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sábado, 13 de maio de 2023

A Onipresença de Deus na Evolução das Civilizações

   A evolução humana obedece a ciclos contínuos que dão início ao desenvolvimento de virtudes que o homem necessita manifestar.

   Para tanto, nos parece que o Absoluto se serve de protagonistas que O auxiliam no difundir de tais virtudes.  Surgem eles como ondas que atuam impulsionadoras.

   Se partirmos do século VI AC, podemos seguir estas ondas com seus respectivos protagonistas que vão abrindo espaço para o nosso processo evolutivo. O decorrer daquele século podemos considerá-lo como um facho de luz que iluminou as mentes dos homens. Vinham eles de um longo período civilizatório marcado por buscas espirituais frágeis, supersticiosas e temerosas. Nele, só sacrifícios feitos aos deuses, oferendas e troca de benesses pareciam nos ligar ao Criador. Perguntas existenciais, que são o âmago mesmo da tendência espiritualista, eram inexistentes ainda.

   Contudo, antecedidos por Lao Tsé, o grande pensador chinês, criador do Taoísmo que nos mostrava o Tao (o Caminho), neste século passamos a contar com figuras luminares como Buda, Confúcio e Pitágoras. Buda a nos libertar de ambições e desejos para atingirmos a felicidade do Nirvana, O grande professor Confúcio (mestre Kong) a nos livrar de lutas sociais que levavam países ao caos, através de sua luta por um Estado ordenado e disciplinado. Pitágoras, o mais fascinante dos pensadores, que gerava em seus alunos um culto como se convivessem com um semideus. Mais místico do que filósofo, deixou com sua personalidade carismática uma influência em muitos pensadores que o sucederam e muito tempo depois ainda a cientistas como Kepler.

    Poucos séculos após aquele, outra onda de protagonistas benfeitores como Sócrates, Platão e Demócrito, o grande atomista, iluminou o céu da Grécia. Sócrates que aceitou a sua sentença de morte imposta, porque era fiel a esta sua verdade: “o mundo era apenas uma projeção, uma simples sombra de um mundo real, verdadeiro, existente.” Ideia tão bem exposta depois por seu aluno Platão em sua linda metáfora da “Gruta platônica”.

   Porém, será no século I de nossa era que nascerá Jesus, o Cristo, que manifestará e transmitirá a virtude mais necessária ao homem: O amor. Tal palavra estará presente em cada um de seus pensamentos, em cada uma de SUS frases. O “Amai-vos uns aos outros” é a sua afirmativa mais conhecida, que embora nem sempre cumprida, jamais, apesar de milênios passados, foi perdida.

   Quando o nacionalismo judeu, através de seus próprios discípulos, quis deturpar a bela mensagem do Cristo, dando acesso a ela apenas aos circuncidados, surgiu à figura universalista de Paulo de Tarso que fez do Cristianismo uma crença que ultrapassa qualquer espaço e que está apesar do tempo decorrido, em todos os cantos de nosso mundo.

   Muitas vezes, o Cristianismo esteve à beira de um abismo moral. Contudo, parece receber da onipresença divina uma proteção para salva-lo de extinguir-se.

    Vejam que o século XIII foi o do fanatismo religioso, o das Cruzadas. Nada escapava dele, nem crianças. Aos gritos animadores de “Deus o quer! Deus o quer!” eram induzidas a irem ao Oriente salvar o túmulo de Jesus das mãos dos “Infiéis”. Assim, na chamada “Cruzada das Crianças”, estas acreditavam que ao atingirem as costas, o mar se abriria para lhes dar passagem, assim como acontecido a Moisés. Conseguiram reunir mais de 35 mil crianças. Aquelas que sobreviveram ao penoso percurso (este ficou cheio de seus pequeninos corpos) foram vendidas na África como escravas. Além de que as crueldades feitas pelos próprios Cruzados na Terra Santa foram estarrecedoras. Contudo, neste século nascia também o santo andarilho aquele que emocionaria com a sua piedade o coração de cada cristão, aquele que, sem dúvida, provoca até hoje uma imensa energia devocional: Francisco de Assis.

   Quando na Idade Média a ganância dos organizadores do Cristianismo lhe deu uma tendência puramente comercial, com o absurdo das indulgências, dadas em troca de “Cadeiras no Céu”, aparece Lutero. Seu papel purificador foi uma sacudida para que o Cristianismo revisse os seus erros, o que resultou na criação de duas versões cristãs ambas dentro de linhas desejadas, com certeza, pelo Cristo.

   Se somarmos todos os horrores feitos pela Inquisição com origens na própria Igreja, e que já entravam em varias partes do planeta ensejado pelas grandes navegações, nos parece que o mundo tinha sido esquecido pelo Criador, virara Caos. No entanto, entre os séculos XV e XVI vieram à tona ideias humanísticas que ressuscitavam pensamentos gregos antigos com luminares como Erasmo de Rotterdam e Tomas More. O Humanismo provocou o grande florescimento literário, artístico e científico do Renascimento. Tivemos então a época da beleza e do espírito de análise.

   Os sublimes mestres da Renascença italiana foram, sem dúvida, Rafael, Leonardo e Miguel Ângelo. Pintores e escultores. Na literatura, Nicolau Maquiavel escritor de “O Príncipe” em sua crítica ao Absolutismo e naturalmente também William Shakespeare autor de peças dramáticas como Hamlet, Romeu e Julieta e Macbeth teatralizadas até hoje. Em Portugal, Luiz de camões e na literatura espanhola Miguel de Cervantes.

   A ciência floresceu então como uma flor preciosa em meio às antigas superstições religiosas. Sobressaindo-se então as personagens de Copérnico, Giordano bruno, Kepler, Nilton e Galileu.

   Além de abrir-se com o descobrimento da América, o século XV, foi aquele em que inúmeros novos recursos foram obtidos pelos homens, lhes proporcionando aumentar a visão do seu mundo conhecido. Passamos a contar com as melhorias na arte de navegar, as grandes construções navais, como a Escola Náutica portuguesa de Sagres. Passamos a contar com o astrolábio, a bússola, o compasso. Foi então que surgiram os protagonistas das grandes descobertas que movidos ou por ambição ou por vaidade, mas, sobretudo corajosos, enfrentavam mares desconhecidos.

   O regime absolutista europeu, que teve no rei francês Luiz XIV seu símbolo mais perfeito, foi aquele que mais oprimiu os homens desde o alvorecer de 1500 até o final de 1800. Com gastos excessivos na corte e luxos demasiados, este rei em sua frase: ”O Estado sou eu” manifestava como ele via irreprimível tudo o que viesse de sua autoridade. Tanta opressão, não só na França, mas em todos os regimes absolutistas europeus, culminou como era de esperar-se, com revoltas que resultaram na Revolução Francesa. Embora tudo acabando de forma violenta com a fuga do rei (já então Luiz XVI), a marcha de oito mil mulheres sobre Versalhes, a nacionalização dos bens do clero, etc. politica e moralmente o mundo conseguiu ali algo extraordinário: A “Declaração dos Direitos Humanos”.

   Em seus 17 artigos, totaliza princípios a serem seguidos por qualquer povo, em qualquer época. Tal selo final para esta Revolução parece-nos a própria presença divina contrabalançando os sofrimentos de um conflito social que durou nada menos que 10 anos.

