domingo, 29 de agosto de 2021

O Estratagema de Takla

No século VII, vivia na cidade de Medina na Arábia, um homem de meia idade chamado Mosab. Sua vida era muito difícil. Já fora adestrador de falcões e durante uma queda ficara capenga. Porém, viajara várias vezes ajudando caravanas de peregrinos que iam até a Pérsia. Lá, aprendeu Geometria, Cálculos e os segredos da Astrologia com sábios sacerdotes. Quando não pode mais trabalhar com falcões por estar capenga, mudou-se para Damasco, na Síria e ali conheceu Takla com quem se casou. Sua profissão ali não era das mais rendosas, tornou-se um professor. Ensinava Astrologia e Geometria. Era um homem muito estimado por seu gênio paciente, mas para poder sustentar uma esposa e uma filha tinha que contar com Takla que, muito ativa, bordava tapetes com cenas do Alcorão.

   Um dia bateu em sua porta um emissário do califa de Damasco. Este lhe mandava uma ordem para que comparecesse perante ele. Mosab ficou lívido de emoção. O que –pensou ele- aquele poderoso rei havia de querer com um homem tão humilde como ele? Após muitas conjecturas sobre aquele honroso convite, pôs suas melhores vestes, seu turbante novo, sua melhor túnica e foi atender a ordem.

   Quando atravessava os luxuosos salões para chegar até o rei, ouviu de nobres muçulmanos comentários desdenhosos como; O que quer nosso soberano ouvir deste astrólogo capenga? Mas a entrevista foi cercada de mistério. Todos os secretários foram convidados a se retirarem, ficando a sós Mosab e o califa. Este então esclareceu em tom amistoso.

   _Tenho recebido muitas informações elogiosas a teu respeito. E, a minha atual favorita é amiga de sua esposa Takla e falou-me varias vezes de tua sabedoria, então para agradá-la quero nomear-te para o cargo de meu primeiro ministro.

   _Eu, primeiro ministro? Repetia Mosab estupefato.

   _Exatamente- confirmou o califa e passou a nomear as capacidades que seriam aproveitadas em Mosab: És um homem honesto.  Conheces os segredos da Geometria de Euclides. Sabes então muito bem lidar com números e contas. Conheces também Astrologia e a qualquer momento poderás dizer-me como está a trajetória dos planetas no céu. Ninguém duvida da tua sabedoria em interpretar o Livro Sagrado, o Alcorão de Alá. Julgo-te, portanto o mais confiável para vigiar as despesas do tesouro do meu califado. Porém - continuou o rei- só poderei te nomear meu Grão Vizir depois que responderes duas perguntas.

   _Ò nobre soberano- respondeu Mosab - só direi a verdade sejam quais forem as conseqüências.

   _Bem, Então esta é a primeira: Tens amigos entre a população de Damasco?

   _Sim. Tenho bons amigos em toda a parte, entre sábios e ignorantes, ricos e pobres. Tanto na mesquita como no mercado estou sempre rodeado de amigos.

  _ Muito bem. Então passo à segunda: Tens inimigos entre os muçulmanos de Damasco?

_Não. - Respondeu ainda com sinceridade Mosab - Sempre só contei com muita afeição. Estou certo que durante toda a minha vida não fiz um só inimigo.

  _ Então- declarou o califa- sinto muito, mas não poderei te nomear meu primeiro ministro.

O bom professor abaixou a cabeça arrasada por aquele desfecho não esperado, mas o califa tornou a explicar-se: _ Observe bem: Sou um rei generoso, mas tenho inimigos dentro e fora de minhas terras O grande profeta Maomé, um enviado divino, teve inimigos cruéis que tentaram por todo jeito vencê-lo até matá-lo. E Alá, o misericordioso, também tem inimigos. Quem são afinal os hereges que tentam desacreditar Seu nome, senão seus inimigos?

   Seria um absurdo que meu primeiro ministro fosse um homem tão fraco, sem expressão, que não conseguisse contar com um só inimigo. Mosab, todos os homens de personalidade forte têm inimigos.

   Quando, porém, olhou para Mosab, o rei se comoveu com o seu desaponto e disse;

_ Vou te dar uma oportunidade, Se dentro de 24 horas tiveres arranjado 7 inimigos em nossa cidade serás meu primeiro ministro. Vá que eu te esperarei aqui amanhã após a terceira prece do dia.

   Ao sair do palácio, Mosab passou por um homem vendendo água, pensou então em agredi-lo derrubando a água, o tornando o seu primeiro inimigo. Mas depois refletiu. Não teria coragem de agredir um miserável aguadeiro. Era muita covardia. Talvez fosse melhor procurar o xeique Ismael e lhe contasse sobre as infidelidades de sua esposa. Os 4 irmãos dela ficariam furiosos e ele assim já arrumaria 4 inimigos. Porém o repugnava fazer intrigas.Desistiu. Melhor então era procurar poetas que tinham fama de talentosos e dizer perante várias pessoas que os versos deles eram horríveis. Mas, a poesia sempre lhe fizera tão bem! Com poderia arranjar inimigos incomodando homens que só viviam para as coisas delicadas das artes. Impossível.

