirará delas os nós, pondo-o para sempre na condição de um lobo voraz por sangue.  Estas histórias são contadas e acreditadas do norte ao sul do Brasil.

 O Boitatá - Esse mito refere-se ao desconhecimento do que produz o Fogo Fátuo, aquela espécie de emanação que surge luminosa, fruto da decomposição de corpos animais. Era já muito temido pelos Tupis-Guaranis no Séc. XVI, logo após nosso descobrimento. É cultuado especialmente no Sul onde é conhecido como Cobra de Fogo.



   Sua aparência é vista como uma espécie de Jiboia que emite clarões. Vive geralmente nos pântanos e muito nos cemitérios, devido as decomposições naturais ali acontecidas.
   Se alguém avistar o Boitatá, o mito aconselha a permanecer parado, não provoca-lo com uma corrida, pois a velocidade desta cobra sempre o vencerá para comê-lo, melhor dizendo comer-lhe os olhos, parte visada sempre pelo Boitatá. Em geral, o Boitatá ataca as pessoas que desrespeitam as matas, entrando nelas para destruí-las. Olhar a Cobra de Fogo nos olhos - diz o mito - é sempre perigoso, pois pode cegar o incauto.

Alguns locais também receberam a crença de serem encantados. Provocam o temor de serem adentrados. Assim temos no Sul a Salamanca do Jarau e no Norte a Alamoa de Fernando de Noronha.

A Salamanca do Jarau - Trata-se de uma caverna, uma furna em Quarai no Rio Grande do Sul chamada de Cerro do Jarau. Esta caverna estaria cheia de tesouros e riquezas, mas guardada por um grande lagarto encantado.
   Seria ele em sua origem uma princesa moura que chegara aqui quando da expulsão dos mouros na Espanha. Trouxera com ela um tesouro que escondera na caverna. Aqui, porém, foi transformada pelo diabo indígena Anhangá num grande lagarto, com uma cabeça que emite fogo de uma pedra em sua cabeça. Então o lagarto passou a guardar a entrada da caverna cegando o incauto que o encontrar.

Cerro do Jarau, no município de Quaraí

    O mito nos conta ainda que um sacristão do tempo da catequese Jesuítica no Sul conseguiu domar o lagarto. Leva-o então para o seu quarto, aprisionado. Porém, quando já sonhava com as grandes riquezas da caverna das quais seria dono, subitamente o lagarto se transforma numa linda mulher, o que de fato era. Seduzido por sua beleza, acaba sucumbindo a seus encantos e vive com ela em grande paixão.
   Tendo sido, contudo, descoberto o seu deslize contra votos de castidade que havia feito, iria ser executado, mas justamente no momento em que seria morto aparece o lagarto e cega a todos os seus executores. Foram depois os dois se esconderem na caverna onde vivem sua paixão. Guardam até hoje as riquezas da Salamanca do Jarau, intocadas, pois todos que pretendem visita-la terão que enfrentar a potência cegante do lagarto encantado cujo nome é Teiniaghá.

A Alamoa – Desde 1737 a ilha de Fernando de Noronha se transformou num presídio. Assim permaneceu por mais de 200 anos. É então desde este longínquo tempo que o imaginário dos detentos, que podiam circular pelo espaço da ilha, criou a lenda da Alamoa.

Morro do Pico, em Fernando de Noronha.

   É ela uma linda mulher loura vista em dias de tempestades aparecendo na praia com longos cabelos que lhe chegavam até os joelhos ,deixando apenas entrever uma sedutora nudez e ali bailava, bailava para o encanto dos detentos. Recolhia-se depois à sua moradia situada no Morro do Pico, grande elevação de pedra que se avista desde longe, tornando mais majestosa a deslumbrante beleza da ilha.
   Escutavam então em sonhos uma voz feminina que de lá os chamava para vir a seu encontro no Pico, presumivelmente para ajuda-la a desenterrar um tesouro. Seduzidos pelo tesouro e por um possível relacionamento amoroso com tal mulher, os prisioneiros iam até o Pico e perto dali esperavam que a noite de sexta feira chegasse, ocasião em que o Pico misteriosamente abria na pedra uma fenda, uma porta de entrada.
   Lá chegados, o pavor, porém, os tomava, pois ao invés daquela linda mulher, encontravam uma caveira ambulante assustadora, que imediatamente fechava a fenda da rocha os prendendo ali. Ninguém via mais estes homens.
    Muito tempo ainda depois do presídio fechado, este mito levou pescadores e marinheiros a não se aproximarem do Pico temendo a presença da Alamoa caveira.