   Sem esquecermos as figuras excepcionais de Mozart e Beethoven nascidos no final deste século XVIII, o próximo século XIX foi aquele em que curiosamente uma grande falange de gênios no setor musical nasceram com diferenças de apenas anos. Senão, vejamos: Chopin nasceu em1810, Liszt em 1811, Vagner 1813, Guinod em 1818, Brahms em 1833. A humanidade realmente foi contemplada com a sensibilidade aos sons, o fascínio à harmonia de seus acordes. Os protagonistas de Deus -poderíamos pensar- estavam como sempre em plena ação.

   Os homens necessitam desenvolver em seu evoluir qualidades como humildade, desprendimento, valentia, amor, persistência. Porém, há homens que parecem já reuni-las em si. Estão-se falando de alguém assim, certamente nos referimos a Gandhi, o inigualável Mahatma. Com todos estes talentos reunidos, fez a liberdade de uma nação.

   A curiosidade que a tudo indaga, que nos leva à perguntas existenciais, que nos fascina pelo mistério, que é tão ousada que aventura-se até, a saber, os fundamentos, os enigmas, o comportamento do próprio universo, nos é suscitada pela verdadeira espiritualidade e, nada melhor para terminarmos esta exposição que mostrou alguns homens artificieis de nossa evolução, que se lembrar dele: o grande gênio científico, o maior curiosos desta nossa era: Einstein.


sábado, 12 de novembro de 2022

Religiões Atuantes no Brasil

 É erro dizer-se que pela época do descobrimento nossos índios não eram religiosos. Tinham sim, o seu Deus Tupã e a entidade destruidora Anhangá.

   Logo depois, em 1550 aqui chegou a Companhia de Jesus com os seus dois grandes evangelizadores José de Anchieta e Manoel da Nóbrega.  Por volta de 1600 ,vieram para cá os chamados Cristãos Novos, judeus convertidos a fé católica que foram expulsos da Península Ibérica.

  Com a chegada dos escravos negros iniciaram-se entre nós as perseguições às crenças vindas da África. Porém, no Séc. XIX, manifestações na Bahia reagiram as estas perseguições criando os primeiros Candomblés. Tivemos terreiros repletos de seguidores alguns que se tornaram famosos: Engenho Velho, Apó Afonjá, Menininha do Gantois. Todos matriarcados conduzidos por Yalorixás auxiliadas por Ogans, homens responsáveis pela prática de tirar búzios (conchas usadas como moedas na África) e pelo sustento financeiro do terreiro.

   A Igreja reagiu a isso, criando as Irmandades Cristãs de Negros, sendo as principais a de Nossa Senhora do Rosário e a de São Benedito, ambos santos negros.

Orixás do Candimblé.

  O Séc. XIX, o de nossa independência, apareceu para ajuda-la a Maçonaria. Logo aqui chegava também, vindo da França, o Espiritismo Kardecista que alastrou-se rapidamente entre os intelectuais cariocas. O médium mineiro Francisco Xavier tornou-se famoso com suas belas psicografias.  Em Niterói, manifestações espíritas de caboclos inauguraram a Umbanda, hoje a facção de religiosidade mais popular do nosso país.

   Aqui tivemos também em 1612 no interior do Maranhão e espalhando-se rapidamente o trabalho dos frades Capuchinhos, Ordem de São Francisco de Assis estabelecida em 1528 pelo papa Clemente, com sede em Roma. Seu nome provinha de um capuz que costumavam usar.

   Também as igrejas protestantes como a Anglicana, a Presbiteriana e a Luterana já proliferavam entre nós.  No Séc. XX apareceu aqui o Pentecostalismo (Facção do Cristianismo que acredita nos milagres sobrenaturais descritos pela Bíblia com a possibilidade de manifestações na atualidade, o que o fazem diferente do Protestantismo tradicional). Entre estas fações estão a Assembleia de Deus, a Metodista, O Evangelho Quadrangular, a Pentecostal Deus é Amor, Congregação Cristã do Brasil e tantas outras.

   Temos ainda entre nós os Mórmons (Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias). Estes tiveram início no Séc. XIX nos Estados Unidos liderados por Joseph Smith, chamado O Profeta da Restauração.

   Depois chegaram até nós muitos movimentos esotéricos com suas praticas de meditações e também práticas orientais como as dos Bahais iranianos.

Templo Bahai, em Haifa, Israel.

   Hoje temos a volta dos estudos de Cabala (método esotérico com ensinamentos sobre Deus, o universo, a criação, a vida e a morte). Nos é transmitida por rabis judeus experientes.

    Da parte da Igreja católica tivemos a visita de vários papas inclusive a de nosso querido papa Francisco.

   O Brasil é, sem dúvida, um pais de religiosidade múltipla, mas laica e sem intolerância religiosa.


sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Cidades Históricas de Minas Gerais

 Passeando por este Brasil afora, é imperdível uma estadia nas cidades históricas mineiras. Visitar locais como Sabará, Congonhas, Mariana, Tiradentes e naturalmente a alma imortal de todas elas: Ouro Preto, com suas ladeiras, seu casario estilo português, seus porões e senzalas de escravos domésticos é, sem dívida, retornar ao nosso passado. Esta última então chamada de Vila Rica, era em tempos do Brasil colonial pródiga em arte, gastronomia, política, amor, religiosidade e riqueza aurífera.

Ouro Preto, a principal das cidades
históricas de Minas Gerais.

    Surgiu como as demais com a chegada dos bandeirantes em busca de ouro já ao final do século XVII. Hoje é tombada pela UNESCO como patrimônio cultural da humanidade e naturalmente é a joia do Barroco americano.

  Seu nome Vila Rica procede do ciclo de ouro brasileiro com suas duas mil minas catalogadas. Entre elas a maior delas a “Da Passagem”. Nos seus 30 quilômetro de galerias pode imaginar, com pesar, a humilhação e o sacrifício de centenas de escravos que a garimpavam, segundo as regras cruéis da escravidão peculiares ao nosso período colonial. Mancha nacional que jamais esqueceremos.

   Foi em Vila Rica que aconteceu. A maior revolta contra a exploração portuguesa aos habitantes locais: A Inconfidência Mineira. Durante o ciclo de ouro todos aqueles que encontrassem ouro deveriam pagar o “Quinto”. O ouro era derretido, feito em barras e enviado à Portugal. Cada região pagava anualmente também uma quantia de mais ou menos 1.500 Kg à coroa. Quando esta taxa não era paga, os soldados portugueses entravam nas casas e retiravam os bens dos moradores. A isto se chamava “Derrama”.

   Os impostos revoltavam a população e começou então o movimento liderado por Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Influenciados que foram os inconfidentes pelas ideias iluministas vindas da Europa. Outros foram também os poetas Tomás Antônio Gonzaga e Claudio Manoel da Costa. Porém, um dos inconfidentes Joaquim Silvério dos Reis, para se livrar de dívidas com portugueses, delatou o dia que se daria a revolta. Tiradentes foi condenado à forca no Rio de Janeiro, então capital da Colônia, seu corpo foi esquartejado e sua cabeça exposta na praça principal de Vila Rica, local onde um século depois foi erguido um monumento ao confidente. Os outros foram degredados para a África. Um deles, Manoel da Costa, suicidou-se na prisão.


Tiradentes, uma das cidades mais pitorescas
da rota histórica de Minas Gerais.

Havia certamente recursos para ludibriar as exigências portuguesas. Um deles era o tráfego de ouro que contava com o ”Santo do Pau Oco”. Na igreja de Nossa Senhora de Pilar (a mais rica de Minas) encontra-se um deles. O ouro que não pagaria tributo era escondido através de uma abertura dentro da imagem do santo. Dali era levado nos andores de uma procissão, passando pelas barbas dos guardas que margeavam o caminho. Caso houvesse o perigo de cair algum ouro no chão e chamar a atenção dos guardas, a matraca encobria o barulho com seu som. Quando havia muito ouro a ser traficado, o número de procissões aumentava.