   Quando chegou em casa sua aparência assustou sua esposa Takla.

_O que foi que o califa te disse que te perturbou tanto?- perguntou-.

_ Exigiu-me arrumar em 24 horas 7 inimigos em troca de um cargo de Vizir. Mas como arrumá-los entre estas pessoas de Damasco tão solidárias com a nossa pobreza?

_Ora –respondeu Takla- só isto? È muito fácil arrumá-los. Deixa que eu trate disso.

_ Por favor, Takla, não quero que consigas inimigos agredindo nenhum de nossos prezados visinhos.

 _ Não o farei -disse ela muito animada- Senta-te ai sobre esta almofada bem tranquilo, fica lendo tópicos do Livro Sagrado, e te garanto que nem terás terminado todas suas Sutras e eu já terei arranjado teus inimigos e o rei amanhã te fará primeiro ministro.

   Takla saiu, mas Mosab nem conseguia fixar-se no Alcorão. Pensava em tudo que poderia perder: Via-se ao lado do rei recebendo homenagens de nobres maometanos. Iria com certeza morar num palácio com fontes e jardins, onde receberia seus amigos poetas. Sua filha naturalmente se casaria com um nobre dono de milhares de tamareiras  e afinal tudo estava perdido. Não acreditava que Takla fosse capaz também de fazer inimigos. Mas, dali a umas horas ela aparecia radiante.

   _Meu marido – disse – já está tudo arrumado. Era de sete inimigos que precisavas? Pois te garanto que já arrumei mais de setecentos.

 _ Por Alá, Takla, o que fizestes? Quantas pessoas agredistes?

 _ Nenhuma. Apenas chamei algumas de minhas conhecidas para uma reunião e nela declarei, como se já fosse um caso já consumado, que o califa tinha te escolhido para seres seu primeiro ministro. A surpresa foi tão grande que tive até que jurar pelas barbas do profeta Maomé. Surpreendi alguns cochichos assim: Este rei deve estar doido de contratar uma capenga para ministro! Quando declarei que era amiga da sua favorita, notei já algumas expressões de inveja e logo ouvi sussurros onde alguém dizia: Este rei realmente nunca soube escolher os seus auxiliares!

  _ Mas Takla – argumentou Mosab – Como é que apenas com comentários maldosos de algumas mulheres vais me trazer tantos inimigos?

 _ Ai é que te enganas. Elas contarão a notícia há pelo menos vinte pessoas, estas a mais vinte e assim progressivamente a estas horas mais de cinco mil homens de Damasco já estão a par da notícia e o ódio que vem da inveja vai estar no coração dos mais ambiciosos.

   No dia seguinte Mosab foi a presença do rei para contar-lhe o estratagema de Takla.

   _Agora compreendo-disse o califa- porque hoje na audiência da manhã vários secretários fizeram tantas referências nada elogiosas a ti. Chegaram a contar-me que tu te disfarças num pobre professor capenga, quando na verdade és um espião com cúmplices no Egito, aos quais prometestes revelar segredos de nosso Estado. Outro disse-me que te surpreendeu preparando com teus estudos de Astrologia, sortilégios para matar toda a minha família real. Já vês que todos estes teus inimigos foram inspirados pela inveja surgida em apenas 24 horas, graças ao estratagema de tua esposa. Amanhã, sim, Mosab, assumirás o cargo de meu Grão Vizir. Mas te dou um conselho: Quando tiveres qualquer dúvida na condução do meu califado, consulta Takla.  Não há nada mais precioso do que se ter uma esposa com tanta perspicácia quanto aos sentimentos humanos.

- Extraído de “Novas Lendas Orientais“ de Malba Tahan.


O Amor Venceu a Morte

 

O Amor que Venceu a Morte - Um Conto Indiano

Na Índia antiga havia uma princesa, filha de um rei, chamado Savitri. Quando ela chegou à idade de casar-se, seu pai, como era de costume, mandou que ela escolhesse um marido. A carruagem real, acompanhada de uma magnífica escolta, foi pelas estradas para Savitri visitar as cortes vizinhas.  Porém, em nenhum dos reinos ela encontrou um príncipe que lhe agradasse.

      Aconteceu que a comitiva passou por um bosque. Ali, sábios místicos e homens desgostosos com o mundo, se refugiavam,entregando-se a meditações e exercícios espirituais. Ali morava também um velho rei cego que fora destronado e fugira para aquela ermida com a família. Tinha um único filho de nome Satyavam.

Iama, deus hindu da morte

       No país, era hábito que qualquer pessoa que passasse perto de um bosque – ermida onde vivessem sábios parasse para lhes render homenagens, tal era o respeito que até os nobres tinham aos nobres. Assim, a caravana de Savitri, parou , entrou no bosque, ela viu o filho do rei cego destronado e se apaixonou por ele.

      O voltar á sua corte, o pai perguntou-lhe se encontrara algum príncipe digno dela. Ela disse que sim, mas que ele não era mais príncipe porque o pai dele fora destronado e morava numa cabana num bosque.