O Boto - Muitas crianças na Amazônia são chamadas de “Filhas do Boto”. Isso deve-se a este mito cultuado por gente muito humilde.
   Em locais de festas nas pequenas comunidades, costuma aparecer um rapaz muito bem vestido todo em terno branco, que encanta com o seu charme as moças solteiras locais.
  Na verdade, ele é fruto do encantamento de um Boto rosa que vive nos rios amazonenses e que repentinamente transforma-se naquele sedutor rapaz. Nas festas, ele, muito galanteador acaba por convencer alguma moça jovem para acompanha-lo num passeio idílico nas margens do rio. É ali que ele as estrupa e as engravida.
   Esse mito vem a séculos justificando a gravidez de muita moça engravidada pelo próprio namorado, que foge assim à fúria de pais rígidos, mas ingênuos.

O Saci Pererê - É um negrinho baixo que tem uma perna só, andando aos saltos. Fuma um cachimbo e tem à cabeça um barrete vermelho, carapuça que lhe dá poderes mágicos como aparecer e sumir repentinamente. É muito brincalhão nada o que faz é por maldade, mas apenas para se divertir. Suas brincadeiras são incontáveis: Espalha cinzas de fogões apagados; tira das galinhas poedeiras ovos de seus ninhos; impede os cavalos de correrem puxando-lhes os rabos; dá assobios repentinos no ouvidos de viajantes ; mistura sal em recipientes de açúcar; enfim, faz tudo com uma grande gargalhada , em alegre diversão.
 O Saci foi aproveitado na literatura por Monteiro Lobato como personagem em seu “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Quando então este mito tornou-se muito conhecido.
   Está hoje espalhado em todo o Brasil, mas é mais cultuado na zona onde foi originado na região das missões. Entre os índios era chamado de “Yaci Yaterê”.

O Negrinho do Pastoreio - Uma das lendas mais caras aos gaúchos é sem dúvida esta do Negrinho.
   Foi muito contado pelo tempo em que no Séc. XIX em nosso país lutávamos pela abolição da escravatura, tentávamos mostrar a condição humilhante em que vivia os nossos escravos negros.
   Trata de um estancieiro muito cruel que possuía um menino negro de 14 anos como escravo. Este não fora batizado, então, como não tinha padrinho ele próprio se dizia afilhado da Virgem Maria. Também nem nome lhe deram sendo simplesmente chamado de Negrinho.



  Impassível e humilde galopava pelas coxilhas treinando um cavalo baio muito lindo a vários outros.  Um dia o estancieiro o ordenou pastorear mais de trinta cavalos, mas num descuido, ele deixou justamente o cavalo baio soltar-se, se perdendo. Dando falta do baio, o estancieiro deu inúmeras chibatadas no Negrinho deixando-o a sangrar e depois o colocou preso sobre um formigueiro certo de que aquele enxame de formigas o mataria.
   Alguns dias depois foi até o formigueiro e o encontrou de pé com o corpo livre de qualquer marca e ao seu lado estava a Virgem Maria, testemunhando que o escravo menino já estava no céu, mas na companhia de sua madrinha. Desde então, é visto nos campos um negrinho montado num cavalo baio tocando um pastoreio. Dizem que ali ele está sempre procurando um objeto que alguém perdeu. Um objeto perdido requer de nós que façamos uma oração ao Negrinho e acendamos uma vela, que ele então vai pôr num altar à Nossa Senhora.  Logo, o objeto estará à vista de quem o perdeu.
Entre as canções gaúchas esta essa: "Negrinho do pastoreio, acende esta vela pra mim! Espero que me devolvas a querência que perdi!".