   O culto cristão era muito forte em Ouro Preto em tempos coloniais. Contemplar a beleza das igrejas mineira é imperdível.

   Na igreja de santa Efigênia (esta, uma princesa núbia responsável pelo Cristianismo na Etiópia), em meio ao esplendor dourado do Barroco, vemos

 Figuras de pelicanos. Estão eles ali fora do contexto de um templo? Certamente não. Eles representam o sacrifício do Cristo. É o animal que fere o próprio peito com o bico para alimentar com seu sangue seus filhos, quando estão famintos.

   Para contribuir com a feitura desta igreja, negras, já forras, levavam ouro nos cabelos e os lavavam depois na pia ali deixando o ouro.

   Quem tiver o privilégio de passar a Semana Santa em Ouro Preto, viverá dias inesquecíveis. Na sexta feira podemos assistir a “Procissão das Almas” em Mariana. Nesta época do ano- assim é acreditado- os mortos deixam o cemitério num cortejo fúnebre e passam pelo centro histórico. Isto se refere a uma lenda do século XVIII.

   É contado que uma senhora tinha o hábito de ficar na janela bisbilhotando até a madrugada para ver quem se atrevia a sair àquelas altas horas. Até que uma noite percebeu uma estranha movimentação de pessoas vestidas de branco trazendo velas acesas. Não reconheceu ninguém até que uma delas entregou-lhe uma vela recomendando que devesse pôr em seu oratório e ser depois lhe devolvido. Pela manhã, a senhora viu que em lugar da vela haviam ossos. À noite lhe foi pedido estes de volta com esta recomendação: “Não era para ficar debruçada na janela pelas madrugadas, pois a procissão das almas acontecia aquela hora”.

   No sábado, deveremos ficar acordados à noite para assistir a feitura dos tapetes que forrarão as ruas principais. São eles feitos de serragem, borra de café, palha de arroz e cal.

   No domingo, podemos acompanhar a Procissão da Ressurreição. E naturalmente uma grande atração da Páscoa é a teatralização de cenas do Novo Testamento que conta com um vestuário riquíssimo e uma arte teatral impecável de seus atores.

   Casos de grandes amores também aconteceram em Vila rica. Ali tivemos o amor cheio de desditas, tão bem descrito pelo poeta inconfidente  Tomas Antônio Gonzaga que escreveu “Marília de Dirceu”.  Marília é o nome poético de Maria Dorotéia de Seixas, noiva do poeta e Dirceu o pseudônimo simbólico do próprio Gonzaga. Ao vê-la já escreveu: “Mal vi teu rosto o sangue gelou-me, tremi e mudou-se das faces a minha cor”. Pela Inconfidência, foi ele degredado à África.  Mesmo passando por masmorras, inspirado pela saudade de Marília, escreveu tantos versos à ela que daria para encher livros.

Congonhas e sua afamada Basílica do
Senhor Bom Jesus de Matosinhos.

    Lembremos também da paixão fulminante do contratador de diamantes João Fernandes Oliveira pela mulata escrava Chica da Silva, a quem todos na cidade invejavam pelos tantos privilégios que lhe eram por ele concedidos e que a rodeavam de bajuladores.

    A Gastronomia, tão prosaica, é, porém, uma das atrações das cidades mineiras. Como se pode ir à Minas sem provar sua cozinha típica? Seu feijão tropeiro, sua couve, seu tutú de feijão, seu torresmo?

   A arte é certamente o ponto alto de Ouro Preto. Iremos então buscar a genialidade de Antônio Francisco Lisboa, o “Aleijadinho”.

   Aos 47 anos apareceu-lhe uma estranha moléstia que lhe fez perder os dedos dos pés e atrofiar os das mãos. Já então não andava e era carregado nas costas de um escravo. Suas mãos eram amarradas com panos e foi assim que executou a maior parte de seu trabalho.

   Em Congonhas, no adro da igreja de Matosinhos estão esculpidos os seus 12 apóstolos com placas em cada um escritas em latim como no Velho Testamento. Assim, temos Daniel dizendo: “Encerrado na cova dos leões sou libertado pelo auxílio de Deus”. Jonas a dizer: “Engolido pela monstro passei três noites no ventre do peixe e depois voltei vivo á Nínive”.

   Podemos ainda apreciar extasiados as 64 imagens de cedro (colhido nos meses sem erre- conforme dizem-) de sua Via Sacra pintadas pelo mestre Ataíde, o grande pintor do barroco mineiro. Como curiosidade, os pavimentos das ruas de Congonha são chamados de Pé de Moleque, por terem sido feitos por negrinhos escravos. Tais profetas fora esculpidos em 1800, quando o Aleijadinho já tinha 70 anos, em plena doença.

   Arte é também o concerto que se ouve em Mariana pelo órgão de fole, movido à mão de 1701. Ouvir seus acordes leva-nos a um sublime enlevo, toca o coração dos mais insensíveis. Mariana possui ainda um dos mais belos acervos em Arte Sacra do Brasil.

   Arte pura é encontrada no Museu do Oratório. Eram inúmeros na época  colonial. Estavam presentes em residências particulares, pois serviam para afugentar maus espíritos. Sem esquecermos naturalmente do vasto artesanato de Pedra Sabão.

   Com os olhos saciados por tanta beleza vista, teremos percorrido um dos mais importantes roteiros turísticos de nosso país: As cidades históricas de Minas.