     O rei chamou então o adivinho famoso, Narada, para fazer uma previsão para aquele possível casamento. Narada disse que a escolha dela fora muito funesta, pois aquele jovem Satyavam dali a um ano morreria. O rei tentou dissuadir Savitri de casar com alguém que além de pobre, tinha vida tão curta, mas Savitri respondeu que o seu amor era tão grande que venceria a própria morte.

 Casaram-se e Savitri foi viver na cabana do bosque, só ela sabendo o dia que Satyavam morreria. Os três dias que antecederam a data fatal, ela passou em jejuns e orações, escondendo a sua angústia. Ao amanhecer do dia marcado, não querendo nem por um instante deixar seu amado sozinho, ela foi com ele para o campo colher raízes e frutos. Quando estavam lá, Satyavam queixou-se que sentia o se corpo enfraquecer-se, as suas forças se esvaírem. Pediu que se sentassem ao chão, pôs a cabeça no colo dela e em poucos instantes, morreu.

    Abraçada ao corpo dele, ela ficou ali esperando que os emissários do deus da morte Iama chegassem para levar a sua alma. Ao chegarem, nenhum dos emissários, porém, conseguiu acercar-se do local onde os dois amantes estavam. Em roda do lugar onde ela se sentara com ele ao colo, ardia um círculo de fogo que ninguém podia passar.Era como um anel de ouro que isolava os dois.

    Os emissários da morte voltaram ao deus Iama da morte e lhe explicaram que era impossível tocar na alma daquele jovem porque para passar o círculo de fogo se queimariam. O deus foi então pessoalmente ao bosque e como era um deus pode atravessar o círculo e falar com Savitre.

     _ Filha, entrega-me esta alma. Sabes bem que a morte é apenas uma etapa no caminho dos mortais.

     Savitri entregou-lhe a alma de Satyavam, mas quando o deus tinha dado apenas alguns passos, ouviu atrás de si sobre as folhas secas, os passos de Savitri.

   _ Filha -disse o senhor da morte- porque me segues? Não sabes que a morte é o destino dos homens?

   _ Sei –respondeu ela- mas sei também que o destino da mulher é ir aonde o seu amor a leva.

     O deus da morte disse-lhe então: _ Pede-me qualquer graça, menos a vida do teu marido.

    _ Então, por favor -pediu Savitri- devolvas a vista do meu sogro que ele não seja mais cego.

     _ Neste momento teu pedido foi atendido, teu sogro está curado.

Narada, o mais famoso adivinho da Índia! 

    E, o deus da morte da morte foi embora com a alma de Satyavam, mas novamente ouviu passos e viu que Savitri ainda o seguia.

    _ Por favor, Savitri, ainda me segues?

    _ Eu nada posso fazer-disse ela- Embora eu me esforce para voltar para trás, para a minha Ca a minha mente corre atrás de meu marido e o meu corpo obedece a minha mente. Tu estás com a alma de. Tu estás com a alma de Satyavam e como a alma dele  é um complemento da minha, aonde a dele vai, a minha vai também.

   _ Savitri, A tua dor é uma dor sem esperança. Dou-te outra graça, menos a alma de Satyavam.

   _ Bem –pediu Savitri- se queres mesmo me dar outra graça, faz com que o meu sogro recupere o seu reino que perdeu, com todas as suas as suas riquezas.

   _ Tudo agora já está te concedido.  Agora volta filha, pois nenhum ser vivente, jovem como tu, deve andar ao lado do deus da morte.

     Como, porém Savitri persistiu em acompanhá-lo, ele lhe perguntou:_ Supõe Savitri, que o teu marido tivesse muitos pecados a resgatar e que eu o estivesse levando para o inferno. Gostarias assim mesmo de  segui-lo?

_ EU o seguiria alegre -respondeu ela- pois o céu é um inferno para mim sem Satyavam e o inferno é um céu para mim ao lado dele.

    _ Tuas palavras me comovem Savitri, mas pela última vez, vai embora porque não te darei a alma de teu marido.

    Porém o deus olhou-a com piedade e lhe disse:_ Sem me pedires a alma dele, pede-me outra qualquer graça que eu te atenderei.

    _ Bem, se me permites desejar, quero ver preservado o reino que acabastes de dar novamente ao meu sogro, que a sua nobre dinastia tenha continuidade.

     O deus da morte sorriu da sua artimanha feminina, pois ela sabia que sendo Satyavam filho único, só através de seus filhos o reino do velho rei poderia ser preservado e afinal ele, o deus da morte, lhe prometera “qualquer coisa” Compreendeu que desde o primeiro pedido ela quisera chegar a isto.

     _ Ó filha –disse vencido- Toma a alma de teu marido, leva-a contigo. Ele voltará a viver e será o pai de teus filhos e com o tempo herdarão o reino de teu sogro. Pela primeira vez vi um amor triunfar sobre a morte! Nunca vi uma mulher amar tanto! Savitri, nem mesmo eu o senhor da morte, nada posso fazer contra a força de um amor tão imenso!

    O deus da morte afastou-se e no colo de Savitri o rapaz começa a ressuscitar.