sábado, 15 de fevereiro de 2020

Guerreiros da Normandia


Rollo - O Viking

Rollo interpretado pelo ator Clive Standen,
na série Os Vikings.
Os historiadores divergem quanto aos motivos que teriam levado os Vikings as costas ocidentais da Europa. Porém, eles poderiam se enquadrar basicamente nestes: Riqueza que iriam alcançar através da pirataria dos mares;expansão do próprio comércio sendo incrementado no período que se iniciam os ataques; a superpopulação dos países escandinavos na época. Como povos que praticavam a poligamia, geravam muitos filhos tendo como conseqüência as expedições que os retiravam de seus territórios relativamente pequenos para contê-los, lançando-os à conquistas aonde iriam se estabelecer como colonizadores.
    Todos são unânimes, contudo, em que os impulsionou aos mares a valorização que a sua cultura dava as qualidades de heroísmo e coragem, cujos modelos eram os mitos de audácia de seus próprios deuses. Homens entre eles que almejassem a sucessão de uma chefia e até mesmo um reino, poderia por certo obtê-los se fossem buscar temerariamente no exterior, ricos despojos e alianças influentes.
     Todos estes objetivos lhes foram facilitados por sua grande habilidade na fabricação de embarcações, que era muito superiores as anglo-saxônicas e as dos francos. Também porque fizeram da navegação uma verdadeira arte, para a qual, todos desde a mais tenra infância eram preparados. Quase não usando velas, apenas remos, conseguiam uma velocidade insuperável.
    Já pelo séc. IX, havia sido tentada a primeira entrada aos domínios de Carlos Magno, com uma invasão defendida pelo imperador ,por isso fracassada de ocuparem Dorestad, o maior porto comercial do império franco, na Holanda ,não tão distanciado das costas normandas.
Monumento a Rollo,
primeiro Duque da Normandia.
    Enquanto Carlos Magno viveu os manteve afastados. Após a sua morte,quando da divisão do império entre seus três netos,  a Normandia se  incluiria naquela parte que coube a Carlos,o calvo. Este porém não conseguiu deter o cerco Viking, cada vez mais introduzido neste território. O império estava enfraquecido pelos conflitos entre os três irmãos governantes, também pela impossibilidade destes em dominarem a autonomia dos senhores de muitos feudos em que se dividia a Gália.
    O império franco chegaria ao fim. O feudalismo se consolidaria como o sistema que dominaria as fracas dinastias por quase toda a Idade Média. As costas ocidentais da França abririam de par em par as suas portas aos “Homens do Norte”.
    Pelos meados do séc. IX, os Vikings já haviam se estabelecido nas ilhas perto de Rouen, segundo o seu costume de fazerem das ilhas abrigos para os seus ataques.
    Os primeiros locais visados como pontos de pilhagens, foram as ricas abadias e igrejas que desde o séc. VI haviam se multiplicavam nas margens do Sena, no ”Vale dos Santos” (Valy de Fontanelle). St.Vandrille, famosa por sua biblioteca e que era um dos maiores centros de estudo da cristandade do ocidente ,foi a mais destruída. Nem Jumieges, hoje a maior ruína monástica beneditina da França, escapou da fúria Viking.
    Nos primeiros anos do séc. X aparece o chefe Rollo que lutaria com os francos que ainda resistiam no vale do rio (Uma das preferência vikings era descer os estuários do Sena e do rio Loire para atingir o interior do país). Com o seu exército escandinavo, conseguiu tornar-se o único líder em toda a Normandia.
    O poder pode ser até fascinante se trouxer em seu bojo a lealdade. Rollo acabou por receber dos vencidos, legitimada por um tratado, a terra normanda. Não só porque talvez o propósito com que trouxeram ali os seus guerreiros, fosse exatamente a colonização,ou também porque infligisse medo, devido a uma especial crueldade que possuísse, mas sobretudo porque fora leal ao rei francês. 
    Por sua lealdade havia feito justamente o contrário de muitos de seus conterrâneos escandinavos: Aqueles ofereciam aos senhores e reis francos em troca de grandes somas, a defesa de terras contra o ataque de novas levas de Vikings.ofereciam também cultivo com a imensa mão de obra que possuíam, pois é sabido que os exércitos Vikings eram numerosos. Porém ao receberem tais somas, abandonavam as terras levando delas todos os espólios que os seus barcos pudessem conduzir.
    O território contido dentro dos limites do tratado de St. Clair-sur Epte entregue a Rollo, não era pouco extenso. Ia desde o baixo Sena abrangendo o nordeste até à Picardia e o sudoeste da Bretanha. No entanto, ele conseguiu colonizá-lo, plantá-lo e defende-lo energicamente. Energia era o que não lhe faltava. Conta-se que pendurava nas árvores das florestas, braceletes preciosos e outras jóias (os Vikings eram ótimos joalheiros) certo de que ninguém nelas tocaria, somente para deixar claro quem fazia a lei e a justiça no ducado.

Guerreiro Viking e seu elmo de guerra.

    Rouen, a capital da Alta Normandia onde foi batizado ,comprometendo-se também assim com a Igreja,conservou as melhorias que Rollo fez em seu rio. Após ter aprofundado seu leito, construiu desembarcadouros em suas margens, aproveitou ilhas fluviais unindo-as ao continente.
    Não só ele, mas os outros nórdicos que o sucederam, foram tão respeitados que pode se considerar a data de 912 (seu batismo) como o final das grandes invasões Vikings. Rollo tornou-se então uma daquelas raras personalidades que se posicionam como marcos da história. Referindo-nos a acontecimentos os situamos :Antes delas e depois delas.
    Quem desejar conhecer a aparência de um chefe Viking ,encontrará na magnífica catedral de Rouen, construída um século após a sua morte, a imagem de Rollo em repouso, na capela de Nossa Senhora.
     O respeito aos laços familiares, foi talvez a mais duradoura herança deixada pelos escandinavos na Normandia, durante aqueles séculos em que a colonizaram.Para os Vikings um homem não subsistiria nem materialmente, nem tampouco emocionalmente, a não ser como parte integrante de uma família.Sentir-se membro de uma ,era a necessidade mais essencial da alma humana. Os responsáveis por crimes eram invariavelmente proscritos da família, sendo o castigo da solidão visto como o mais terrível e que envolvia também a perda do círculo de amigos.
    Para entender-se o pensamento dos Vikings em relação à família e amizades,lembramos que eles as necessitavam como apreciadores dos seus feitos. Tinham os deuses como modelos, mas nenhum de seus atos de coragem era feito para agradá-los mas sim para receber a aprovação do seu grupo de relações. Um reconhecimento público de sua coragem ,o merecimento de presentes, revertia sempre para aumentar a honra, não apenas do indivíduo que os recebia, mas sobretudo a do clã familiar.
    Antes mesmo de a Normandia tornar-se um território unido num só ducado, Rollo fez da então vila de Bayeux, situada numa região que hoje prima por suas pastagens e agricultura, a futura sede da dinastia dos duques normandos quando casou-se com a filha do senhor feudal daquela região e colonizou-a.
    As marcas de sua colonização vivem ainda hoje fortemente na riqueza dos campos, na zona do Contentin e na terra de Caux normanda. Afinal, para os escandinavos, as lidas do campo eram tão habilmente executadas como as do mar.
    O recebimento de um ducado e da mão de uma mulher de estirpe, longe de sua terra no outro lado do oceano, deverá ter parecido ao chefe Rollo como coisas que lhe eram devidas.

Os irmãos Rollo (Clive Standen) e Ragnar (Travis Fimmel),
na série Vikings.

    Na verdade, a chamada ”corrente Viking” que vasculhou as costas marítimas, ao sul, a oeste, para a Groelândia e até a América, foi oriunda de chefes regionais dinamarqueses, suecos e noruegueses, de fazendeiros aristocratas que vinham herdando de geração para geração a propriedade de terras. Assim, o Viking Rollo era daqueles homens que lidava com o poder como se ele fosse um bem que lhe era de direito pelo simples ato de ter nascido.
     Suas bodas com Popa deverão ter seguido os costumes vikings ,que faziam do início de uma família festividades que duravam vários dias, e eram tidas como a mais importante da sua vida social. Nelas, apareciam as grandes paixões vikings: Poemas difundidos pela tradição oral, o contar de histórias sobre o feito dos seus guerreiros e seus deuses, e a dança. Nesta, vários camponeses enlaçados pela cintura, atinham-se principalmente a coreografia dos pés, aos moldes das danças russas e eslavas que hoje assistimos. Rollo gerou filhos que empenharam-se em reconstruir abadias que seus próprios ancestrais haviam destruído e auxiliaram os monges a criar monastérios ao novo estilo romanesco regional mais tarde conhecido como Normando.
    O estilo romanesco normando iria espalhar-se na Inglaterra, tendo na Abadia de Westminster o seu mais belo exemplo.  depois que Guilherme o bastardo, o mais conhecido descendente do chefe Rollo, atravessasse o Grande Canal para conquistá-la à linhagem normanda dos Vikings.
    Ao criar em 911 d.C. o primeiro ducado da Normandia, Rollon abriu através deste seu descendente ,que lhe herdou a pertinácia,a grande prosperidade da região.

Joana D'Arc - A guerreira Mística

A integração cultural ilha inglesa e continente europeu, para a qual Guilherme com a conquista dera o primeiro passo, custaria para as populações da França e Inglaterra longos períodos de sofrimento. Os desajustes entre ambas iriam ser levantados apenas pela ambição das casas reais dos dois países, todas as duas se achando com direito legítimo ao trono francês e não por quaisquer sentimentos de nacionalismo de suas populações, pois na realidade, estes sentimentos se tornariam fraco à medida que cada porção feudal fora se isolando dentro de sua própria autonomia.
Joana, a guerreira mística.
    Porém, por traz dos acontecimentos, só uma coisa naturalmente importaria: O crescimento da consciência dos homens, que iriam encontrar experiências novas para vivenciarem. Pelo séc. XIV além daquele grande conflito externo vivia-se na França justamente uma fase de transições políticas, onde iriam fazer face à grande transformação do regime feudal para o monárquico .
    O sentido de pertencer a facções feudatárias isoladas, separadas por rivalidades dos territórios vizinhos, isentas de sentimentos de unidade a um centro, iria ser substituído por aquele de estar inserido em um todo de país e isso se daria através do fortalecimento da monarquia francesa.
    Participante também deste contexto, onde o feudalismo se esfacelava, a Normandia viu o engrandecimento do sistema monárquico resultar na perda de sua autonomia, tendo sido anexada ao reino francês.
    Como até hoje os povos, não têm conseguido atingir suas mudanças a não ser através de conflitos, quando em 1346, o rei inglês Eduardo III, intitulando-se rei da França invadiu-a pela Normandia já uma das guerras mais longas da História tivera início: A chamada Guerra dos Cem anos. Na 2º década do séc. XV.  haviam ainda dois reis disputando a coroa francesa: Henrique IV da Inglaterra e Carlos VII herdeiro da França.
    Não podemos imaginar o que significava para a população campesina da Normandia ,atravessar mais de três gerações vendo os campos invadidos por homens de guerra, que largavam devastação e mortos onde quer que se enfrentassem face à face; dividir com os guerreiros suas habitações, que para a maioria da massa camponesa era de uma simplicidade extrema, construídas de argila e madeira, com poucas aberturas,enfumaçadas,onde ao rés do chão dormia toda a família sobre um leito de palha e em peça-estábulo resguardava-se o gado do frio;o quanto lhes custava prover os soldados com os pães de centeio, o queijo,o toucinho que haviam armazenado para si. Difícil também imaginar a movimentação dos postos de beira de estrada, que deveriam estar sempre à disposição das trocas de utensílios de montaria e ter sempre água e feno suficiente para alimentar os animais das tropas, como uma obrigação que lhes deviam;avaliarmos a pilhagem a que nos vilarejos estavam sujeitos os artesãos e oficinas (sabemos que a Guerra dos Cem Anos notabilizou-se pela pilhagem).
    Este conflito tão extenso,que teve apenas uns anos de trégua, quando a peste negra do séc. XIV grassou em toda a população européia, ora pendia à favor da facção inglesa ora para a francesa e talvez se arrastasse indefinidamente se o inusitado não houvesse acontecido: O aparecimento de alguém que iria envolver a França num fervor, num entusiasmo nacionalista que conclamando populações, poria fim a este impasse.

Joana a guerreira.

    Não se tratava de um chefe guerreiro ou de um cavaleiro nobre, mas apenas de uma pastora de 17 anos. Somente um ano custou-lhe para levar Carlos VII a ser coroado rei da França na catedral de Reims .Isto era algo complicado no momento pois Carlos VII havia sido deserdado e tirado de seu direito ao trono francês por seu pai Carlos VI que iria dar o trono em herança ao rei inglês.Isto porque os ingleses haviam difundido que a mãe de Carlos VII era uma libertina e que ele era portanto uma bastardo. Influenciado por esta desconfiança, o rei o desertou e assim a Inglaterra estava prestes a pegar o trono francês.Podemos avaliar melhor como Joana D’Arc conseguiu levar o herdeiro à Reims dividindo a vida desta guerreira em três etapas.
    A primeira aquela em que aos 13 anos trabalhando nos campos de Donremy onde nasceu, parava suas tarefas assaltada que era por manifestações místicas. Enquanto os ingleses ocupavam o noroeste da França com um grande reduto fortificado em Orléans, Joana vivia as agruras da guerra, preocupada como todos com a fraqueza e hesitação do pretendente francês em assumir o trono. Passou então a ouvir vozes que lhe pediam para libertar Orléans.   Sua biografia nos diz que durante três anos teve contato com manifestações transcendentes a ponto de achar que o arcanjo do monte St. Michel lhe aparecia para instigá-la a envolver-se diretamente na guerra, sob sua assistência. Em 1429 ela aceitou estes chamamentos e dirigiu-se ao governador de Vancauleurs pedindo permissão para ser um “Homem de guerra” Foi a primeira mulher na Idade Média que envergou um uniforme masculino, como medida de proteção em seus caminhos até Chinon castelo residência de Carlos VII, onde iria confiar-lhe suas intenções.
    Escoltada por apenas seis homens de armas Joana chegou a Chinon após muitos dias de cavalgada passando por campos comumente assolados por bandos de soldados ingleses. Porém, como não encontrou um único em seu trajeto, as populações entenderam isto como um milagre e a persuasão a sua causa lhe foi facilitada. Fala-se em Joana jejuando e orando durante dias em uma estalagem para obter a graça de falar com o Delfin Carlos VII. A multidão que a seguia era então já grande e conseguiu por isto ser recebida no castelo.
    O visitante que vai a Chinon no vale do Loire, ouvirá contar como as coisas não foram fáceis ali para aquela camponesa ousada.Todo um aparato havia sido montado para intimidá-la. A descrença sobre sua capacidade guerreira era naturalmente grande entre os cavaleiros nobres.Alem disso, não admitiam ela pretender uma vitória que eles, experientes homens de guerra, não haviam ainda logrado.
    Trezentos destes nobres enchiam o grande Hall, iluminado por um número imenso de archotes, os cortesãos estavam engalanados em trajes de cerimônia e o herdeiro no meio deles.
Carlos VII, ele próprio não estava bem certo de ter um direito legítimo ao trono , mas chegou a acreditar nisso quando ela , sem intimidar-se ,com firmeza lhe assegurou que, em nome do Senhor Cristo ,ele seria o rei e que Deus a havia encarregado de anunciá-lo e coroá-lo em Reims.
    Seus cavaleiros contudo, foram mais cautelosos Puseram-na
durante três semanas reclusa , numa observação onde vários médicos e mulheres experimentadas em casos de bruxaria, decidiriam se ela de fato era a enviada de Deus ou feiticeira. Tipo de preocupação que naqueles tempos medievais da Inquisição e da caça as bruxas era perfeitamente normal.
    Naquelas semanas, as suas atitudes simplórias e ingênuas, sua firme confiança no que ela chamava de “sua missão” e principalmente a inteligência de suas respostas, acabaram por demover o cepticismo dos mais intransigente.
    Na segunda etapa de sua atuação, a veremos já de posse de um exército fornecido pelo herdeiro, a caminho da praça de guerra, embora seja dito que seus conselheiros militares fizeram tudo para que ela,desconhecedora da região de Orleans, fracassasse, dando lhe informações errôneas da situação lá. Artimanha que causou a chegada do grosso da tropa só alguns dias após ela já estar ali, acompanhada apenas de poucos soldados. Também os militares de Orléans receberam-na com visível contrariedade e tudo fizeram para impedi-la a tomar a Bastilha de St. Loup, a bastilha de St. Jean e o Boulevard de Tourelles.
    Se pudermos aceitar que alguém possa estar investido de forças sobrenaturais, acharemos que Joana certamente estaria sustentada por elas, pois foi conseguindo vitórias após vitórias, apesar da desesperada resistência dos ingleses e das dificuldades impostas pelos próprios rivais franceses.
Imagem clássica de Joana D'Arc
como guerreira.
Joana porém, contou com a idolatria quase mítica dos cidadãos de Orléans e de sua tropa em relação a ela. Conseguiu refrear as orgias e libertinagens da soldadesca. Elas eram, na época um lugar comum e o maior pavor das populações nos lugares sitiados e tomados por combatentes. Estava investida de um halo de pureza e misticismo. Desde a sua vivaz aparência de juventude, ressaltada dentro de uma armadura reluzente, seu cavalo branco, até o estandarte que mandara confeccionar: De seda também branca, que além de bordado em flores de Liz, de fios dourados, tinha bem acima sobressaindo-se os nomes de Jesus e Maria.
     Só lembrando-nos do fervor religiosos todo feito de medo da era medieval, podemos imaginar como ela conseguiu incitar seus soldados a que se atirassem a cada combate com tanto ardor.
    Nesta luta cheia de situações muito críticas, onde mostrou um desassombro e tino militar invulgar, talvez a mais emocionante seja aquela em que, para animar sua soldadesca a segui-la, atravessou ela própria os fossos da fortaleza de Orléans a fim de levantar uma escada sobre o muro. Ferida entre o pescoço e o ombro por uma flecha, tombou. Neste momento ouviram-se vindas da fortaleza as exclamações jubilosas de todos os ingleses: A feiticeira está morta! Está morta!
    Feiticeira ou não, o fato é que os arquivos sobre sua vida afiançam que “embora gravemente enferma os anjos lhe aparecem e em poucos dias a curaram”. Quando retornou ao ataque, os ingleses que a julgavam morta, apavoraram-se ante sua presença e o seu estandarte e abandonaram as muradas, refugiando-se no interior do forte. Lançada a confusão entre os inimigos, as tropas de Joana e a população de Orléans que a auxiliava, tiveram tempo suficiente para tomar a fortaleza Finalmente os ingleses capitularam sob um ataque vindo de todos os lados.
    Teríamos a terceira etapa na tragédia que a envolveu, após ter visto coroado o herdeiro da dinastia de Valois, conforme prometera a seus anjos. Joana estava então em seus 17 anos, mas não teria vida suficiente para ver consolidar-se a monarquia da França. Em maio de 1431 seria queimada viva na praça do mercado da cidade normanda de Rouen.
    Só a coroação na catedral de Reims legitimava para os franceses a sagração de um rei, pois lá durante mil anos naquele mesmo batistério ,onde havia sido batizado Cloves o primeiro rei franco todos os reis da França haviam sido coroados. Assim Joana havia insistido com os chefes militares para tomarem Reims, então ocupada pelos ingleses e levar ali Carlos VII, Levantara com isso uma apoteótica comoção por parte do povo, que delirantemente a ovacionava.
    Com a coroação o nacionalismo da França se pôs alto. Foi esquecido então o mito temeroso da invencibilidade das tropas inglesas, que dificultava tantos combates, criado desde as vitórias da Inglaterra em Crecy, Poitiers e Azincourt. Contudo, por estes tempos, agora de glorias, a França estava assolada por lutas internas ,por uma verdadeira guerra civil entre o feudo da Borgonha, que apoiava os ingleses e daqueles partidários do rei.    
Joana D'Arc na fogueira.
Em 1430, o duque da Borgonha iniciou a tomada da região de Compiegne a 80 km de Paris. Convinha-lhe possuir um território que lhe permitiria unir os feudos borgonheses à rica região de Flandres, que já lhe pertencia . Joana encaminhou-se então à Compiegne para defender as terras do rei. Ali, contudo, sua caminhada guerreira chegaria ao fim. Foi capturada. Mesmo prisioneira dos borgonheses, ela representava ainda uma ameaça à Inglaterra que desejava fosse ela declarada pelas autoridades eclesiásticas uma ‘Feiticeira enviada pelo diabo”.
     Pressionados por razões econômicas, como impostos cobrados por parte dos ingleses, os borgonheses anuíram em vender Joana para aqueles ,pela quantia de 10.000 ducados de ouro. Num julgamento que durou meses, conduzido pelo bispo de Beauvais, para ela sobraram apenas duas opções: Ou arrepender-se assumindo como bruxa, o que a levaria ao cárcere perpétuo ou seria queimada viva, porque sendo, segundo as conclusões dos eclesiásticos, mesmo bruxa,  não estava se arrependendo.
    Afirmando sempre a sua missão transcendente, foi queimada então em uma imensa fogueira, conforme o costume de se queimar vivos os heréticos, estabelecido pelo tribunal da Igreja desde o século XI.
    Rouen, a velha capital do primeiro ducado de Rollon, o normando, e de Guilherme o conquistador, é hoje um dos portos mais movimentados da França. Todavia Rouen atrai sobretudo os amantes da arte e história,os primeiros pela sua magnífica catedral gótica do sec.XII e pela beleza de St. Maclou, obra prima gótico-flomboyant e os últimos evidentemente pelas lembranças locais de Joana D’Arc .
    Ao entramos na igreja que leva o seu nome, na praça do mercado, estaremos pisando o local onde foi queimada e se verá a estátua que dá a ela uma conotação mais santa do que guerreira (.Quinze anos após a sua morte o papa proclamava o erro do tribunal e sua inocência, porém só em 1920 seria canonizada por Bento XV.) Quem duvidar do sempre vivo tradicionalismo francês, deverá observar que cinco séculos após ter acontecido estes fatos, lá estão permanentemente flores frescas colocadas ante seu pedestal .A grande ação de Joana D’Arc não foi, sem dúvida, coroar este ou aquele rei. Porém, porque conseguiu levantar o sentimento unitário que justamente com todas as aquisições culturais que, desde o século XII vinha provocando um verdadeiro despertar naquela civilização ainda rude, formou a base da unidade francesa.
    Os episódios de sua vida seriam vistos como inacreditáveis se houvessem sido concebidos pela mente de um ficcionista, mas a história muitas vezes supera a ficção em fantasia.


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A Bruxaria Feminina


A lenda bíblica cita Lilith como a primeira companheira de Adão, antecedendo, portanto à Eva. Atribui a ela uma divergência com Deus que a fez ser expulsa do paraíso. Há referências a ela tanto na Torá como no Talmud, livros sagrados do Judaísmo. Teria ela então ido conviver com o demônio. Tais ideias deu início ao pensamento que fez da mulher o centro das práticas bruxescas, dando à bruxaria uma conotação eminentemente feminina. Bruxaria significa então práticas e magias demoníacas induzidas a fazer o mal.
Lilith, a primeira
mulher de Adão.
   Lilith teria uma aparência dupla enganadora, uma face bela e jovem, mas pés de coruja e asas de morcego. Era de natureza arrogante, pois, segundo as escrituras sagradas judaicas, enquanto Eva foi feita de uma costela de Adão, portanto submissa a ele, ela, Lilith, teria sido feita do mesmo barro que ele, por isso igual a ele. Foi então a primeira mulher a rebelar-se contra o sistema patriarcal.
    Numa antiguidade muito remota lá pelo 3° milênio A.C. na região da Suméria, apareceu a primeira mulher bruxa de nome Lilake. Então os sumerianos passaram a crer numa deusa de nome Inana que protegia os homens de manifestações demoníacas femininas. Esta deusa prendia esta mulher maligna dentro de um grosso e imenso pé de Salgueiro para que ela não perturbasse os inocentes homens.
   Séculos depois, a Grécia nos deu a crença em Hécate. Era uma deusa encontrada nas encruzilhadas. Uma encruzilhada é, como bem sabemos através dos cultos Afro, o lugar onde vivos e mortos se encontram. Nelas os mortos recebendo dos vivos oferendas. Então, Hécate tinha o poder de afastar dali espíritos malignos e era por isso muito homenageada. Possuía um séquito de cães que habitavam as margens do rio Estingue ,o rio que leva ao mundo dos mortos. Tais cães latiam para chamar os moribundos a morrer, então os doentes temiam muito a figura de Hécate. Era por outro lado protetora das mulheres grávidas sendo chamada então de “parteira celestial”. Hécate era assim detestada por uns e amada por outros.
   Na Idade Média ,lá pelo século XV a vida feminina estava um caos. A nada a mulher tinha direito. E ao mesmo tempo os Sabás (encontros bruxescos) proliferavam. Provavelmente seus maiores frequentadores eram mesmo as mulheres. Podia-se bem compreender o porquê: Casavam se muito meninas ,entre 12 e 13 anos, com homens bastante mais velhos do que elas. Estes, seguidamente as deixavam durante meses para irem guerrear em feudos distantes. Elas então fugiam de casa para irem à Sabás levando no coração esta esperança: Livrarem-se através de magias desses maridos que viam como opressores. Vê-los ,quem sabe, transformarem-se em lobos que vagariam perdidos pelas florestas sem possibilidade de um retorno. Para o recurso de saciarem desejos sensuais e românticos juvenis tinham sempre à mão pajens guardiões jovens que habitavam mansões e castelos e que as vezes muito providencialmente ficavam encarregados de cuida-las.
Cerridwen e seu caldeirão.
   Numa reação da Igreja ao comportamento destas esposas meninas, em 1484 foi escrito o livro “Malleus Maleficarum” (O Martelo das Feiticeiras) por dois inquisidores. Este foi o documento fundamental que desencadeou a maior onda de perseguições e horrores ao feminino nas sociedades europeias pelos séculos que se seguiram. Fala-se que em Saragoza, na Espanha, teria sido queimada a primeira vítima na fogueira uma mulher de nome Gracia la Valle.
   Quando hoje passamos pelo Caminho de Compostela ouvimos falar das bruxas de Zugarramurdi o mais famoso caso na região de Navarra. Tal caso gerou um filme muito premiado em 2013 do mesmo nome. “As Bruxas de Zugarramurdi” onde, segundo o enredo, foram queimadas na fogueira perto de trezentas mulheres, entre elas crianças. Foram acusadas de terem atos sexuais com bodes, tomarem caldo de sapo, e conviverem com animais como gatos negros, e corujas.
   Havia porém desde a Antiguidade uma diferença entre bruxas e feiticeiras. As primeiras dedicavam-se a magias maléficas, as segundas possuíam poderes paranormais de adivinhações, poderes extraordinários com os quais se vingavam apenas de magias feitas para o mal. Assim, segundo a lenda, tivemos feiticeiras instruídas nas cortes do rei Arthur na região de Avalon que era encoberta ao mundo por grandes nevoeiros. Resultou deste culto de Avalon a crença francesa em sua principal feiticeira (la sorcière): Morgane. Na floresta de Paimpont situada no norte francês, ela é lembrada até hoje. Lá existe um vale chamado “O vale sem retorno,” porque ali o espírito de Morgane espera os homens infiéis e vinga-se de infidelidades que recebeu de seu homem amado, jogando-os a cair de um penhasco, levando-os à morte. Na Idade Média, época de grande crença em magias, muitos homens infiéis não entravam naquela floresta, temerosos do espírito de Morgane.

Casa onde viveram as bruxas de Salém.

Votamos aos bruxedos lembrando o famoso caso das Bruxas de Salém, acontecido em Massachusetts no final do séc. XVII. Tudo começou quando mulheres simpatizantes do ocultismo tiveram pesadelos e foram examinadas por médicos .Estes atestaram que elas estariam embruxadas.  Todas do grande grupo que eram foram queimadas vivas. Tal episódio também, resultou numa extraordinária peça de teatro de nome” As bruxas de Salém “ do grande dramaturgo norte americano Arthur Miller, que foi casado com Marylin Monroe.
   Não era difícil descobrir-se se alguém era bruxa  Estas passavam pelo teste do Ordálio. Este consistia em fazer as acusadas colocarem as mãos e pés sobre brasas incandescentes e somente se não se queimasse , o que naturalmente nunca acontecia, tinham direito a um julgamento, também fraudulento, livrando-se então da fogueira.
   Não escapou também de perseguições. a heroína francesa Joana D’arc aquela que conseguiu acabar com a guerra dos cem anos. Após esta façanha memorável, viu-se envolvida em intrigas políticas e foi acusada de bruxaria e  ante   o Tribunal da Santa Inquisição  foi queimada na praça do mercado de Rouen.

Bruxas de Zugarramurdi queimadas na fogueira.

  
No Brasil, apesar da afro-brasileira ter expandido em todo o nosso território uma magia rica em amuletos , despachos ,guias, para se obter o “corpo fechado” e aceitarmos práticas de possessões bem semelhantes as do Vodu haitiano, apenas em um dos nossos Estados existiu o protótipo perfeito da bruxa, na verdadeira conotação do termo: Em Santa Catarina após a chegada dos imigrantes das ilhas dos Açores em 1748.
   Franklin Cascaes foi  o grande conhecedor e   amante das particularidades da antiga Vila Nossa Senhora do Desterro, antigo nome de Florianópolis, Em seu precioso livro “O Fantástico na Ilha de Santa Catarina” nos conta sobre as práticas bruxescas usuais em sua infância. Fala sobre um novelo de lã dado pelo demônio para a mais velha do bando de bruxas, que era uma espécie de cetro do poder que lhe era passado. Quando a bruxa estava por morrer ela subia pelos ares desenrolando o novelo, o que causava uma disputa para pega-lo, pois quem o conseguisse seria a nova chefe do bando. Conta-nos ainda que as bruxas faziam artes como dar nó nos rabos dos cavalos, galopar com eles pelos ares,  depenarem galinhas nos puleiros,  enliarem as linhas dos pescadores.
   Atualmente ainda encontramos lá mulheres bruxas em locais onde antigas crendices sobrevivem, como Ribeirão da Ilha e Santo Antônio de Lisboa. Em locais interioranos acredita-se existir bruxas embora não com as características sensuais das bruxas medievais São então convidadas a    se afastarem com orações como esta: ”Tosca marosca, rabo de rosca, grilhão nos pés, relho no traseiro.  Bruxa tarata bruxa, não  entre na casa por todos os santos e santos, amém.”
   Hoje no Estado, encontra-se mais mulheres apenas feiticeiras ou com função de benzedeiras muito procuradas a favor de “malinhados “pessoas que são vítimas dos chamados “olho grande”. Caso apareça na comunidade alguma pessoa advinhada como tendo poderes maléficos,  geralmente benzedeiras são chamadas  para neutralizar suas ações o que na Ilha se chama “Amarrar a bruxa “. Após mais de duzentos anos  de imigração açoriana constatamos que a velha concepção de que a mulher conta com um lado de poder mágico que lhe serve de defesa  contra realizações de desejos benignos e malignos ainda vive no imaginário de muitos na Ilha de Santa Catarina .
   Somos ressaltadas na religiosidade judaico-cristã como estas bruxas perseguidas ou com duas faces antagônicas de bem e mal  como a deusa Yeuá dos mitos afros. Ela, durante a noite, era a  belíssima lua cheia que refletida numa simples poça d’água apaixonava quem a fitasse. E, dava prazeres sensuais aos homens mas ao surgir o sol fugia dele, punha um manto preto sobre si para esconder uma face horrenda que possuía, tornando-se a escurecida lua nova.

Museu da Bruxaria, em Salém...
   Por outro lado, recebemos também de outras tradições muitas homenagens. Fomos deusas como a Isis egípcia. Ela que era as margens do Nilo, recebia de Ozires, o rio , de suas margens as suas aguas o seu sêmen fecundante. Então Isis fertilizava o Egito com espécies vegetais tão enriquecedoras como o papiro.
   Somos também consideradas Jacy, lua refletida nos rios amazônicos, somos ainda ali Jacy o grande recurso de pedidos de auxílio dos nossos ribeirinhos indígenas.
   Também já fomos Cerridwen a celta que trazia nas mãos um caldeirão onde preparava poções mágicas que traziam o dom da adivinhação. Foi ela que deu a Merlin o grande companheiro do rei Arthur, suas possibilidades  advinha tórias.
   Apesar de até a Idade Média sermos ainda consideradas pelo Cristianismo como símbolo do pecado, fomos depois resgatadas com todos os cultos dados à Maria, mãe do Cristo, em suas varias versões: Senhora das Dores, Senhora da Saúde, Senhora de Lourdes, Senhora de Fátima e tantas outras.
   O esoterismo nos reabilitou do crime judaico-cristão  do fato de ter feito o homem perder o paraíso por um simples gesto de curiosidade. Fez da curiosidade a maior dom feminino. Ensinou-nos que ela nos faz querer vivenciar o bem e o mal, encarnar-se varias vezes, evoluir. Enfim, tirou  da alegoria de Adão e Eva  a conotação sensual do pecado original.


domingo, 29 de setembro de 2019

O Saudosismo Criando Mitos de Retorno

   Todos os povos prezam a memória de seus ídolos passados, mas alguns fazem mais: Seu imaginário popular acredita firmemente em suas voltas míticas para liberta-los de momentos adversos.
O retorno de Jesus...
   O Cristianismo crê na Parúsia, o segundo advento do Cristo. Já na Apocalipse a Bíblia dizia que Ele viria lutar contra uma figura bestial: O Anticristo. Introduziria uma nova era de paz conhecida como o Millennium, pois duraria mil anos. Jerusalém se tornaria então a capital do mundo e os Judeus reconheceriam por fim a figura de Jesus como o messias esperado em suas profecias.
   O Sebastianismo foi durante mais de um século o messianismo português. D. Sebastião, neto de D. João III, no século XVI gerou uma crença em seu retorno, após ter desaparecido, sem deixar vestígio de um corpo, no norte da África, durante a batalha de Alcácer-Quibir em 1578, quando foi combater islâmicos do Marrocos.
   Passou-se então a acreditar numa volta sua pondo término à crise dinástica que pôs os reis espanhóis no trono português. Afirmava-se até que ele, chamado já tanto de “Capitão de Deus” como de “O Rei Encoberto”, surgiria numa manhã de muito nevoeiro e que restabeleceria toda a glória perdida de Portugal, esperança que naturalmente nunca aconteceu.
   Também no Islã, segundo o Alcorão (43,61) Jesus retornará aparecendo em Damasco , como redentor do Islamismo. Unir-se–ia ao Madi iluminado em sua guerra contra um Anticristo inimigo do Islã. Tornar-se-ia um governante islâmico de grande justiça.
   Surpreendentemente Alice Bailey, uma renomada esotérica ocultista, fala em seu livro “Magia Branca” que a pessoa de Jesus voltaria em uma nova encarnação entre os Drusos do Líbano. Estes, Ismaelitas (Filhos de Ismael), Xiitas do Islã. Grupo muito místico que acredita em reencarnações e são também pacíficos, não se envolvendo em lutas. Enfim, Jesus retornaria como um islâmico não fundamentalista, amante da paz, para uma esperada renovação pacífica do Islamismo.
   Já no Hinduísmo, Paramahansa Yogananda em sua obra “Autobiografia de um Yogue” interpreta a Parúsia misticamente. Seria uma grande mudança interior que aconteceria brevemente em cada indivíduo, introduzindo no mundo uma era de fraternidade.
   Entre as duas facções rivais dos Xiitas islâmicos estão os “Filhos de Ismael” e os “Filhos de Musa”. Entre os últimos, estava Musa como seu mais amado Imã. Os Filhos de Musa creem que em sua descendência estarão 12 Imãs (Iluminados). O próprio Musa desapareceu de modo misterioso. Saiu a cavalo e este voltou só e Musa jamais foi visto. Então, seus “filhos” acreditam que um dia ele voltará como o duodécimo Imã, como um messias que espalhará o Islã em todo o mundo, o que é o ideal último de todo Islâmico.
   O Budismo Tibetano antecipou-se a todos os Retornos idealizando uma outra encarnação do seu grande Avatar, Bodhisatwa Avolokitsvara: Fê-lo renascer na figura impar e mais adorada do budismo chinês: Mãe Kuan Yin.
Francisco Pizarro,
invasor do reino Inca.
   No Peru, a chegada de Francisco Pizarro de pele clara, apontando no mar, trazendo seus navios cheios de cavalos, animais desconhecidos do nativo peruano, coincidiu  com a espera inca do deus Viracocha que voltaria com uma aparência diáfana para   resolver a crise civil alastrada pelo país pela desavença entre os irmãos Atahualpa e Huasca. Inicialmente, até que os incaicos se confrontassem com a crueldade e traições dos invasores espanhóis, os cabelos louros e a pele clara de Pizarro facilitou sua chegada e muito nativos  até fizeram sacrifícios em louvor ao deus que esperavam e que por fim viam chegar pelo mar .
   Ainda no Peru, Tupac Amarú foi o guerreiro mais amado do glorioso passado incaico.
   Segundo uma crença peruana, divulgada por guias turísticos, existiria no país ainda hoje uma aldeia montanhosa habitada por tecelãs tão tradicionais que se intitulam ainda de “adoradores do sol”. Em tal aldeia, se encontraria uma gigantesca tela bordada que tem como tema Tupac Amarú, ultimo resistente Inca. Trata-se de um trabalho em lã e penas do pássaro Colibri Dourado. Este, sendo um pássaro raríssimo de ser encontrado nas matas, dificulta terminar-se a tela que pretende atingir até os ombros um busto deste líder. Creem que ao terminarem a tela, Tupac Amarú, que fora decapitado pelos invasores em Cusco, renascerá. Sob a direção do reaparecimento deste guerreiro, a região peruana atingirá novamente o seu perdido e usurpado esplendor.

Em Cusco, comemoram o heroísmo de Tupac Amarú. 

   Estes mitos que expressam o desejo de perpetuarmos a vida de figuras importantes para as mudanças sociais da humanidade, na realidade expressam apenas desejos irrealizáveis. Porém, sem dívida , ao subestimarmos o valor dos mitos, certamente tocaríamos nas esperanças que vivem e alimentam o imaginário e o coração de muitos homens.